Aumentar a velocidade das marginais é uma medida populista que pode custar vidas

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Doria promete acabar com medida de Haddad que reduziu 37,5% das mortes no 1º semestre de 2016 e diminuiu o número de acidentes fatais em São Paulo no mesmo período.

Opinião – Por Rafael Bruza

O prefeito de São Paulo, João Doria Jr. e a Marginal Pinheiros na altura da Ponte Estaiada / Foto - Reprodução
O prefeito de São Paulo, João Doria Jr. e a Marginal Pinheiros na altura da Ponte Estaiada / Foto – Reprodução

Em entrevista conglomerados de mídia nesta segunda-feira (03), o prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), afirmou que sua primeira medida no comando da Prefeitura de São Paulo será rever a velocidade máxima nas marginais Pinheiros e Tietê, que há pouco mais de um ano passou de 90 km/h para 70 km/h. Trata-se de uma proposta de campanha do tucano.

A medida conta com apoio de eleitores de Doria, que fizeram história neste domingo (02) ao transformar o tucano no primeiro prefeito da maior cidade da América Latina eleito no primeiro turno.

Os argumentos a favor do aumento da velocidade costumam dizer que “não há problema em reduzir a velocidade de outras vias”, mas que baixar a velocidade de vias expressas, como as marginais, “é uma medida sem sentido, pois não reduz o índice de mortes e atrapalha o trânsito, sendo que ”.

Doria, nas entrevistas concedidas na manhã de segunda, seguiu uma linha de argumentação parecida.

“Não sou contra a redução de velocidade, mas é preciso olhar ponto a ponto para que haja fluidez”, declarou o prefeito eleito ao programa Café com Jornal.

O problema é que essas visões estão completamente equivocadas e valorizam mais a “fluidez” e o tempo que o paulista passa no trânsito do que a segurança e as vidas de seres humanos.

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) indicou em julho que, no primeiro semestre de 2016, o número de acidentes nas duas marginais principais de São Paulo caiu 37,5% desde que houve redução da velocidade um ano antes, em julho de 2015.

Juntas, as marginais foram palco de 608 acidentes no primeiro semestre de 2015, enquanto nos primeiros seis meses de 2016 foram 380, ainda segundo a CET.

São 228 acidentes a menos.

No mesmo período, o número de acidentes fatais (de mortes) caiu de 27 para 9.

São 18 vidas salvas em seis meses com todos andando 20 km/h mais devagar.

E não interpretem esse número como estatística fria e vazia, por favor: estamos falando de 18 mães, pais ou irmãos que chegam seguros em casa ao invés de perder a vida nas latarias amassadas por nossa própria irresponsabilidade.

Críticos da redução de velocidade dirão que esses números da CET estão equivocados ou foram “maquiados” graças ao vínculo que existe entre essa empresa de economia mista com a Prefeitura de São Paulo, que ainda está sob controle do petista Fernando Haddad.

Mas qual é o fundamento que defensores do aumento de velocidade usam, então, para afirmar que a redução da velocidade nas vias expressas é inútil?

É percepção lógica?  Ora, por simples dedução podemos ver que limites de velocidade mais baixos geram menos acidentes, pois amplia-se o tempo de frenagem e de resposta do condutor.

Além disso, a redução de velocidade em vias expressas e locais é tendência mundial.

Desde 1995, Nova York anda a 48km/h em vias expressas e grandes avenidas que são consideradas artérias importantes do trânsito, como a Queens Boulevard.

Só Doria e seus eleitores estão corretos, enquanto o mundo inteiro está errado?

Claro que não.

A intenção de aumentar a velocidade é apenas uma promessa populista de campanha que desconsidera tendências mundiais e os índices de acidente nas vias expressas da capital.

Se Doria quiser agir com esse populismo, que se concentre apenas na paranóia da “indústria da multa”, como diz que fará, pois aqui pelo menos os dados estão a seu favor.

O número de radares na cidade de São Paulo realmente aumentou (405% desde 2013) durante a gestão de Haddad e Doria seria aplamente apoiado por paulistas que celebrariam a diminuição da fiscalização numa cidade em que muitos ainda compram carteira e nem conhecem algumas regras simples de trânsito.

Mas a sociedade não pode deixar o novo prefeito alterar a velocidade das vias expressas em nome de seu populismo de campanha, pois, ao contrário do problema das multas, que só envolvem questões financeiras e de gastos públicos, o aumento de velocidade nas marginais pode gerar mais vítimas mortais do que se espera.

É sangue brasileiro derrubado em nome da insensatez do prefeito.

E, nesse caso, Dorcia estaria sujando suas mãos com sangue para cumprir uma promessa (populista) de ampanha.

Vale a pena? Eu acho que não.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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