Ator é agredido durante assalto e relata racismo de seguranças

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“Eu fui vítima não só de racismo, mas do absurdo e da violência que pessoas que tentam fazer ‘justiça com as próprias mãos’ são capazes”, diz Diogo Cintra.

Por Rafael Bruza

O ator Diogo Cintra (esq.) e a publicação no Facebook em que ele relata o assalto / Foto – Reprodução (Arquivo pessoal)

Em um post viral no Facebook, o ator Diogo Cintra relata que estava andando por volta das 5h da madrugada da última quarta-feira (15), quando foi abordado por dois homens que exigiram seu celular e dinheiro. Ele correu para pedir ajuda a seguranças do Terminal do Parque Dom Pedro II, localizado no centro de São Paulo, mas foi surpreendido pelos suspeitos, que apareceram em maior número e disseram aos seguranças que Diogo os havia roubado.

“Os seguranças acreditaram neles (assaltantes) sem pensar duas vezes e aí começaram a me segurar com força e violência”, relata Diogo no post. “Eu gritava tentando argumentar com os caras, dizendo que o celular que eu tinha no bolso era meu e que eu não tinha roubado porra nenhuma. Tentei provar isso mostrando o conteúdo que havia no aparelho, mas ele tava descarregado. Sempre que eu tentava falar algo, o segurança me mandava calar a boca”.

Vendo Diogo como o assaltante da situação, os seguranças deixaram o ator ser levado para fora do terminal, onde foi espancado pelo grupo e teve o celular roubado.

“O segurança chegou a perguntar o que eles iam fazer comigo, e disseram que iam me levar pro ‘rio’. Apavorado com o que poderiam fazer comigo, entrei em desespero e comecei a me debater. Quando consegui me soltar, saí correndo, mas os caras tinham três cachorros com eles. Eu fui atacado pelos cães”, relata Diogo. “Pela misericórdia do meu pai Exu, uma das meninas que tava com eles pediu que parassem, que já tinham batido em mim o suficiente. Assim eu conseguiu fugir e voltar pro terminal. Eu fiquei cheio de mordidas e arranhões, além dos hematomas”.

Depois da agressão e ainda segundo o relato, um segurança se aproximou e ofereceu ajuda depois da agressão.

“O segurança que há pouco me entregara apareceu na maior cara de pau me oferecendo uma cadeira de rodas e querendo me levar pra um AMA. Eu recusei e disse que apenas queria ir embora. Ainda insistindo, o segurança apenas disse ‘então você está por sua conta e risco’. E falei que tudo certo, entrei num ônibus e fui pra casa de um amigo pra pedir ajuda, ferido e coberto de sangue”, relata Diogo, que foi para um hospital com ajuda de amigos e “recebeu o devido tratamento médico”.

“Agora passo bem e estou me recuperando”, conta.

O ator afirma que o caso envolve racismo e a ideia de “justiça com as próprias mãos”.

“Por pouco, eu não fui morto por uma injustiça e por conta de um ato racista. Racista, porque eu sou negro e estava simplesmente andando de madrugada. Racista porque ninguém naquela noite acreditou em mim, e além de ser assaltado, fui sentenciado por pessoas que nem quiseram me ouvir falar. Por que diabos automaticamente o segurança assumiu que eu era o bandido e que os outros caras estavam falando a verdade? E o pior, o segurança também era negro. O que diabos levou a ele a não sentir sequer o mínimo de empatia por mim? Por que ele não chamou a polícia para resolver a situação, ao invés de simplesmente me enxergar como um bandido e me entregar pros cães?”, questiona o ator.

“E eu não fiz porra nenhuma aquela noite. O meu crime foi ter reagido a um assalto ou simplesmente sair pra andar de madrugada na rua. Eu sou só um ator, um ‘vagabundo’, que passa dia e noite tentando manter minha dignidade, ganhando meu dinheirinho e fazendo o que eu posso através da Arte. Eu inclusive participei recentemente de uma peça de Teatro voltada ao público escolar para falar do quanto negros como eu são sentenciados à morte no nosso país, culpados por crimes simplesmente por serem negros. O racismo mata todos os dias! Eu fui vítima não só de racismo, mas do absurdo e da violência que pessoas que tentam fazer ‘justiça com as próprias mãos’ são capazes. Fui entregue por pessoas que provavelmente acharam estar fazendo o justo e o correto. Seguranças me entregaram só por ser negro a assaltantes que deixaram claro que iriam fazer muito mal a mim. Seguranças que concluíram, numa só olhada, que diante deles havia um ladrão. A próxima vez que vocês ouvirem falar sobre racismo, e quiserem culpar a ‘galera do direitos humanos’, não pensem só no retrato estereotipado que vocês fazem dos negros no nosso país. Peço que compartilhem esse texto. Encontraremos os responsáveis, e eles serão levados à justiça. E, até lá, iremos conscientizar todas as pessoas sobre o que ocorreu, porque todos os dias esse tipo de escândalo acontece. O meu caso é só mais um caso. Negros estão sendo assassinados todos os dias. Pelo nosso governo, pela nossa polícia, e por nossos cidadãos. Quantos Diogos ainda vão ter que passar por isso?”

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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