‘As instituições religiosas se tornam vítimas dos políticos religiosos’, diz evangélico

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Maioria da bancada evangélica votou a favor de Michel Temer, decepcionando evangélicos que defendem a luta incondicional contra a corrupção, segundo um cidadão evangélico que preferiu não se identificar.

Por Rafael Bruza

O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) vota a favor de Temer e contra a denúncia da PGR na quarta-feira (02) / Foto – Reprodução (Captura da transmissão da TV Globo)

Na quarta-feira (02), a maioria dos 85 deputados federais que compõem a chamada “bancada evangélica” na Câmara votou pelo arquivamento da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), ajudando a manter o presidente Michel Temer no cargo. O líder da bancada do Partido Social Cristão (PSC), Hidekazu Takayama (PR) guiou o voto a da bancada da sigla citando uma “melhora da economia” e uma luta contra o “comunismo”, mas desagradou fiéis que defendem a investigação de casos de corrupção de forma incondicional, segundo B.P. um historiador evangélico que vive em Rondônia e conversou com o Independente para contar o que estes religiosos pensam da chamada “bancada evangélica”.

Evangélico de “mente aberta”, como se define, B.P. preferiu não se identificar ao jornal para evitar eventuais represálias. Ele já teve diversos cargos em igrejas e explicou por que manifestações contrárias aos políticos da religião costumam ser tímidas na política.

“Os evangélicos são instruídos para não se movimentarem nem fazerem manifestações públicas sobre seus irmãos de fé”, diz B.P. “Inclusive as igrejas evangélicas possuem comissões próprias, juntas conciliadoras (de litígios internos), para evitar que certos casos cheguem à Justiça expondo o nome de evangélicos à pessoas não evangélicas. Não querem que a igreja não sofra danos a sua imagem. Por isso é extremamente difícil os evangélicos fazerem manifestações contra os seus próprios irmãos. Os líderes tradicionais orientam os fiéis a inclusive evitar manifestações contra políticos porque acreditam que foi Deus que os escolheram”.

A “exceção” a esta nomeação divina, segundo o entrevistado, são os “líderes mais radicais”, como Silas Malafaia e Marco Feliciano, que cresceram na política por “terem poder de mídia”.

“Acredito eu que a maioria dos evangélicos não compactua com eles pelo radicalismo que ambos possuem. Muitos evangélicos possuem muito respeito pelos gays e políticos de esquerda. Lula e Dilma inclusive tiveram muitos votos deles (evangélicos). O que fez a maioria dos evangélicos se afastar do PT foram as denúncias de corrupção. Os evangélicos são ensinados a respeitarem os homossexuais, mas também a não concordarem com a prática. Portanto, Malafaia, Feliciano e etc. não possuem apoio da maioria dos evangélicos, ao contrário do que parece ser. Tanto é que ao não se sentirem representados no meio em que viviam, Feliciano abriu um próprio ministério (A Catedral do Avivamento) e Malafaia se desfiliou da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil)”.

Segundo veículos de imprensa, como o portal Gospel Mais, parlamentares evangélicos apoiaram Temer para concretizarem políticas que desejam realizar, como a aprovação do Estatuto do Nascituro, que prevê o endurecimento da lei que proíbe a prática do aborto no Brasil, e o fim da circulação de material escolar que mostra mensagens sobre homossexualidade e sobre a chamada “ideologia de gênero”.

Diante desta política de “troca-troca”, B.P. acredita que a bancada evangélica pode sofrer problemas políticos no futuro por ter apoiado Michel Temer contra a denúncia por corrupção passiva feita pela PGR contra o presidente.

“Hoje a maioria da bancada evangélica (na Câmara) é fiel à Temer, para tristeza de seus eleitores. Se possível, verifique as redes sociais desses deputados e observe como os eleitores dos mesmos estão tratando eles. Como historiador, estou em dúvida se em 2018 essa bancada sofrerá ou não uma redução, visto que política é considerada por muitos cientistas políticos como uma nuvem. Mas se as eleições fossem hoje, seria quase impossível essa bancada não sofrer uma amarga derrota nas urnas”, diz o fiel.

Confira a entrevista na íntegra:

Independente – Você entende que eleitores evangélicos ficaram decepcionados com os deputados dessa bancada religiosa por conta do apoio a Michel Temer?

B.P. – Sem dúvida. A decepção é muito grande porque o que esses parlamentares pregam nos púlpitos das igrejas é muito distante do que praticam na política.

Independente – Como é a situação atual dos políticos evangélicos em seu meio de convivência?

B.P. – Sou evangélico desde minha infância. Minha família tem inúmeros líderes evangélicos, inclusive meus pais e irmãos. Tive certo contato com Marco Feliciano quando ele veio a meu estado (RO) com Takayama (líder do PSC). Mas isso foi há muito tempo. As religiões evangélicas aqui do meu Estado se mobilizavam em prol de eleger evangélicos. Mas Takayama e Feliciano raramente vêm aqui agora, pois as portas se fecharam para eles aos poucos. Meu estado tem o maior percentual de evangélicos. do Brasil. Muitos religiosos se elegeram aqui. Mas com estas e outras decepções, esse número vem se reduzindo. Vários dos representantes evangélicos eleitos em Rondônia foram presos, como os Donadons e Válter Araújo. Também há três deputados bem avaliados: Marcos Rogério(DEM-RO), Nilton Capixaba (PTB-RO) e Luiz Claudio (PR-RO). Mas eles também acompanharam o Temer. A exceção é Marcos Rogério, que também votou contra Eduardo Cunha (outro político evangélico), mas defendeu a Reforma Trabalhista, sofrendo maior rejeição. Nilton Capixaba já acumula inúmeros indícios de envolvimento em corrupção, inclusive na máfia das ambulâncias. À nível nacional, Eduardo Cunha era evangélico. Marco Feliciano votou a favor dele, da reforma trabalhista e contra a denúncia da PGR. Isso pode fazer as igrejas evangélicas se afastarem da política.

Independente – Você votaria nos deputados da bancada da religião que apoiaram Michel Temer na votação da denúncia da PGR?

B.P. – Eu mesmo não tenho coragem de votar em pessoas que representam religiões na política. Nunca votei. Isso não quer dizer que religiosos não merecem representação, mas acontece que a religião protestante possui um sistema de dominação e conquista que é efetivo onde atua. Se agir na política, como a maioria dos parlamentares, será impossível que as demais classes da sociedade tenham liberdades que (evangélicos) possuem hoje. E, em segundo lugar, os políticos que representam religiões não vivem, na política, aquilo que pregam em igrejas. As instituições religiosas então se tornam vítimas dos políticos religiosos, assim como os fiéis e a população no geral.

Independente – Outros evangélicos estão descontentes com o desempenho dos deputados dessa religião?

B.P. – Sim, aqui o descontentamento com evangélicos na política é geral. Tanto na igreja quanto fora dela. Muitas pessoas viam a entrada dos religiosos evangélicos como lima possível salvação ou livramento da corrupção e da desigualdade social, visto que esse seguimento possui uma forte relação com o crescimento econômico, principalmente familiar. Meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da pós-graduação inclusive tratou esse tema através de uma pesquisa científica.

Independente – A resposta aos deputados evangélicos que apoiaram Temer pode vir das urnas, então?

B.P. – Eu não sei se serão releitos. Pode ser que façam alguma coisa ou ato que mude a atual visão negativa de seus eleitores. Mas acredito que vão sofrer uma terrível baixa nas urnas. Se forem reeleitos, será por uma margem menor de votos.

Independente – Você encontrou ou conhece evangélicos que apoiaram os deputados pró-Temer? Se sim, que argumentos eles citam para defender esses líderes religiosos/políticos diante da oposição que eles fizeram à denúncia de corrupção da PGR?

B.P. – Não estou sendo radical, mas, dos que tenho contato aqui em meu estado, e fora, como SP, MG, RJ, etc. não conheço ninguém que seja favorável à esses deputados pró-Temer. É óbvio que pode ser que alguns tenham essa posição, pois nem todos os seres humanos pensam igual. Mas conheço várias pessoas que votaram neles e que não querem mais chama-los de irmãos ou pastores. Nem querem votar neles novamente, pois o Judiciário é altamente aceito dentro das igrejas evangélicas. Mas há uma séria preocupação com alguns ministérios, se, por ventura, o Eduardo Cunha fizer delação. O fato de ele ter muita proximidade e contato com os deputados, principalmente os assembleianos (da igreja Assembleia de Deus), como Feliciano, cria esse temor. Também há certo medo de que eles sejam envolvidos na Lava Jato. Isso poderia arranhar injustamente a imagem de evangélicos e ministérios que não apoiam líderes religiosos na política.

Independente – O que você pensa dos deputados que votaram a favor de Temer para conquistar, em troca, políticas específicas, como a aprovação do Estatuto do Nascituro ou o endurecimento da lei que proíbe a prática de aborto no Brasil?

B.P. – Se tiveram coragem de mostrar (apoio à Temer) ao vivo, diante das câmeras, a todos seus eleitores, acredito que fizeram acordos, sim. Talvez até outros tipos de acordo, que, para mim, são um desrespeito às classes prejudicadas, que possuem seus direitos num estado laico. Elas não podem ser obrigadas a viverem sob ideologia de alguém, inclusive porque Deus deu o livre arbítrio. Esses tipos de atitudes ferem os princípios cristãos. Acho e vejo tudo isso como um ato corrupto legalizado, pois são eleitos para representarem o povo, não para defenderem seus interesses pessoais ou de outros que trazem a suas bases eleitorais.

Independente – E o que você pensa sobre o pastor marco Feliciano, que cotou a favor de Temer para se opor ao PT?

B.P. – Não vejo o voto dele como justificativa religiosa porque Deus abomina a corrupção. Também não vejo justiça quando ele diz que Temer é honesto só porque a Justiça ainda não fez um julgamento de última instância. Acredito que esse voto no Temer foi uma vingança ao PT, que não o apoiou quando ele foi presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Ele se elegeu em 2010, declarou apoio à Dilma  no segundo turno e inclusive fez ataques aos evangélicos que não apoiavam o PT. Tudo isso demonstra, talvez indiretamente, que ele queria algo em troca do PT. Como não obteve, se sentiu frustrado. Logo ao ter contato com Temer, talvez tenha conseguido o apoio que queria. Talvez tenha dificuldade em lembrar que ele não representou seus eleitores, pois só parcelas dos evangélicos que são conservadores. Também acredito que ele está tentando surfar na onda do antipetismo. Quer votos desse grupo. Hoje o PT está com dificuldade para o próximo pleito eleitoral e muitos deputados que querem se reeleger querem marcar território nesse desgaste (fazendo oposição ao PT). Inclusive o Bolsonaro. Mas o PT tem uma base sólida de eleitores. Independentemente de quem seja o candidato, o partido dificilmente ficará de fora do segundo turno, ainda mais se apostarem por figuras novas.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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