Alunos questionam se professor ‘é gay’ e resposta viraliza na Internet

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Após a publicação do texto, Vitor Fernandes sofreu perseguições de Eduardo Bolsonaro e seguidores, que encheram a página do professor de comentários agressivos.

Informação – Rafael Bruza

Uma sala de aula do CIEP Armindo Marcílio Doutel de Andrade, Vila Nova, Zona Oeste do Rio de Janeiro e o professor Vitor Fernandes / Foto - Reprodução (Divulgação/Arquivo Pessoal)
Uma sala de aula do CIEP Armindo Marcílio Doutel de Andrade, Vila Nova, Zona Oeste do Rio de Janeiro e o professor Vitor Fernandes / Foto – Reprodução (Divulgação/Arquivo Pessoal)

O professor Vitor Fernandes já ouviu “algumas vezes” seus alunos perguntando se ele era homossexual. Segundo relata, “geralmente alunas” fazem essa pergunta. Desta vez, no entanto, o professor quis inovar. Questionado novamente sobre sua sexualidade, Vitor Fernandes resolveu fazer um debate com os alunos e publicar o resultado em seu perfil de Facebook. Dias depois, até às 20h desta segunda-feira (26), o texto recebeu mais de 42 mil curtidas, 15 mil comentários e 3 mil compartilhamentos.

“Perguntei a ela (aluna) o que a levou a fazer a pergunta. Qual era o motivo da suspeição da minha homossexualidade? A aluna não quis responder, com medo de uma reação negativa ou até agressiva minha, como é bastante comum na sociedade. Insisti e ela começou a falar. Daí todos os alunos se interessaram muito e começaram a falar também os motivos de suas suspeitas. Resolvi, para ser didático, anotar no quadro os motivos para debater um a um”, relata Vitor Fernandes.

Segundo conta a publicação, os alunos acharam que o professor era gay porque (1) uma aluna “deu mole” e ele não pegou; (2) às vezes ele coloca a mão na cintura; (3) ele faz gestos e fala com características de um homossexual (esse ponto só foi citado por garotos); (4) ele não fala de fala de relacionamentos, namorada, nem da vida pessoal, o que fez no fim de semana, enquanto outros professores falam; (5) é professor novo, moderno, simpático, o que, segundo os alunos, não é característica masculina, (6) outros alunos dizem que ele é gay; (7) ele é vaidoso e se cuida esteticamente; (8) quando questionado por alunos, ele não nega “agressivamente”, mas debateu o assunto dizendo que não era gay sem mostrar provas de que é hétero; (9) ele não é machista; (10) ele tem 30 anos, não casou e não tem filhos, sendo que todas as pessoas de trinta anos que eles conhecem já casaram e tiveram filhos (só gays chegam aos 30 sem casar, segundo os alunos) e (11) ele tem amigos gays.

Olhando essas causas, o professor citou pressupostos sociais como “homem que é homem pega aluna” ao invés de rejeitar que fazem seus alunos pensarem que ele é gay.

Logo o professor explica por que debateu sua opção sexual com adolescentes de 15 anos.

“Primeiro: qual o problema em ser gay? Porque negar isso com veemência? É crime? Imoral? Não. Ser gay ou hétero para mim é como ser flamenguista ou botafoguense. Não tem nada de bom ou ruim em nenhum dos dois.  Segundo: Acho que foi a melhor das oportunidades de debater um assunto tão delicado e proporcionar o acesso à uma outra visão de mundo aos alunos”, explica Vitor.

Por fim, o professor responde a pergunta inicial.

“Não. Não sou gay rsrs e fiquei impressionado com a visão estreita de gênero e sexualidade de adolescentes me pleno 2016, tão limitada e machista. E fiquei imaginando a feroz repressão que os homossexuais sofrem no dia-a-dia. Por outro lado é compreensível os alunos terem essas concepções na cultura onde estão inseridos. Como assim você tem 30 anos e não casou se as meninas têm filhos aos 15 às vezes? (risos) Como assim você não pega aluna que te dá mole? Só pode ser viado rs. Eu resolveria facilmente o “problema” mostrando foto com alguma mulher com que fiquei, mas porque eu me preocuparia em provar a heterossexualidade como quem prova a inocência. Porque usaria uma mulher como prova de algo? Pode parecer engraçado para muita gente ler isso e pra mim foi. Muito. rs Mas para eles não. É o que pensam mesmo. Parece anos 1940, mas é 2016“Imaginem se o projeto ‘escola sem partido’ continua avançando como está. Voltaremos às trevas em pouco tempo. Precisamos debater gênero e sexualidade nas escolas, mais do que nunca! O machismo é opressor com os homens também, se liguem nisso!”.

Ataques de “bolsonaristas”

Na tarde desta segunda-feira (26), a publicação de Vitor Fernandes não aparecia no Facebook. O compartilhamento feito em post do Catraca Livre e do Hypeness também haviam desaparecido.

Ao Independente, o professor indicou que havia mudado a privacidade do texto porque estava sofrendo “ataques” de “bolsonaristas”, que são seguidores de Bolsonaro e de seus filhos.

Captura da publicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) que incentivou ataques ao professor VItor Fernandes
Captura da publicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) que incentivou ataques ao professor VItor Fernandes

Isso ocorreu porque na segunda-feira (25), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) compartilhou o texto em seu Facebook. Com isso, diversos seguidores do deputado entraram em no perfil do professor Vitor Fernandes para criticá-lo.

“Teve gente que foi criticar postagens de meses atrás, ou seja, vasculhou tudo”, explicou o professor.

Como a mudança de privacidade impedia outras pessoas de verem o texto, Vitor Fernandes colocou novamente a publicação como “pública” e agora terá que lidar com os ataques.

“Não responderei a nenhum (seguidor de Bolsonaro) e já pedi aos meus amigos para não responderem”, conta.

Por outro lado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro apagou a publicação que incentivou os ataques.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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