“Acordão” com STF, com esquerda, direita, mídia, mercado e com tudo?

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A passividade de líderes políticos de direita é conhecida, pois a luta contra a corrupção simplesmente acabou, mas surpreende a passividade da oposição de esquerda em relação a Aécio Neves e Michel Temer, que estão se livrando de acusações e punições por escândalos de corrupção, sem sofrer pressões políticas de quem – teoricamente – se opõe a eles.

Opinião – Por Rafael Bruza

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-RS) e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no plenario do Senado / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

Assusta a passividade que reina o país nesta quarta-feira (18). Aécio Neves acabou de se salvar do afastamento decretado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pode trabalhar normalmente como nosso funcionário, Michel Temer está prestes a se salvar da segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República – que o acusa de organização criminosa e obstrução à Justiça, mas ninguém demonstra amplo incômodo com esta situação. Parece que é normal ter um dos principais líderes políticos se livrando de acusações sérias de corrupção e um presidente denunciado em escândalos de corrupção parece mais comum ainda.

Sabemos que houve um “acordão” entre os atuais detentores do poder, que visa acabar com a luta contra a corrupção desde a queda de Dilma Rousseff.

Membros do mercado financeiro, do Governo Temer, do empresariado, da imprensa, da bancada evangélica, de movimentos pró-Impeachment, de parte do poder Judiciário e da bancada ruralista literalmente concordaram que a luta contra a corrupção deixou de ser prioridade e mudaram este disco, que nos últimos tempos gerou mais problemas do que facilidades.

A passividade de uma sociedade que saiu para lutar contra a corrupção do PT em 2014, 2015 e 2016 não é à toa: estes atores governistas citados acima têm ampla influência sobre a opinião pública e conseguem, sim, induzir todos nós a ser contra ou a favor do que ocorre em nosso país, em função de seus próprios interesses.

Feito o Impeachment, então, a luta contra a corrupção se tornou um simples discurso institucional, praticamente obrigatório, mas completamente hipócrita, como costuma ocorrer entre os moralistas.

Imprensa, MBL, Vem Pra Rua, FIESP, empresariado, mercado financeiro, partidos liberais, siglas conservadoras e todos aqueles que defenderam a moralização do país durante o Governo Dilma, agora, no Governo Temer, fazem de tudo para esquecê-la.

Isso era esperado, de certa forma, como digo, por conta do acordão que houve em nosso país.

Trecho da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado em que comentam o “acordão” para evitar investigações de corrupção

Mas também surpreende, e muito, a passividade da oposição de esquerda neste momento.

Sites da blogosfera progressista deram atenção tímida à decisão do Senado a favor de Aécio Neves. Muitos só divulgaram a lista de parlamentares que votaram a favor do senador. Outros só fizeram conteúdos que provocam os eleitores do tucano.

É fato que a blogosfera progressista ainda se pauta pela Grande Mídia, como todos nós, e o oligopólio da imprensa não tem interesse em polemizar a decisão favorável à Aécio Neves nesse momento.

Mas oras: se grupos de esquerda não compõem o acordão de Temer, com certo nível de interpretação podemos ver como estes grupos tampouco agiram com todas suas forças para contê-lo.

Houve manifestações de políticos do PSDB contra Aécio Nves que foram mais incisivas do que de líderes de esquerda.

O próprio PT, rival ferrenho do tucano desde antes da eleição de 2014, mostrou total desinteresse na votação que rejeitou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na discussão sobre o afastamento do parlamentar do PSDB, o PT inclusive se posicionou contra o afastamento de Aécio Neves, alegando que esta decisão do STF era inconstitucional.

Tudo bem, a sigla sinalizou que esta posição era uma defesa da legalidade – não de Aécio Neves, argumento bem aceito por parte importante da militância, que viu uma postura coerente e legalista da situação.

Mas logo o partido se limitou a votar contra Aécio Neves no Senado e nada mais.

Dois líderes importantes do partido no Senado sequer estiveram presentes na votação.

A presidente nacional da sigla, Gleisi Hoffman (PT-RS), que é uma das petistas mais seguidas nas redes sociais, está na Rússia com o senador Jorge Viana – que curiosamente é um petista próximo de parlamentares peemedebistas e tucanos – para participar de um encontro de parlamentares dos Brics e da União Internacional Parlamentar.

Agora o partido irá “cobrar celeridade na tramitação da representação contra Aécio no Conselho de Ética do Senado”, segundo a equipe de Gleisi Hoffman.

Mas vão “cobrar celeridade” a um conselho que já arquivou pedido de cassação contra o tucano e que pode muito bem ajudar Aécio novamente.

Diante de tudo isto, a senadora Gleisi Hoffman foi questionada por seguidores em sua página.

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Outros internautas defenderam o PT nestas interações.

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Publicamente, o PT e seus líderes negam aliança com o PSDB, pois ela obviamente seria muito mal recebida por milhões de pessoas.

Mas um acordo de ajuda mútua oculta, institucional e dissimulada pode ajudar na defesa de líderes petistas, que ainda sofrem politica e juridicamente com investigações de corrupção e possuem, sim, interesse em limitá-las.

Então eu não ficaria surpreso se descobrisse fatos concretos que evidenciassem esse acordo de cavalheiros, onde esquerda e direita visariam ajudar o outro em momentos de necessidade.

O PT, assim como os antigos defensores da luta contra a corrupção, deve explicações à sociedade.

Por que este desinteresse todo?

Lindbergh Faria (PT-RJ) foi um dos poucos políticos petistas que denunciaram o “acordão” na votação do Senado e que criaram conteúdos críticos sobre o  caso.

Assim como Lindbergh, outros políticos petistas obviamente se manifestaram nas redes contra Aécio Neves e o “acordão” de Temer.

Mas o clima, no geral, é de passividade.

Nesta situação, o PT, a blogosfera progressista e a militância perdem grande oportunidade de crescer nas redes sociais e botar a boca no trombone para denunciar o fim da luta contra a corrupção e o “acordão” que salvou Renan Calheiros em 2016, Aécio Neves em 2017 e que está prestes a salvar Michel Temer de novo.

Mas por que decidiram perder essa oportunidade para fazer posicionamentos e críticas tão tímidas? Onde estão os sindicatos, os influenciadores de esquerda, os movimentos sociais e as páginas de esquerda com milhões de seguidores?

Enfim, temos perguntas demais, omissão em excesso e falta de transparência por parte de todos os atores políticos importantes de nosso país.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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