Boatos sobre Marielle começaram no Whatsapp e ganharam repercussão na imprensa

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Pesquisa realizada no campus Leste da USP aponta que a circulação de boatos sobre a vereadora aumentou depois que a imprensa relatou a difusão de informações falsas sem desmenti-las.

Por Rafael Bruza

A vereadora do PSOL, Marielle Franco, assassinada em março

Uma pesquisa do Monitor do Debate Político no Meio Digital publicada nesta terça-feira (24) cita publicações da Folha de S. Paulo, revista Veja e do site Ceticismo Político, ligado ao MBL, como canais que aumentaram a difusão de informações falsas sobre a vereadora do PSOL, Marielle Franco, assassinada em março no Rio de Janeiro.

Segundo nota técnica do estudo, as publicações da imprensa impulsionaram boatos ao divulgar declaração da desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que acusava Marielle de estar “engajada com bandidos”, sem mencionar que a informação era falsa.

“A coluna de Mônica Bergamo repercutiu a postagem da desembargadora na noite do dia 16 e foi seguida pelo site Ceticismo Político, replicado pelo MBL e pela revista Veja. Juntos, somaram, em menos de um dia, mais de 650 mil compartilhamentos no Facebook. Como as manchetes não mencionavam que os boatos eram falsos, as matérias serviram como meio adicional de difusão das informações falsas”, diz a nota da pesquisa, coordenado pelos professores Pablo Ortellado e Márcio Moretto Ribeiro, no campus leste da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo concluiu que os boatos espalhados nas redes sociais sobre a vereadora do PSOL, Marielle Franco começaram a circular no Whatsapp lentamente e ganharam repercussão no Twitter, Facebook e imprensa após o dia 16 de março, dia da publicação do texto de Monica Bergamo na Folha.

“Os resultados indicam que os boatos ligando Marielle Franco ao tráfico começaram a circular muito cedo, apenas algumas horas após sua morte. Os boatos circularam primeiro no Whatsapp principalmente em grupos de família com uma dinâmica de difusão lenta (demorou 4 ou 5 dias para difundir amplamente) e depois emergiram no Twitter e Facebook e ganharam ampla difusão quando foram relatados pela imprensa que também ajudou a difundir o boato porque as manchetes das matérias não indicavam que as informações sobre Marielle eram falsas”, diz a conclusão da pesquisa.

A conclusão aponta que o principal meio de divulgação dos boatos no Whatsapp ocorreu através de grupos familiares (51%), grupos de amigos (32%), grupos de colegas de trabalho (9%) e outros (9%).

A difusão foi mais lenta no início por conta do pequeno número de pessoas nestes grupos. Ao chegar no Facebook e no Twitter, as informações falsas circularam em maior quantidade, com uma “explosão inicial”, atingindo ápices após divulgação das declarações da desembargadora e do deputado federal Alberto Fraga (DEM) na imprensa.

“Entre todos os tipos de boatos, os mais simples se difundiram com maior facilidade. Correntes que continham supostas evidências como uma foto ou vídeo tiveram alcance muito inferior ao boato que continha apenas um texto simples”, diz a nota.

 

Manchetes da Folha, Veja e Ceticismo Político

Os pesquisadores do Grupo de Políticas Públicas em Acesso à Informação (GPoPAI) rastrearam sete boatos de Marielle divulgando um formulário online nas páginas “Quebrando o Tabu” e “Marielle Franco”, entre os dias 26 de março e 3 de abril. Foram recolhidas mais de 2, 5 mil respostas de pessoas que afirmaram ter recebido boatos sobre a vereadora por meio de redes sociais.

A conclusão afirma que recebeu um número de respostas razoavelmente elevado, mas alerta que o meio de divulgação da pesquisa “pode ter gerado um viés de seleção significativo” por conta da divulgação feita em duas páginas com “marcado perfil demográfico e ideológico”.

Confira comentário sobre o caso:

Caso de Justiça e Polícia

No último dia 20, o desembargador Luiz Fernando Pinto, da 25ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça, reformou decisão anterior contra boatos sobre Marielle e determinou que o Facebook delete publicações e conteúdos indicados pela filha e viúva da vereadora, que são autoras do processo.

Na decisão, o desembargador afirmou que o Facebook já cumpriu o que era viável, retirando as postagens identificadas no processo, mas que não cabe ao site, de forma autônoma, pesquisar e localizar os conteúdos ofensivos, já que é uma questão subjetiva que deve ser apontada pelas autoras do processo.

A Delegacia de Repressão a Crimes de Informática abriu um inquérito para tentar identificar os responsáveis pela produção e disseminação de notícias falsas sobre a vereadora Marielle Franco. O titular da unidade, delegado Pablo Sartori, recebeu uma série de denúncias de advogadas que participam de uma força-tarefa contra a propagação de calúnias envolvendo o nome da vítima. Segundo ele, o material será pela equipe especializada em rastrear a origem de publicações na internet.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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