A “bad” do foco é a solidão

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Cachorro-mordendo

Todo mundo anda dizendo ultimamente que a gente precisa ter foco. Seja no trabalho, ou em metas para a vida. É certo que essa pílula diária deve trazer alguma satisfação, afinal é mais fácil a gente viciar em cocaína do que em alface. No mundo contemporâneo de Marlboro, seria assim: “Foco traz conquistas”. Talvez traga mesmo! Mas não seria o caso de apreciar o foco com moderação?

Considero que esse foco, de que falam, tenha algo a ver com a restrição voluntária do nosso campo de visão. Não acho que isso seja bom, por diversos motivos, destaco apenas um: quanto mais fechamos nossa visão, mais coisas escapam à nossa percepção. Portanto fica mais fácil a gente acabar se vendo sozinho.

Desse modo, quanto mais foco, mais chance para o sentimento de solidão. Cegue para os seus amores e afetos. Cegue para a sua comida e para os seu lar. Cegue para o resto e foco no resultado! Mas qual resultado? Para quem? Quem sobra quando a gente focou e não obteve resultado esperado?

Acho solidão uma boa palavra expressar o que ela busca expressar. Ela fala de estar só e, não sei porquê, mas parece que traz penumbra no seu som. Não é o estar sozinho quando a gente queria estar, isso é outra coisa. Tampouco diz respeito à algum lugar específico, pode acontecer com a gente, no almoço do trabalho, na estação lotada do metrô, vivendo amores sólidos, ou relações zuadas.

Ela trata desse sentimento sombrio que é o de não estar sendo ouvido, visto, compreendido ou amado, quando precisamos justamente do contrário.

O sentimento de solidão, quando bate forte, deixa a gente na fronteira com o sentimento de vazio, que é pior ainda. Pode ser que a gente não chega a cair lá, mas que dá medo, isso dá. E aprendemos com os desenhos da Disney que o medo tem tons escuros.

Digo bater forte o sentimento de solidão em dois sentidos que eu acho mais graves e consecutivos. O primeiro é quando esse sentimento está ligado às impossibilidades concretas de comunicação por parte do sujeito solitário.

Um exemplo bobo seria assim: se você é um youtuber, que se sente solitário, isso é um problema; mas se você não tem nenhum nome na agenda e nem telefone para pedir socorro, isso, clinicamente, me preocupa muito mais. Mesmo que eu me veja equivocado depois. Nesses casos, como analista, me atrevo até a receitar: um pré-pago, uma passagem aérea; dança de salão, ou abrir uma conta no Tinder.

Ou seja, no primeiro sentido, é preciso pensar nos instrumentos de comunicação com o outro que podemos aproveitar para sair do isolamento quando ainda nos sentimos abertos ao outro que nos falta.

O segundo sentido do bater forte seria quando já estamos tão convencidos da nossa própria ausência para o outro, que já não temos nem desejo de comunicação com ele. Mesmo existindo os recursos lógicos e materiais para isso. Descrença na própria fala, nos próprios gestos e na relevância de si mesmo para qualquer outro. Aí, a paulada da solidão pode até matar. É a tal fronteira com o vazio.

Focar nisso ou naquilo, como um recurso para conseguir enxergar o que a nossa atenção difusa nos impede de notar, não parece uma proposta ruim. Assim como não me parece o uso recreativo e relaxante do vinho e de outras drogas. O problema em ambos são as doses, as bads e as ressacas. No caso em questão aqui, sempre que vejo um cachorro sozinho girando para tentar morder o próprio rabo, penso no quanto ele deve estar chapado de foco.

 

 

 

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