A ambivalência petista sobre Ciro Gomes

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Por André Henrique

Jair Bolsonaro daria um amei em frase de Gleisi Hoffmann sobre Ciro Gomes. Entenda, abaixo:

 

Escrevi em setembro de 2017 o texto “os favoritos para 2018”, alcançando 388 mil visualizações na fanpage do Independente. No texto eu defendo que os candidatos que garantirem a coesão da centro-esquerda e da centro-direita serão os favoritos. Coloquei Lula e Ciro Gomes, como elementos de coesão à esquerda, e Geraldo Alckmin, à direita.

Naquele momento o nome de João Dória ainda estava forte, mas o descartei porque entendi que, pelo seu desempenho nas pesquisas e pelo acumulo de movimentos desastrados do ex-prefeito, o seu projeto de pré-candidato iria às calendas, como acabou indo.

Escrevi que a pulverização de candidaturas favoreceria Jair Bolsonaro e Marina Silva, além de uma surpresa. O tal outsider. O candidato anti-política tradicional. Luciano Huck surgiu e ressurgiu, mas acabou desistindo. Hoje o espaço de outsider poderá ser ocupado por Joaquim Barbosa, pré-candidato do PSB à presidência da República.

Os elementos novos são a prisão e a inelegibilidade do ex-presidente Lula. Mesmo fora da cadeia, por ter sido condenado em segunda instância, pela Lei de Ficha Limpa, a candidatura do petista será cassada pelo TSE.

Martelar o nome de Lula para o PT é importante para manter o capital político do ex-presidente em condições de inferir na disputa a favor do partido, ainda que diletantes acreditem na improvável candidatura dele.

O senador Jacques Wagner em entrevistas procura ressaltar a possibilidade de o PT abrir mão da cabeça de chapa e apoiar uma candidatura do campo progressista, a de Ciro Gomes, por exemplo. Fernando Haddad esteve com Ciro Gomes e o cientista político Luiz Carlos Bresser-Pereira no escritório do economista Delfim Netto. Haddad é de esquerda. Ciro e Bresser de centro-esquerda. Delfim de centro-direita. O que os une: o desenvolvimentismo econômico-social.

Com o avanço neoliberal, a partir do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, e do fascismo, com a candidatura de Jair Bolsonaro e ações políticas violentas contra lideranças de esquerda,  abre-se um vácuo para o campo desenvolvimentista se unir.

Em outras eleições essa coesão era desnecessária, mas dessa vez não, porque existe a possibilidade de o segundo turno ser composto por um outsider versus um extremista de direita. Uma vez no poder, tanto um quanto outro certamente serão “sequestrados” pela agenda econômica neoliberal, portanto, para o mercado, não é tão dramático que a centro-direita política esteja rachada. Já para a esquerda uma coesão no primeiro turno poderia garantir a sua presença no segundo turno, contra uma direita que tem sérios problemas com a urna, nas eleições presidenciais.

No entanto tal coesão não acontecerá sem doses de temperança e abnegação. Encerrei o texto “os favoritos para 2018”, assim: “Marina Silva e Jair Bolsonaro contam com a pulverização de candidaturas, tanto de um lado quanto de outro. A bola está nas mãos dos líderes do eixo centrista, à esquerda e à direita”. Ao ser perguntada sobre a defesa do senador Jacques Wagner (PT-BH) a um eventual apoio do PT à candidatura de Ciro Gomes, Gleisi Hoffmann chutou a bola pra fora: “mas ele não sabe que o Ciro não passa no PT nem com reza brava”.

Frases como essa ganhariam um coraçãozinho de Jair Bolsonaro, Joaquim Barbosa e Marina Silva se estivessem em um post do facebook da presidenta do PT.

Falas incendiárias acirram ânimos desnecessariamente, pois produzem respostas inflamáveis. Ciro Gomes rebateu: “tenho pena de ver uma pessoa com a responsabilidade da presidenta nacional do PT dizer uma coisa dessas. Só pra você ter ideia, pra ver como isso é de dar pena. O PDT e eu apoiamos 04 dos 05 principais candidatos do PT a governos estaduais”.

Gleisi Hoffmann errou na temperatura. Ela poderia dizer que o PT está com Lula, até às últimas consequências, e que apenas discutirá alianças no momento certo. Mas da forma como respondeu rechaçou qualquer possibilidade de coesão e produziu incêndio. Claro que as coisas podem mudar lá na frente, mas posições como a da petista evidenciam uma ambivalência entre petistas próximos a Lula (Gleisi, Wagner e Haddad) sobre Ciro Gomes. Resta saber qual o papel de Lula nisso. Nada acontece no PT sem a benção dele.

Aguardemos os próximos capítulos.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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