A coragem de se expor pela honestidade

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Denunciar corrupção é um trabalho que convém ao todos. Mas não é tarefa fácil. Estas duas pessoas da Espanha denunciaram esquemas no país ibérico e tiveram a vida virada do avesso por cumprir sua obrigação como cidadãos.

Por Adrián Argudo (tradução e edição de Rafael Bruza)

Os espanhóis Ana Garrido e o tenente Luis Gonzalo Segura / Foto – Reprodução (Canal 33/Captura)

Essa é a primeira história – espero que de muitas– que o Independente me dá a oportunidade de contar a vocês, como correspondente na Espanha. Quero começar forte, com decisão e, principalmente, coragem. Iremos comprovando através destas linhas: a coragem pode custar caro. Mas é necessária. A virtude é um dos bens mais importantes que podemos ter como seres humanos. Alguns caminhos nos convidam a seguir estes valores. Outros te incentivam a esquecer deles, mas, para os honrados, nada disso é um apuro. A honestidade é só uma obrigação. Porque ela não se negocia e beneficia a sociedade inteira.

Quero apresentar a vocês duas pessoas que, na minha vida de jornalista, tive a oportunidade de conhecer de perto. São eles: Ana Garrido e o tenente Luis Gonzalo Segura. Quero me lembrar deles. Aliás, quero que todos se lembrem deles.

Vamos falar de corrupção e de gente que luta por reduzir esse enorme mal.

Sei da situação que o Brasil vive hoje e obviamente não convém esconder as coisas, mas sim revelá-las. Neste sentido, nós, da imprensa, temos um papel fundamental. Expor o que os poderosos não querem que seja revelado é um exercício extremamente saudável. Todo resto é publicidade.

Ana e Luis são exemplos. Temos mais gente assim na Espanha. Apesar de que, logicamente, queremos que a “profissão” de “denunciante de corrupção” acabe.

Queremos o fim dessas práticas lamentáveis antes de tudo.

Essas pessoas são muito especiais, mas para, você entender bem, nós mesmos poderíamos s ser “denunciantes de corrupção”. Claro, cruzar essa linha que marca o passo entre expor estas práticas ou não, por certas questões – como medo, temor, ou venda pessoal – cria diferenças.

O tema “enfrentar o poder” não contempla apenas uma vitória pessoal. É uma decisão que redunda em um avanço da nação. Vale para todos. De fato, o benefício de suas batalhas recai, no final das contas, na vida de todos nós.

Tudo isso poderia parecer novelesco até aqui. Mas cuidado: não convém, em absoluto, nos confundir. Passamos mal. Muito mal. A máfia dos corruptos não gosta de quem tenta expor seus atos criminosos. Tende a atacar não apenas você, mas sua família e amigos também, se for necessário.

Isso foi o que os protagonistas desta história sentiram.

Tiveram que arriscar. Colocar em risco o destino desse soldado ousado e comprometido. São atuações heroicas. Isso sim: você sempre ouvirá Ana e Luis dizendo que eles “só fizeram o que era correto” e “só deram o passo” que falamos anteriormente.

Mas ambos tiveram que dormir em carros, perderam empregos – sem receber novas ofertas -, suportaram pressões mafiosas em círculos familiares e de amizades… Quem teve a ousadia de dar um passo a frente vive mares de lama. E asseguro que é muito diferente imaginar esse mal do que ouvir a história com eles olhando em seus olhos.

Ana foi uma das pessoas que revelou o esquema de corrupção da Espanha conhecido como Gürtel. De fato, ela também é conhecida como “Ana contra Gürtel”. Trata-se de um caso de 2009, vinculado ao Partido Popular (PP, partido governista e conservador), fundamentalmente de Madri e Valencia. Para falar sobre o caso, é preciso citar a comissão da sigla, a troca de favores, caixas 2, tesoureiros … Enfim: a corrupção precisa de um sistema piramidal para brotar. Por isso precisam de elementos políticos, empresariais e técnicos para funcionar. Este último é, digamos, o elo que o corrupto tem menos interesse após realização de suas práticas ilegais.

Obviamente os pagamentos e favores dados às pessoas da administração não vêm em tanta quantidade como para outros elos da corrente, mas, algumas circunstâncias, parece que vale a pena olhar para o lado e ficar calado.

É uma trama que fede. Uma das mais importantes da Espanha. Não ocorreu apenas nas capitais citadas anteriormente, mas sim no país inteiro, com participação de muitas personalidades.

Por isso a sociedade espanhola entende, de forma fundamentada, claro, que é governada por uma máfia nas administrações.

Aqui mandam os famosos ladrões de colarinho branco.

De sua parte, Luis denunciou esquemas de corrupção no Exército espanhol. Expor semelhante instituição, não é algo insignificante. Se envolver com isso pode custar muito caro, a ponto de que você sair da Espanha para procurar Justiça em tribunais europeus.

O ponto de partida do Luis foi publicar uma novela. A partir de 2014, teve suas primeiras consequências negativas. Exemplo: durante 139 dias ficou trancado em um centro de disciplina.

Quem deu a ordem, por sinal, não foi um juiz, mas sim a cúpula militar em que ele fazia as denúncias das práticas corruptas.

Um ano depois, foi expulso do Exército. E, em 2016, considera sua expulsão justa por entender que suas palavras foram injuriosas para a cúpula militar. Mas onde começa o insulto e onde termina o direito cidadão de receber informação? Se um senhor é um ladrão, pode se sentir mal por ser chamado por este termo. Mas a sociedade não tem direito de saber que aquele senhor é um ladrão?

Bom: Luis viu que sobravam apenas dois caminhos: o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, que é uma rota mais lenta – tendo em vista que a própria Justiça espanhola pode atrasar o caso em até três anos – ou ir à Eurocâmara com uma questão prejudicial.

É horrível que denunciantes de corrupção tenham que suportar quase 10 anos de problemas, como os que dissemos acima. Luis passou. Enquanto isso, tenta fazer justiça na Eurocâmara.

Mas não. Todos os processos judiciais em que ele se envolveu são pagos. E podem leva-lo à falência. A cidadania, ou parte dela, tenta ajudar. Seja com doações diretas ou de seu modo de vida.

Ana está com uma coleção de bijuteria, chamada Gotas de Alma, cujos pedidos podem ser feitos pela Internet – e chegam na sua casa.

Luis publicou dois livros. “Um passo à frente” e “Código Vermelho”. Isso o ajuda a sobreviver. Mas o indiscutível é que a vida deles mudou porque tentaram mudar a nossa vida.

“Falta grave”, diziam os militares ao Luis. A falta de disciplina é dos militares maus e corruptos, isso sim.

Quando falo com eles ou sobre eles, quero pensar – e consigo – que toda essa batalha não foi em vão. Gosto de supor que a Justiça ás vezes demora, mas chega. Não podemos baixar os braços. Nem no Brasil, nem na Espanha, nem em qualquer outro lugar do planeta. Não podemos permitir que castiguem a honestidade. Temos que trabalhar para castigar a corrupção.

As brechas de luz que os corajosos abrem já são imparáveis, em busca de países mais justos. Vamos construí-los.

Formado em jornalismo e pós-graduado em Comunicação pela Universidad Carlos III de Madrid. Apresentador de televisão na Espanha e editor-chefe no jornal regional de Madri Nuevo Cronica. Correspondente do Independente na Espanha. Serviçal do jornalismo. Professor. Torcedor do Atético de Madrid.

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