Capitão do Exército se infiltrou durante meses em movimentos sociais

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Ministério Público de SP investiga a presença do capitão entre manifestantes de São Paulo e um professor da USP chegou a conversar com o militar depois da manifestação do domingo (04).

Informação – Por Rafael Bruza * com informações da Mídia Ninja e Grupo Globo

Uma foto Imagem mostra Willian Pina Botelho de costas em uma reunião da Mídia Ninja (esq), ao lado, uma câmara de segurança capturou imagem do militar entre os manifestantes detidos no domingo (04) / Foto - Reprodução
Uma foto Imagem mostra William Pina Botelho de costas em uma reunião da Mídia Ninja (esq), ao lado, uma câmara de segurança capturou imagem do militar entre os manifestantes detidos no domingo (04) / Foto – Reprodução

Sob o nome falso de Baltazar Nunes (Balta Nunes), o capitão do Exército, William Pina Botelho, se infiltrou em movimentos sociais como a Frente Povo Sem Medo, a Mídia Ninja, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Jornalistas Livres e Fora do Eixo, para “coletar informações privilegiadas” dos grupos, segundo denúncia do coletivo Mídia Ninja.

A identidade do militar foi revelada depois que jovens detidos antes da manifestação contra o Governo de Michel Temer do domingo (04) concederam entrevistas à Ponte Jornalismo denunciando um suposto policial infiltrado que estava no grupo de manifestantes. Na ocasião, Botelho foi o único manifestante do grupo que não foi preso e seu nome não aparece no Boletim de Ocorrência. Ao jornal El País Brasil, um militar anônimo reconheceu Balta Nunes como o capitão do Exército William Pina Botelho.

Registros da Mídia Ninja mostram que o capitão do Exército compareceu a reuniões e conversou com membros do coletivo. A inscrição do nome de Baltazar Nunes aparece no formulário do Encontro Comunicadores Sem Medo, organizado por sindicatos e movimentos sociais em junho de 2016. No documento, Botelho afirma ser administrador e “contra o golpe”.

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Testemunhas entrevistadas pela Mídia Ninja afirmam que o militar disfarçado participou do encontro em dois dias e chegou a dormir na Casa Fora do Eixo, onde ocorrem reuniões da Mídia Ninja. Uma fotografia do evento (publicada acima) mostra o militar no encontro.

Aproximação de mulheres

O capitão do Exército também abordou mulheres de diversos movimentos sociais e grupos de mídia em conversas privadas desde abril de 2015, pelo menos. O coletivo Mídia Ninja afirma que as conversas mostram claramente “o interesse de Botelho em questões estratégicas dos movimentos sociais e a determinação de consegui-las através de seu relacionamento íntimo com militantes”.

O militar conversou com pelo menos 5 ativistas da Frente Povo Sem Medo, utilizando elogios para se aproximar delas, o que causou “estranhamento” nas mulheres, segundo a Mídia Ninja.

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Conversas de William Pina Botelho com ativistas de movimentos sociais / Foto – Reprodução (Mídia Ninja)
Conversas de William Pina Botelho com ativistas de movimentos sociais / Foto - Reprodução (Mídia Ninja)
Conversas de William Pina Botelho com ativistas de movimentos sociais / Foto – Reprodução (Mídia Ninja)

Botelho fazia perguntas sobre ações do MTST, encontros e atividades dos Jornalistas e a relação dos movimentos sociais com o Governo de Dilma Rousseff. Também demonstrava vontade de se “somar à luta”, conforme relatou uma das mulheres que conversou com o militar pelo Facebook.

“Ele costumava falar comigo perguntando o que eu achava sobre os acontecimentos políticos, assim como passou a acompanhar atividades que eu postava no meu facebook”, relata uma das mulheres que conversou com Willian Pina Botelho, identificado até então como Balta Nunes.

Segundo a Mídia Ninja, o militar enviava mensagens de “assédio” e “machismo” para militantes.

Algumas mensagens diziam: “quando você olha pra mim, você se sente atraída?”, “você é muito bonita”, “estou esperando você aqui, enrolado no meu cobertor..” e “Você é bonita… não deveria ter o sentimento de oprimida”.

Professor conversou com o militar

Através de seu perfil no Facebook, o professor da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado, conversou por chat com o capitão William Pina Botelho na terça-feira (06), dois dias após a manifestação onde os 21 jovens foram detidos pela Polícia. A conversa ocorreu depois que o professor fez uma publicação sobre as detenções dos manifestantes.

“Logo depois que eu publiquei isso ele me procurou. Ele veio me procurar, mas nunca tinha tido contado com ele”, disse o professor ao G1 (Grupo Globo).

O militar ainda se identificava como Balta Nunes, mas o nome no chat do Facebook aparece como “Usuário do Facebook” porque a conta de Balta Nunes foi apagada da rede social.

Na conversa, o militar disse que gostou da publicação do professor, mas indicou que o post “não reflete a verdade” porque o apresenta como “um possível policial infiltrado”.

“Então Pablo, bacana vc vir conversar comigo (sic). Como eu disse já para muitas pessoas que estão me questionando por conta da sua matéria. E eu não quero ir além neste assunto. (1) Eu não sou P2. Não sou um infiltrado… e eu fui convidado por uma das meninas. Dekka. É bem verdade que não conheço o grupo… estava com eles na sexta, no afã de participar dos atos eu topei. Não tenho idade para isso Pablo. Não é minha praia. (2) acho bacana vc divulgar que é uma simples conversa. Mas os caras estavam planejando fazer algo muito mais ativo, eu estava com medo de alguém ter alguma coisa nas mochilas, graças a Deus não tinha. Mas, fomos seguidos, o Lucas que estava com a gente já disse que viu um cara seguindo. (3) Cara, tem dias que não durmo. Hoje fui no médico pq ontem fui avaliado por estresse, estou enlouquecendo as coisas. Conversei isso com algumas pessoas. Algumas estão solidárias a mim. E a recomendação foi para eu dar um tempo”, afirmou Botelho ao professor.

O professor sugeriu que Botelho procurasse a imprensa, pois o pseudônimo foi revelado pelo jornal El País Brasil. Mas o militar negou a ideia.

“Eu não vou falar com ninguém. Eu já agradeci a Deus por eles (manifestantes) terem sido liberados”, respondeu Botelho.

Nas últimas duas mensagens, o professor desejou “boa sorte” ao militar e afirmou que ele pretendia “confundir as pessoas”.

“Obrigado Pablo. Eu só queria me explicar pra você. Não queria causar uma má impressão a você. Não confio na Polícia. Acho que existe sim algo rolando por trás”, conclui o militar também em duas mensagens.

MP e Exército investigam caso

O Ministério Público de São Paulo vai investigar a denúncia sobre a participação de William Pina Botelho entre o grupo de manifestantes preso no domingo (04). A promotora de Justiça, Luciana Frugiuele, que compõe o Grupo de Ação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial (Gecep) disse que os jovens detidos devem ser chamados a depor, assim como o capitão do Exército.

“Vamos questionar a todos os manifestantes a eventual presença de um oficial infiltrado. Se isso ocorreu, se havia autorização para ele estar infiltrado, se ele agiu sozinho, tudo isso será apurado”, disse a promotora à GloboNews.

O Exército confirmou que William Pina Botelho é capitão na corporação e informou que o militar está lotado no Comando Militar do Sudeste, que fica em São Paulo. A nota também indica que o Exército abriu um processo administrativo para apurar o caso, mas não aponta se a corporação possui um sistema de inteligência que investigue manifestantes.

Quem é o militar

William Pina Botelho utilizou o nome de Balta Nunes para ir à manifestação contra o Governo de Michel Temer no domingo (04) com um grupo de 21 pessoas que foram detidas pela Polícia Miltiar no Centro Cultural Vergueiro, centro de São Paulo, antes do ato. Na ocasião, o militar não foi preso e seu nome não aparece no Boletim de Ocorrência que chegou à Justiça.

A denúncia de que Botelho era um policial infiltrado surgiu depois que a Justiça de São Paulo considerou ilegais as detenções dos manifestantes e os liberou. Alguns jovens que estavam detidos concederam entrevistas à Ponte Jornalismo denunciando Botelho como um policial infiltrado que não foi preso junto com o grupo.

“A gente foi enviado direto para o Deic e nesse momento que a gente entrou no camburão para ir, o Balta já não foi junto. E aí no chat que a gente tinha no whatsapp, ele conversando, falou que estavam mandando ele para outra DP porque ele estava com documento falso. E aí meio que morreu o contato. Ele insistiu um pouco na ideia e a gente achou meio suspeito. Como assim só ele vai para outra DP?”, relata um dos detidos que não quis se identificar.

A identidade do militar foi revelada na última semana por outro militar não identificado, que deu entrevista ao jornal El País Brasil reconhecendo Balta Nunes como William Pina Botelho.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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