Bolsonaro se reúne com um dos donos do Grupo Globo

0

Encontro foi promovido por Paulo Guedes, que é membro-fundador do Instituto Millenium, do qual o herdeiro do Grupo Globo, João Roberto Marinho, é “mantenedor”.

Por Rafael Bruza

O candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, e o vice-presidente e herdeiro do Grupo Globo, João Roberto Marinho

O candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), teve um encontro recente com João Roberto Marinho, vice-presidente do Grupo Globo, filho de Roberto Marinho, fundador da TV Globo, e herdeiro do conglomerado, segundo a coluna Radar, da revista Veja. A data do encontro e os assuntos tratados na reunião não foram informados.

O encontro foi promovido por Paulo Guedes, escolhido por Bolsonaro para ser ministro da Fazenda, caso se eleja.

Paulo Guedes também é membro-fundador do Instituto Millenium, um think tank favorável ao liberalismo econômico, que conta com João Roberto Marinho como um de seus “mantenedores”.

O Millenium também recebia apoio e patrocínios formais de outros conglomerados de imprensa, como o próprio a Grupo Globo, além do Grupo Abril, Grupo O Estado de São Paulo e o Grupo RBS.

Capturas do site do Instituto MIllenium que mostram João Roberto Marinho como mantenedor do think tank e Paulo Guedes como membro-fundador

A entidade também foi apontada como parceira da organização Atlas Network, que ajudou a desenvolver outros think tanks liberais no Brasil, como o Instituto Mises, o Instituto Liberal, o Instituto Liberal de São Paulo e os Estudantes pela Liberdade – grupo que participou

da criação do Movimento Brasil Livre em 2013 e 2014.

O encontro

Segundo a coluna Radar, o encontro de Bolsonaro com João Roberto Marinho durou cerca de uma hora e meia. O presidenciável ficou “desconfortável” inicialmente porque Paulo Guedes se atrasou e o deixou sozinho com o executivo e herdeiro do Grupo Globo, cuja família foi apontada em 2014, pela revista Forbes, como a mais rica do Brasil, com US$ 28,9 bilhões de fortuna estimada.

“Para quebrar o gelo”, ainda segundo a revista Veja, João Roberto Marinho mostrou uma coleção de fotos antigas do pai, Roberto Marinho, fundador da TV Globo.

Atritos entre Globo e Bolsonaro

Bolsonaro já fez diversas acusações ao Grupo Globo em declarações na imprensa. Em entrevistas na GloboNews e no Jornal Nacional (TV Globo), o presidenciável foi questionado sobre seu apoio a militares da Ditadura e sobre o auxílio-moradia que recebe como parlamentar, apesar de dispor de casa própria no local em que trabalha.

Nas respostas destas questões, Bolsonaro se defendeu afirmando que o Grupo Globo apoiou o Golpe Militar de 1964 recebe “bilhões de reais” do Governo, através de publicidade oficial.

Em ambos os casos, os jornalistas globais fizeram retratações públicas sobre as acusações (veja “aqui” e “aqui”).

Globo apoiou o Golpe de 64

O jornal O Globo fez um editorial em 02 de abril de 1964 – um dia depois do Golpe daquele ano – intitulado “Ressurge a Democracia”, em que defende a tomada do poder pelos militares e a retirada de João Goulart do poder.

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo”, disse o editorial de 1964. “No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei”.

Os editoriais são espaços em que jornais expressam sua opinião institucional sobre assuntos de interesse público. Em grandes empresas de mídia, costumam ser escritos por jornalistas de cargos diretivos.

Quase 50 anos depois da publicação do editorial, o Grupo Globo admitiu em seus canais de comunicação que o apoio ao Golpe Militar “foi um erro”.

“A consciência não é de hoje, vem de discussões internas de anos, em que as Organizações Globo concluíram que, à luz da História, o apoio se constituiu um equívoco”, diz publicação do jornal O Globo de agosto de 2013. “Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: ‘A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura’. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro”.

Bolsonaro apoia torturador publicamente

O presidenciável, Jair Bolsonaro, a sua vez, costuma fazer homenagens aos militares de 1964, como o coronel reformado, Carlos Brilhante Ustra – único torturador reconhecido pela Justiça brasileira de primeira instância.

Bolsonaro homenageou o torturador em diversas situações. Uma delas durante sessão do Impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

“Pela família e inocência das crianças que o PT nunca respeitou, contra o comunismo, o Foro de São Paulo e em memória do coronel Brilhante Ustra, o meu voto é sim (a favor da destituição)”, proclamou Bolsonaro na ocasião.

Ustra comandou o Doi-Codi, o principal centro de repressão do Exército em São Paulo, durante a ditadura militar. Opositores da Ditadura eram levados a este local. Lá, os detidos eram interrogados e torturados – muitos foram assassinados e tiveram os corpos desaparecidos.

Segundo o projeto Brasil Nunca Mais, no período em que Ustra esteve à frente do Doi-Codi pelo menos 500 casos de tortura foram cometidos nas dependências do órgão. O próprio Ustra é acusado pelo desaparecimento e morte de ao menos 60 pessoas.

Meses depois de homenagear o torturador na sessão do Impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro afirmou no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados que Ustra é um “herói brasileiro”.

“Conheci e fui amigo do Ustra. Sou amigo da esposa dele, sou uma testemunha viva de toda essa história do que queriam fazer com nosso país, o que o PT fez com as doutrinações nas escolas. Sou exemplo vivo da história brasileira. O coronel recebeu a mais alta comenda do Exército, é um herói brasileiro. Se não concordam, paciência”, disse Bolsonaro em discurso na sessão do conselho.

TV Globo bilhões do Governo

Rede Globo e as 5 emissoras de propriedade do Grupo Globo (em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Recife) receberam um total de R$ 6,2 bilhões em publicidade estatal federal durante os 12 anos dos governos Lula (2003 a 2010) e Dilma (2011 a 2014), segundo dados levantados e compilados pelo Portal UOL, em 2015.

Os valores até 2013 estão corrigidos pelo IGP-M, o índice usado no mercado publicitário e também pelo governo quando se trata de informações dessa área. Os números de 2014 são correntes (sem atualização monetária). A série histórica sobre publicidade do governo federal começou a ser construída de maneira mais consistente a partir do ano 2000. Não há dados confiáveis antes dessa data, segundo o jornalista.

Em entrvista ao jornal Nacional, Bolsonaro afirmou que o Grupo Globo recebe “mihlões” em propaganda oficial do Governo. “Vocês vivem em grande parte aqui de recursos da Uniãio”, disse o presidenciável.

O âncora do jornal nacional, William Bonner, afirmou que a declaração é “absolutamente falsa”.

De acordo com o comunicado, a propaganda oficial do governo federal e de estatais na Globo corresponde “a menos de 4% das receitas publicitárias e nem remotamente chega à casa do bilhão”.

No entanto, é pública a informação de que os canais do Grupo Globo receberam R$ 6,2 bilhões em publicidade estatal federal entre 2003 a 2014.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook