A convite do Brasil, Exército dos EUA participa de exercício na Amazônia

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Exercício militar simula resgates em situação de ajuda humanitária a 1,1 mil km de Manaus: políticos e especialistas veem possível ameaça à soberania nacional, enquanto o Exército classifica estas como “teoria da conspiração”.

Por Rafael Bruza

Um dos exercícios realizado no evento multinacional / Foto – Reprodução (Antonio Cruz / Agência Brasil)

Entre 6 e 13 de novembro, na zona da cidade de Tabatinga (Amazonas), na tríplice fronteira do Brasil com o Peru e a Bolívia, cerca de 1.500 soldados brasileiros, 150 colombianos, 120 peruanos e 30 dos Estados Unidos participaram de exercícios militares que simularam resgates em situações de ajuda humanitária na Amazônia. O evento foi chamado de Amazonlog e abarcou uma série de atividades, como treinamento para resgates, suprimentos, manutenção e transporte, além de prestação de serviços de saúde.

O Exército dos EUA Estados Unidos participou do exercício com uma aeronave e como observadores integrados. Outros países, como Alemanha, Rússia, Canadá, Venezuela, França, Reino Unido, Japão e outros 15 países também enviaram observadores.

Cerca de 60% da Amazônia fica no Brasil. Políticos da oposição, analistas e cidadãos brasileiros veem a presença estadunidense em território brasileiro como uma possível ameaça à soberania nacional.

Em outubro, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) encaminhou requerimento ao ministro da Defesa, Raul Jungmann, e ao comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, pedindo informações sobre a participação de militares dos Estados Unidos em exercícios militares na Amazônia.

Segundo o parlamentar, a medida poderia representar a possibilidade de perda de soberania e/ou de subordinação do Exército.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou a presença estadunidense na Amazônia.

“Embora o objetivo manifesto do Amazonlog 17 seja apenas o de treinar tropas para lidar com crises humanitárias, como as causadas por catástrofes naturais e afluência de refugiados, o objetivo real parece ser o de inserir as Forças Armadas brasileiras na órbita estratégica dos EUA. A ampla participação no exercício do Peru e da Colômbia, países já alinhados estrategicamente a essa superpotência, reforça tal interpretação. Ademais, no curto prazo os exercícios visam, sem dúvida, estabelecer pressão sobre a Venezuela, regime que se contrapõe aos interesses dos EUA no subcontinente”, afirmou, em nota.

O escritor Raúl Zibechi afirmou que os estadunidenses podem se aproveitar do convite do Brasil, feito em momento de instabilidade interna, segundo ele, e declarou que o Governo Temer permite o acesso de empresas internacionais aos recursos naturais do país, inclusive o pré-sal.

“Os recursos naturais têm uma relação direta com a soberania nacional porque não se trata de conservacionismo puro: trata-se de reafirmar a soberania sobre os recursos, água, biodiversidade, questões nas quais as empresas norte-americanas tiveram e têm um interesse especial. Não é uma questão menor, é um tema muito forte”, afirmou o especialista ao site Sputinik.

Exército fala em “teoria da conspiração”

O general Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, comandante logístico do Exército e comandante-geral do AmazonLog, disse que soldados dos Estados Unidos (EUA) participaram do exercício por conta de sua reconhecida competência em situações de emergência e classificou como “teoria da conspiração” as afirmações de que a presença de militares norte-americanos seja uma ameaça à soberania nacional.

“Os EUA têm uma expertise muito grande no que se refere à ajuda humanitária. Só de furacões os Estados Unidos tiveram esse ano uns quatro e rapidamente o país se reconstruiu. Além disso, tem uma expertise para passar para a gente em incêndios florestais”. A seguir, ele lembrou incêndios nas Chapadas dos Guimarães e  Diamantina. “Roraima vive queimando e nós nunca aprendemos que temos que combater a incêndios florestais. Por que não passar esse conhecimento para a gente?”, questionou.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, participa de simulações no AmazonLog 2017 / Foto –
Reprodução( Antonio Cruz/Agência Brasil)

O general lembrou que anualmente são realizados exercícios com tropas estrangeiras na Amazônia, entre elas as dos Estados Unidos. “Comandei [as tropas do Exército]na Amazônia por quatro anos e todo ano a gente tem exercícios conjuntos com destacamentos de operações de forças especiais da Amazônia. Quantos pesquisadores americanos vêm para cá trabalhar conosco no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia [Inpa]? Os EUA trabalham com a gente, a Alemanha trabalha com a gente”, disse. “É totalmente sem cabimento quem levanta [a tese]de que os Estados Unidos vêm para cá com alguma outra intenção de que não seja a de cooperar na ajuda humanitária”, acrescentou.

O ministro da Defesa do Governo de Michel Temer, Raul Jungmann, visitou o exercício multinacional de simulação de ajuda humanitária e disse que eventos como o Amazonlog são a melhor forma de melhorar a relação do Brasil com países vizinhos.

“Aqui, países que são nossos amigos e vizinhos trabalham conosco, exercitam conosco como atender nossas populações, como alimentá-las, como fazer sua triagem e como dar conforto em situações que muitas vezes são de grande calamidade e podem envolver perda de vidas”, disse o ministro na tarde desse sábado (11), após visitar a base internacional montada para abrigar as tropas.

Cidade de Tabatinga, onde o evento ocorreu

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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