Bebê morre após parto improvisado no acampamento de vítimas do Largo do Paissandu

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A mãe estava grávida de sete meses e morou nas ruas de São Paulo desde que o edifício Wilton Paes de Almeida desabou no início de maio.

Por Rafael Bruza com informações da Ponte, G1 e Folha

Criança anda pelo acampamento de vítimas da tragédia do edifício Wilton Paes de Almeida / Foto – (Rafael Bruza/Independente)

Uma vítima da tragédia do edifício Wilton Paes de Almeida perdeu o bebê nesta quarta-feira (06), no Largo do Paissandu, em São Paulo, após parto feito numa viatura do Corpo de Bombeiros, que se dirigia à Santa Casa.

Jackeline da Silva Moraes, de 24 anos, reside no acampamento de vítimas da tragédia desde o início de maio, quando o prédio caiu após um incêndio. Ela estava grávida de 7 meses e entrou em trabalho de parto durante a tarde de quarta, num momento de chuva.

O parceiro de Jackeline, Rafael Alves Ribeiro, de 32 anos, conta que estava com ela e tentou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), sem sucesso.

“Ela teve contrações às 17h30 e só umas 18h10 dois policiais militares apareceram, trouxeram a viatura. Quase uma hora depois o resgate veio, foi assustador. Olha só para o local e para a situação que a gente está, chovendo ainda. É descaso em cima de descaso”, disse à Ponte Jornalismo.

O atendimento inicial foi feito por policias militares na própria barraca da grávida. Os agentes acionaram o Corpo de Bombeiros e um médico voluntário que estava no local realizou os primeiros atendimentos.

O bebê nasceu dentro da viatura de bombeiros, enquanto a mãe era encaminhada ao pronto socorro da Santa Casa, mas não resistiu. Seria a primeira filha do casal.

“O nenê estava em parada cardiorrespiratória, fomos fazendo a respiração mecânica até a chegada no hospital. Infelizmente, a reversão não foi possível”, publicou o Corpo de Bombeiros, em seu Twitter. O corpo da criança foi encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal).

Segundo a PM, a menina estava “sentada”, caracterizando o chamado “parto pélvico”.

Jackeline ficou internada no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Santa Casa e liberada por volta de 15 desta quinta-feira (7/6). De acordo com uma voluntária que foi até o hospital acompanhá-la, ela e o companheiro Rafael estão na casa de um amigo para repousar. Eles não têm previsão de quando retornarão ao acampamento.

A Polícia Civil registrou a ocorrência no 2º DP (Bom Retiro) e abriu aberto inquérito no 3º DP (Campos Elíseos), responsável pela área. O delegado titular Osvani Zanetta Barbosa disse à Ponte Jornalismo que ainda precisa ouvir o casal para dar prosseguimento à investigação.

Visão da Prefeitura

À Folha, o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que o pai da criança passará a receber o auxílio-moradia a partir desta quinta, que o nome dele não estava cadastrado no levantamento da Sehab (Secretaria Municipal de Habitação).

Segundo Covas, Rafael havia aceitado por permanecer por um tempo no abrigo indicado pelo poder público. À reportagem, Rafael, no entanto, disse que não chegou a ser atendido. O casal morava há quatro anos no edifício que desabou.

“No papel que eu tenho aqui dizia que eu ia receber dois colchões, dois cobertores, uma cesta básica e kit de higiene. O Pedroso [centro de acolhida no Viaduto Pedroso, para onde os moradores do prédio estariam sendo levados]atendeu 20 famílias, não tinha capacidade de atender todos. Eu fui lá, não tive atendimento, não me deram os colchões, nada”, declarou. “Esperaram minha filha morrer para dar auxílio, por que não atenderam antes? Dá para ter uma moradia digna com R$ 400? Vão esperar outra criança morrer para ter atendimento?”, questiona.

Prefeitura nega demora

Em nota, a Prefeitura disse que não houve demora no atendimento, já que o chamado na central do SAMU aconteceu às 18h27 e que “enquanto estava em regulação para o atendimento, foi verificado que uma Unidade de Resgate do Corpo de Bombeiros já estava à caminho do atendimento às 18h33”. Além disso, destacou que houve acompanhamento do caso em conjunto e que cancelou o chamado às 19h25 após confirmação do resgate pelo Corpo de Bombeiros.

Sobre o atendimento à Jackeline, a Prefeitura disse que ela foi a única a ser abordada pelas equipes da Secretaria Municipal de Saúde e que “fez pré-natal regularmente na AMA/UBS Jardim Castro Alves, na zona sul da cidade”.

“Com relação às grávidas no Largo, as equipes do Consultório na Rua não conseguem atuar porque são impedidas pelas lideranças do local”, diz a nota.

Sobre a assistência no abrigo do Viaduto Pedroso, a gestão reiterou que Rafael aceitou o acolhimento em 5 de maio, mas não permaneceu no local. E que ele, assim como 300 famílias, não constava no cadastro do município realizado em março e que a pasta precisou realizar estudos de caso para comprovar os vínculos com a ocupação, já que apenas 170 dessas apresentaram informações passíveis de verificação.

A Prefeitura disse que Rafael passou pelo estudo e teve parecer favorável nesta semana, assim como 67 famílias, e que poderá sacar o valor do auxílio-moradia a partir desta quinta-feira (7/6). Citou que 146 famílias estão recebendo o benefício pela CDHU, que é do Governo do Estado.

Segundo a nota, o governo tem convidado “insistentemente” os desalojados a irem para os centros de acolhida e que “o local foi estruturado com ampla capacidade de acolhimento com 150 leitos para dormitórios, além de acesso a banho, alimentação e informações sobre as possibilidades de atendimento na rede socioassistencial da Prefeitura. Durante 36 dias o equipamento foi disponibilizado para atendimento emergencial com uma média diária de 60 pernoites. Portanto, com vagas suficientes para atender, inclusive, as famílias que insistem em permanecer no Largo”.

Perdas materiais

A Ponte esteve no acampamento na manhã de quinta-feira (7/6). Desde a quarta-feira, com a chuva, as famílias usam rodos para tirar o excesso de água da rua, tentam reforçar suas barracas e tendas com cobertas e plásticos e têm perdido pertences, como colchões. “A gente não está conseguindo garantir as tendas para as famílias. Venta muito, chove, elas não aguentam”, relata Rose da Silva. Dentre os 200 adultos, os acampados informam que há 12 grávidas no local.

Para o conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) Ariel de Castro Alves, há negligência do poder público para auxiliar os desalojados. “Claro que toda essa situação insalubre, desumana e indigna acaba contribuindo para tragédias como essa. Deveria ter agentes de saúde atendendo essas gestantes que estão lá na praça e as encaminhando para acompanhamento neonatal nos serviços públicos de saúde. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e o Estatuto da Primeira Infância obrigam o poder público a atender as gestantes”, critica

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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