Blogueiro de esquerda é o primeiro atingido por investigação de vazamento na Lava a Jato

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Ação da PF contra o jornalista Eduardo Guimarães evidencia tratamentos diferenciados dentro da Operação Lava a Jato.

Opinião – Por Rafael Bruza

O blogueiro, Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania / Foto – Reprodução

No domingo, a ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, afirmou em sua coluna semanal que funcionários do Ministério Público fizeram uma “entrevista coletiva em off” para vazar na imprensa os nomes de 16 políticos presentes na 2ª Lista de Janot, que pede abertura de inquéritos na Justiça de políticos com e sem foro privilegiado. Ou seja: a ombudsman afirma que membros do MP chamaram jornalistas do Estadão, Folha, O Globo e Valor para vazar nomes presentes na nova lista do procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, de forma oculta e sob promessa de anonimato.

Na terça-feira passada (14), todos os jornais publicaram os mesmos nomes, segundo a ombudsman, que estranhou o fato e foi atrás da apuração – possivelmente feita dentro da própria Folha de S. Paulo, com colegas presentes na entrevista em off, por que não?

A informação é de enorme interesse público, pois mostra suposta organização entre jornalistas do oligopólio midiatico e funcionários do MP, que podem estar por trás de vários vazamentos, prejudiciais às investigações e proibidos por lei.

Mas passados dois dias, poucos sites de notícias divulgaram a notícia.

Não há nenhum sinal de pedido de investigação desta denúncia, ao contrário do que Janot sinalizou em outros momentos.

Agora, tudo indica que o caso ficará preso neste silêncio cínico da imprensa, por pura falta de vontade política dos detentores do poder político em nosso Brasil.

Situação bem diferente se vê nesta terça-feira (14), quando a Polícia Federal bateu às 6h da manhã na casa do blogueiro Eduardo Guimarães, localizada no Paraíso, para leva-lo de forma obrigada (coercitiva) a prestar depoimento na Superintendência da Polícia Federal na Lapa, do outro lado da cidade.

Em 2016, Guimarães disputou uma vaga de vereador pelo PCdoB. Em seus posts no blog da Cidadania, apoia Lula e outros políticos do PT de forma explícita e declarada, além de criticar Moro de forma constante.

O blogueiro chegou a acionar Moro no Conselho Nacional de Justiça, por causa de “acusação falsa ou sem fundamentação” feita contra a cunhada de João Vaccari Neto, Marice Correia de Lima.

Em outro caso, Guimarães foi acionado pela Associação Paranaense dos Juízes Federais, por suposta ameaça a Moro. Ele foi intimado para depor no dia 3 de abril por causa de uma publicação feita em 2015, através do Twiter, em que teceu críticas o juiz Sérgio Moro, acusando-o de estar prejudicando a economia brasileira.

Mas o caso desta terça é outro.

A condução coercitiva foi realizada sem intimação prévia, como é costume na Operação Lava a Jato – apesar de contrariar a lei.

O motivo?

Eduardo Guimarães teve acesso a uma fonte que revelou detalhes sobre a condução coercitiva de Luiz Inácio Lula da Silva, feita há um ano, em março de 2016.

A PF queria confirmar a identidade desta fonte responsável pelo vazamento, pois já sabia quem era, segundo informou o blogueiro conduzido coercitivamente, e chamou o jornalista para depor e confirmar a identidade.

Um ano atrás, quando Lula sofreu a condução coercitiva, procuradores da Opearação Lava a Jato disseram que investigariam os vazamentos.

“Há indicativos de vazamentos e foram prejudiciais. Quem tiver obstruindo as apurações serão processados”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, na época.

Mas Eduardo Guimarães tem direito jornalístico e constitucional de não revelar suas fontes, além de liberdade de expressão para divulgar informação de vazamentos, como fazem outros jornalistas do país.

“Qual é meu crime?” – questionou Eduardo Guimarães durante transmissão ao vivo feita em seu perfil no Facebook. “Divulgar informação em jornalismo só é crime em ditaduras”, lamenta o blogueiro.

O fato é que, até agora, Eduardo Guimarães foi o único – ou um dos poucos – cidadãos que sofreram condução coercitiva em investigações sobre vazamentos de informação, a despeito de todos os casos similares que ocorreram no âmbito da Operação Lava a Jato nestes 3 anos de existência da mesma.

Se a Operação Lava a Jato mostrasse esse ímpeto para investigar vazamentos da Grande Imprensa, o caso de Guimarães não teria essa repercussão nem seria exposto num texto como este.

Mas, mais uma vez, os principais detentores do poder político (do Executivo e Legislativo) e midiático (do oligopólio da imprensa) continuam completamente impunes diante dos nobres procuradores e juízes da Operação Lava a Jato, enquanto pessoas de esquerda são atingidas com todo peso do poder Judiciário – até mais, considerando os excessos judiciais.

Ora, este tipo de investigação sobre vazamentos deve atingir principalmente os agentes responsáveis pelos vazamentos – os verdadeiros criminosos desta prática – e não apenas jornalistas, que, no máximo, só podem responder pelo crime de calúnia ao divulgar informações falsas obtidas por esta prática.

Então a Operação Lava a Jato errou novamente ao conduzir apenas um blogueiro para prestar depoimento, enquanto funcionários do Ministério Público e jornalistas da Grande Imprensa continuam impunes, apesar dos constantes vazamentos vistos nos últimos anos.

Não há proporcionalidade nem isonomia nesta ação.

Tendo isso em mente, um caso que aconteceu no Maranhão nesta mesma terça-feira (21) serve para dar uma aula jurídica aos juízes e procuradores da Operação Lava a Jato.

O juiz federal da 2ª Vara do Estado, Magno Linhares, expediu quatro pedidos de prisão temporária cumpridos pela PF na Operação Turing. Nela, foram presos os blogueiros Luis Assis Cardoso da Silva Almeida, Luis Pablo Conceição Almeida e Hilton Ferreira Neto, além do policial federal Danilo dos Santos Silva.

O policial era responsável pelo vazamento de informações sigilosas sobre operações da corporação, enquanto os jornalistas, em troca, faziam coberturas favoráveis e publicações positivas para o agente da Polícia Federal.

Ou seja: os jornalistas foram presos por participar de uma “troca de favores” ilegal em que eles faziam matérias positivas para o agente da PF e o policial vazava informações sigilosas aos profissionais de imprensa.

Todos participavam e obtinham vantagens indevidas deste esquema de vazamentos.

Então todos pagaram com a prisão temporária. Simples assim.

Mas por que aqui em São Paulo apenas o jornalista do caso perdeu a liberdade momentaneamente para responder por um vazamento?

Por que agentes e funcionários da Polícia Federal continuam completamente impunes após todos os vazamentos feitos nestes 3 longos anos de investigação?

E por que nenhum jornalista da Grande Mídia foi alvo de condução coercitiva, mesmo após vazar dezenas de informações sobre, por exemplo, a delação de Delcídio do Amaral (revista IstoÉ), sobre a aparição de Dias Toffolli na delação da Odebrecht (revista Veja) ou sobre os demais casos de vazamentos já vistos – inclusive este da entrevista “coletiva em off” sobre a Lista de Janot (Folha, Estadão, O Globo e Valor)?

Essas perguntas incentivam as pessoas a concluírem que a Operação Lava a Jato tem lado e partido político bem definidos.

E isso, no fundo, é prejudicial para as investigações. Acreditem.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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