Crítico da Lei Rouanet, Gentili captou R$ 3,2 milhões com lei audiovisual

0

Empresas que financiaram o longa “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola” receberam isenção de impostos e participação nos lucros do filme, através de uma lei de incentivo à cultura semelhante à Rouanet.

Por Rafael Bruza

O autor do filme, Danilo Gentili, com os atores Daniel Pimentel (camiseta azul) e Bruno Munhoz (boné), protagonistas de ‘Como se Tornar o Pior Aluno da Escola’ / Foto – Divulgação

O filme “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”, escrito e roteirizado pelo humorista Danilo Gentili, captou R$ 3,2 milhões do setor privado por meio da Lei Audiovisual 8.685/93 – que permite incentivo indireto do Estado brasileiro a projetos audiovisuais privados, semelhante á alguns mecanismos da Lei Rouanet. Do total captado, R$ 3 milhões vieram de distribuidoras, que receberam participação nos lucros e isenção de impostos com o financiamento do longa.

Assim como a Lei Rouanet, a Lei Audiovisual permite que pessoas físicas e empresas tenham abatimento ou isenção de tributos ao direcionar recursos a projetos culturais aprovados pelo Estado.

Segundo Fabricio Bittar, diretor do filme e sócio da Clubtv Producoes e Entretenimento LTDA – empresa responsável por propor a captação junto à Ancine – apenas empresas do setor audiovisual foram beneficiadas com isenções de impostos autorizadas pela lei.

“O filme utilizou o artigo 3° da lei que permite às distribuidoras internacionais destinar os impostos que pagariam com a remessa de lucros ao exterior para a produção nacional em troca de equity (equidade) nos filmes. A Warner (empresa internacional e distribuidora do longa), por exemplo, recebeu 34% de participação ao destinar R$ 2,6 milhões para o filme”, explicou o diretor ao Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp), site que compõe uma rede de think tanks liberais nacionais e internacionais, junto com outros canais de ativismo político.

Captura da página da Ancine que mostra o projeto a aprovação do filme “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”

Em outras palavras, as empresas financiaram a produção do filme e receberam, em troca, isenções de impostos e de participação nos lucros gerados pelo longa. Esse tipo de incentivo estatal à produção cultural é “indireta” porque não há aplicação direta de dinheiro público nos projetos, como ocorre em editais do Ministério da Cultura, por exemplo, – mas sim uma destinação “indireta” de recursos, através da isenção de impostos que seriam, por direito, da União.

Ainda segundo Bittar, outros R$ 400 mil captados para o filme vieram do Telecine (canal de TV a cabo do Grupo Globo) por meio do mesmo artigo da lei. Não há informações sobre a empresa que financiou os R$ 200 mil restantes.

O diretor também afirmou que sua produtora trabalhou sem remuneração e que colocou dinheiro do próprio bolso, seguindo determinações do projeto aprovado pela Ancine, que exige contrapartida privada no valor de R$ 377 mil.

Gentili responde

Respondendo o Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp), o humorista Danilo Gentili declarou que não recebeu dinheiro público pela realização do filme.

“Não existe um centavo sequer de dinheiro público ou de lei que entrou no meu bolso como pessoa física, jurídica ou através de laranja. Pelo contrário. Eu que coloquei dinheiro do meu próprio bolso no filme”, declarou o humorista em mensagem enviada ao Ilisp.

O humorista também ressalta que abriu mão de receber dinheiro pela cessão de direitos, roteirização, atuação, produção criação das artes e divulgação do filme.

Resposta de Danilo Gentili ao Instituto Liberal de São Paulo

O filme de Danilo Gentili estreou na última quinta-feira (12) e conta a história dos estudantes Bernardo e Pedro, que “têm dificuldades para cumprir todas as regras de uma escola que adota medidas politicamente corretas”.

A situação dos jovens muda quando Pedro encontra no banheiro “um diário com dicas para instaurar o caos na escola sem ser notado” – confira críticas do filme, como esta do site CineSideral, esta do site CinePop ou esta do site AdoroCinema.

O projeto do filme Como se Tornar o Pior Aluno da Escola captou parcialmente os valores autorizados pela Ancine. A instituição autorizou captação de R$ 7,4 milhões até 31 de dezembro de 2017 – até o início de outubro, o filme captou R$ 3,2 milhões.

Críticas de Gentili à Rouanet

Danilo Gentili é crítico da Lei Rouanet e de alguns projetos aprovados pelo Ministério da Cultura. Em março de 2011, o humorista debateu com Fabio Porchat no Twitter sobre um projeto de Maria Bethânia aprovado pelo MinC.

A cantora tinha intenção de criar um blog de poesia. Na época, o Ministério da Cultura autorizou a captação de R$ 1,3 milhão via Lei Rouanet para a criação do blog – decisão que gerou polêmica e foi questionada por internautas.

Na discussão feita no Twitter, Porchat defendeu o projeto de Maria Bethânia, enquanto Gentili se posicionou contra.

Confira mensagens da discussão:

@FabioPorchat: “A Bethânia tá certa! Poesia de graça pra população brasileira é um PUTA projeto! São 365 poesias interpretadas pela MARIA BETHÉNIA!”

@DaniloGentili: “sou mil vezes menor q bethanio em publico, fama,historia.Acredita q consigo tocar meus projetos (blog,show,dvd,livro)sem isso?”

@FabioPorchat:”Mas @DaniloGentili, todo mundo consegue tocar projeto sem dinheiro público. Qualquer um, a Bethânia, você, o Zé das couves…”

“As empresas é que tinham que largar mão de só patrocinar projetos que tenham a Rouanet. Isso é um absurdo!”

@DaniloGentili:”com 1,3 milhoes da pra fazer nao blog, mas portal pra cego. E ainda sobra grana pra implantar neles novos olhos pra eles verem”

@FabioPorchat: “Por que que ninguém reclama de $ público pra futebol, carnaval… A mulher vem com um projeto ótimo, que contribui para a educação no país!”

@DaniloGentili:”Ela cobra quanto quiser! Mas nao pode achar ruim o povo criticar q num pais como o nosso o governo aceite pagar e ela (jovem q lutou por direitos iguais e flertou com comunismo e sempre pregou uma coisa) aceite receber.”

@FabioPorchat:”Quando o filme “E se eu fosse você 2” captou pela Lei Rouanet? Por que que ninguém reclamou?”

@FabioPorchat:”Acho que a Lei Rouanet é falha mas desde que ela existe quantas pessoas usaram esse dinheiro? Porque implicar com a Bethânia?”

Após polêmicas e a repercussão negativa nas redes sociais, Maria Bethânia desistiu de realizar o projeto. Ela alegou que se dedicaria a outros projetos.

Comentário do caso

Seguidores de Gentili “demitem” jornalista da Folha

O jornalista Diego Bargas foi demitido da Folha de S. Paulo após a publicação da matéria assinada por ele, “Comédia juvenil ri de bullying e pedofilia”, sobre o novo filme de Danilo Gentili “Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”. As informações são do Portal Imprensa.

A matéria foi publicada na última sexta-feira (13), e, logo na sequência, o humorista estimulou seus mais de 15 milhões de seguidores no Twitter a perseguir Bargas. O jornalista passou a sofrer ofensas e xingamentos em todos os seus perfis em redes sociais.

“Acho que fiz o filme errado. Coloquei psicopata na ficção e ele curte apenas psicopata no mundo real”, disse o apresentador do “The Noite”. As ofensas via Facebook e Instagram, que foram bloqueados pelo jornalista, trazia alguns xingamentos, como “bichona, autista, otário, merda, lixo social, imbecil, bixinha, viado, militonto e acéfalo”.

“A confusão com o Gentili me fez perder o emprego. A Folha de S. Paulo me demitiu. Não posso entrar em detalhes sobre isso, mas é tudo muito nebuloso. Danilo Gentili me esmagou como uma barata, só porque ele pode, só porque eu ousei o desafiar”, contou. “É surreal que eu tenha virado alvo de um cara desse tamanho”, afirmou o repórter.

Por meio de nota o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiaram veementemente a perseguição contra o jornalista. “É mais um grave caso de perseguição e intimidação a jornalistas, o sexto ocorrido em São Paulo nos últimos meses, e que mostra uma escalada contra a liberdade de expressão e de imprensa em nosso país. O texto de Bargas é uma reportagem correta, que analisa o filme e reproduz pontos de vista de Gentili e do diretor Fabrício Bittar expressos em entrevista ao jornalista. Gentili, porém, decide massacrar o jornalista em rede social, mostrando sua intolerância à atividade jornalística, e manipular o episódio para tentar melhorar o resultado comercial de seu produto”, diz a nota.

“A Folha de S. Paulo, ao tomar tal atitude, demonstra não ter o mínimo compromisso com princípios como a liberdade de imprensa, de expressão e com a pluralidade, dos quais a empresa se reclama em suas campanhas de marketing”, continua a nota.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook