Amigo de Moro pediu dinheiro “por fora” para reduzir multa da Odebrecht, diz Tacla Duran

0

Rodrigo Tacla Duran depôs na CPMI da JBS, na Câmara dos Deputados, e acusou Carlos Zucolotto de propor uma delação premiada ilegalmente.

Do Jornal do Brasil, com informações da Agência Câmara

O advogado Rodrigo Tacla Duran, que trabalhou para a Odebrecht entre 2011 e 2016 / Foto – Reprodução

Em depoimento à CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da JBS da Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (30), o ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Durán afirmou que o advogado de Curitiba, Carlos Zucolotto, amigo do juiz federal Sergio Moro, tentou intermediar negociações paralelas dele com a força-tarefa da Operação Lava Jato.

Segundo Duran, Zucolotto propôs uma redução de multa à Odebrecht com a condição de que US$ 5 milhões fossem para uma conta bancária em Andorra. A minuta do Ministério Público sobre o acordo de delação da Odebrecht (veja os arquivos abaixo) teve seu valor reduzido dos iniciais US$ 15 milhões para US$ 5 milhões. Segundo o advogado, diante do fato de que a procuradoria tinha conhecimento de que ele não tem dinheiro naquele país, “era juridicamente impossível descontar de uma conta minha em Andorra”.

“Percebi que as preocupações eram estritamente financeiras”, afirmou Tacla Durán, que, em seguida, confirmou um questionamento do deputado Wadih Damous (PT-RJ), que estava presente na sessão da CPMI. O parlamentar lembrou reportagem da colunista Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo, em que Tacla Durán denunciava o recebimento de uma proposta “por fora”. “É isso”, confirmou o advogado da Odebrecht.

“Eu não aceitei porque me senti constrangido. O valor seria para ele e para quem estava ajudando ele. E seria pago em troca da atuação dele no caso”, completou o advogado, acrescentando que não sabia quem seria a pessoa que estava auxiliando Zucolotto.

Durán frisou que Carlos Zucolotto tem boas relações com membros do Ministério Público e do Judiciário em Curitiba. Zucolotto nega ter feito a proposta. Tacla Durán apresentou à CPMI uma perícia, encomendada por ele, que mostra que as supostas mensagens que trocou com Zucolotto não foram editadas – a análise, no entanto, não comprova que a conversa Tacla Duran conversou com Carlos Zucolotto.

Imagens de mensagens que Tacla Duran afirma ter trocado com Zucolotto

Zucolotto, que representou o escritório de Duran em ações trabalhistas, nega envolvimento em negociações da Lava Jato. Diz que nunca falou sobre isso com nenhum integrante da força-tarefa e que jamais trocou mensagens com Duran. Afirma que sequer baixou em seu telefone o aplicativo Wickr.

Duran não faz acusações ao juiz Sergio Moro. O magistrado, no entanto, saiu em defesa do advogado quando o jornal Folha de S. Paulo noticiou as acusações de Duran. Na época, o juiz afirmou ser “lamentável que a palavra de um acusado foragido da Justiça brasileira seja utilizada para levantar suspeitas infundadas sobre a atuação da Justiça”.

Durán trabalhou para a Odebrecht de 2011 a 2016 e é acusado pelo Ministério Público de lavagem de dinheiro e pagamento de propina. Ele foi preso em novembro de 2016, na Espanha, na 36ª fase da Lava Jato, por ordem de Sergio Moro, e libertado depois que a Justiça espanhola negou sua extradição.

Ele deve responder o processo na Espanha, onde reside. Por isso o depoimento foi feito por meio de videoconferência.

Uma das provas questionadas pelo advogado diz respeito à acusação, feita em delação premiada pelo executivo Márcio Faria, ex-diretor da Odebrecht, de que o presidente Michel Temer e a cúpula do PMDB receberam propina de mais de 30 milhões de dólares.

Parte deste dinheiro, segundo a denúncia, teria sido depositado em uma conta no Meinl Bank, de Antígua, pelo próprio Duran.

Confira os documentos apresentados por Tacla Duran:

Documento adulterado

O advogado nega a acusação e afirma que o Ministério Público usou como prova, na denúncia contra Michel Temer, um documento adulterado. O documento era um extrato do sistema Drousys da Odebrecht, como era chamada uma rede de intranet usada pelo Setor de Operações Estruturadas da empresa, conhecido como “departamento de propina”, para comunicações internas sigilosas entre executivos da empreiteira.

Essas informações ficavam armazenadas em um servidor na Suíça e foram lacradas pelas autoridades daquele país em 2016. Durán entregou à comissão uma perícia encomendada por ele que comprovaria que o extrato usado pelo Ministério Público teria sido obtido em 2017, quando o sistema já estava lacrado.

Segundo ele, todas as provas obtidas a partir do sistema Drousys são nulas. “A perícia comprova que o sistema Drousys, da Odebrecht, foi manipulado e adulterado antes, durante e depois do seu bloqueio pelas autoridades suíças. Isso quer dizer que todas as informações e documentos desse sistema não se prestam para ser usados como prova para incriminar quem quer que seja”, disse.

Lava Jato

No depoimento, Durán também criticou os métodos dos procuradores da Lava Jato, que segundo ele usaram documentos questionáveis para corroborar o que disseram delatores e direcionaram as colaborações para atingir pessoas específicas.

Ele disse, por exemplo, que o ex-procurador Marcelo Miller, investigado por suspeita de fazer jogo duplo em favor da JBS, apresentou a ele uma lista de pessoas e perguntou se ele tinha elementos contra alguma delas. Durán afirmou à CPMI que chegou a negociar uma delação com o Ministério Público, mas teria se recusado a assinar o acordo de colaboração. Segundo ele, os procuradores queriam que ele assumisse crimes que não cometeu.

O advogado também lançou dúvidas sobre a planilha encontrada com o ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Barbosa Silva Júnior, no Rio de Janeiro, em fevereiro do ano passado.

A planilha tinha os nomes de 316 políticos supostamente destinatários de pagamento de propina. Segundo Tacla Duran, o documento teria sido plantado e os executivos da Odebrecht sabiam da operação de busca e tinham sido orientados a só manter documentos de interesse deles.

Cautela

O depoimento é visto com cautela por membros da CPI. Para o relator, deputado Carlos Marun (PMDB-MS), existem dúvidas sobre as afirmações do advogado, mas o depoimento demonstra a necessidade de aprimorar a lei que trata das delações premiadas (Lei 12.850/2013).

“Como eu tenho dúvidas a respeito de delações, eu também tenho dúvidas, a princípio, a respeito do depoimento do advogado. Mas elas apontam no sentido de que é necessário um aprimoramento desse instituto dos acordos de delação premiada, até para que eles não percam sua credibilidade”, disse Marun.

O senador Lasier Martins (PSD-RS) considerou que o depoimento não tem relação com o objeto da investigação e disse que a CPMI perdeu o rumo e busca criminalizar investigadores em vez de apurar crimes dos investigados. “Está havendo um flagrante desvio do objeto da CPMI, que foi criada para investigar as relações da JBS com o BNDES. Quem era réu ficou em segundo plano e criaram-se novos réus: a lei da delação, membros do Ministério Público e fortes insinuações contra os próprios julgadores”, disse.

Delações direcionadas

Já o deputado Wadih Damous (PT-RJ), um dos sub-relatores da comissão e autor do pedido para que Durán fosse ouvido, disse que o depoimento confirma a tese de que delações foram direcionadas pelo Ministério Público.

“Ele falou em documentos falsos, falou que provas usadas para condenar pessoas são forjadas. Então é uma gama de informações importantes para o aperfeiçoamento do processo legislativo”, disse.

O deputado Paulo Pimenta (PT-RJ) defendeu a convocação do advogado Carlos Zucolotto pela CPMI.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook