13 Reasons Why me fez refletir para questões além do suicídio

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(Contém spoiler) Por Gabriela Cunha Ferraz, no Justificando

Ilustração

Acabei de assistir “13 reasons”. Ainda não li todas as críticas, mas ouvi algumas opiniões e pensei que ainda falta agregar uma visão ao debate: A de uma mulher que se percebeu vítima, depois de assistir à série.

Entendo todas as críticas feitas à cena do suicídio e me solidarizo com a preocupação de que essa série pode, sim, desencadear uma sequência de eventos que são, realmente, muito perigosos. A série enaltece o ato do suicídio, ao mesmo tempo em que mexe com sentimentos profundos. Por isso, ela pode afetar, profundamente, pessoas que já se encontram em um estado grave de depressão. Eu entendo essa perspectiva, mas também vejo o ponto de que muitas mulheres que sofreram e sofrem caladas, se enxergam na pele da protagonista da série e que essa identificação pode representar um importante espaço de fala, visibilidade e empatia.

Para mim, essa série fala muito mais sobre empatia e gênero do que sobre suicídio.

Ao debater assuntos polêmicos como estes, faremos com que os tipos de violência abordados na série não se repitam. Minha geração escondeu todas as violências de gênero embaixo dos tapetes, mas a nova geração quer apontar o dedo e mostrar, para todos os envolvidos aonde estão as violências e quais são suas reais consequências. A série erra ao apontar alguns culpados, mas, o ensinamento está em mostrar que para toda ação, existe uma reação e que essa reação depende, única e exclusivamente, do sentimento do agente receptor. Aqui está a ideia do cuidado e a necessidade de cuidar e enxergar o outro acima de tudo, sempre.

É extremamente importante que a série aborde temas como os vínculos de confiança estabelecidos dentro das famílias e em como os adultos podem, ou não, ajudar adolescentes que estão passando por momentos cruciais. Penso como fundamental a abordagem feita em relação a posse e ao acesso de armas pelos adolescentes, vez que quase todos os jovens da série têm fácil acesso às armas dos pais. Também me identifiquei com a questão do Bullyng, dos micromachismos e das falas escritas nas paredes dos banheiros – abordada de forma crucial no filme. Outra questão importante que deve aparecer (mas que ainda está tímida no debate) é sobre masculinidades e o sofrimento vivido pelos homens da série (para isso assistam “The Mask You Live In”).

Porém, além de todos estes pontos considerados como sendo preliminares dentro da trama, é importante que os espectadores, especialmente os homens, sintam-se incomodados em assistir duas importantes cenas de estupro, percebendo que essa violência faz parte da vida das meninas adolescentes de todos os países. As violências descritas na série não são diferentes daquelas narradas nas capas dos jornais e acontecem de forma muito mais frequente e corriqueira do que gostaríamos.

E, aqui, faz-se importante ressaltar que não estamos falando apenas dos dois estupros filmados na série, mas, sobretudo, das cenas onde o corpo da personagem principal é literalmente invadido. Acredito que muitos homens – incluindo os globais, ainda não percebam o impacto que uma “mão boba” provoca, ao tocar as partes íntimas de uma mulher. Muitas vezes, esse ato é naturalizado e integra o cotidiano de jovens que não percebem que estão tendo seu corpo violentado. A personagem percebeu a violência no momento em que ela estava acontecendo e a dor dela foi minha, porque eu não percebi….

Para mim ficou a mensagem de que é normal não ser perfeito. Também ficou a mensagem de que, mesmo aos 35 anos, podemos repensar nosso passado e perceber as violências sofridas chamando cada uma delas pelo nome que elas devem ter. Naturalizar uma violência jamais será o caminho.

Mesmo sabendo que toda generalização é burra, arrisco dizer que todamulher já foi abusada. Me parece difícil encontrar alguma mulher que não tenha sido abusada – sexualmente ou não, na vida. Hoje, percebo que já fui violentada e que eu poderia ter pedido ou encontrado ajuda se, na época, conseguisse identificar o abuso. Porém, exatamente por não falar disso, eu não soube que estava sendo abusada e me calei. Como de costume, assumi a culpa que eu achava que tinha, engoli seco e segui em frente, propagando a alegria que se espera de uma mulher.

Ao não abordar estes temas, não percebemos que outras mulheres (todas) sofrem com a mesma opressão. Na verdade, a dor vem da solidão. A dor de sofrer sozinha e a dor da culpa que a solidão carrega é determinante. A solidão mata pela culpa silenciosa. O que fica na nossa cabeça é: “Se isso aconteceu comigo, é porque eu devo estar errada, já que ninguém mais fala sobre coisas parecidas”.

Na própria série, fica claro que as famílias estão muito mais preocupadas com a questão do Bullyng do que com as questões de gênero que podem estar acontecendo. Arrisco dizer que enquanto as questões de gênero não aparecerem como protagonistas das problemáticas da vida, não poderemos ter jovens e adultos mentalmente sadios.

Essa série é complexa e ocasiona danos profundos em quem assiste. Creio que é uma lástima que a cena do suicídio – que merece ser refletida, acabe roubando a cena e evitando que todo o debate de gênero aconteça de forma mais profunda. Existem muitas questões nesta série que merecem ser discutidas e existem importantes reflexões individuais que precisam ser feitas. Você já foi violentada? Você quer conversar com alguém sobre isso? Você já abusou de alguém? Você entende o que é consentimento e compreende seus limites? Você sabe o que é abuso sexual?

Essa reflexão aconteceu comigo e é provável que acontecerá com outras mulheres que nunca foram ouvidas ou nunca viram suas violências sendo representadas de uma forma tão evidente. De todas as formas, essa não é uma série para adolescentes!

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, militante, mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Strasbourg, membra do CLADEM Brasil e realizadora do projeto Vidas Refugiadas (www.vidasrefugiadas.com.br)

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