Crônica: as manifestações em SP a favor e contra a condenação de Lula

0

Assista a reportagem em vídeo: Vem Pra Rua, MBL e Partido dos Trabalhadores realizaram atos em São Paulo a favor e contra a condenação do ex-presidente, respectivamente.

Por Rafael Bruza

Protesto do PT no dia 24 de janeiro, na Praça da República, e o ato do Vem Pra Rua, na Avenida Paulista, no dia 23 de janeiro / Foto (Rafael Bruza/Independente)

Nos dias 23 e 24 de janeiro, o Independente esteve em quatro manifestações na cidade de São Paulo – todas relacionadas com o julgamento do ex-presidente Lula no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre (RS). Na Avenida Paulista, manifestantes “comemoraram” a condenação do ex-presidente em atos do Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre (MBL) e um grupo a favor da intervenção militar, enquanto milhares de manifestantes estiveram na Praça da República, no centro da cidade, para gritar que “eleição sem Lula é fraude”.

O Vem Pra Rua reuniu cerca de mil pessoas em seu protesto do dia 23, segundo a Polícia Militar. No outro dia, o ato do MBL, Revoltados Online e Nas Ruas atraiu algumas centenas de pessoas. E a jornada de protestos se encerrou com a manifestação do PT, que teve presença de Lula, levou 50 mil às ruas, segundo os organizadores – a PM não divulgou número de manifestantes presentes.

Protesto do Vem Pra Rua – 23 de janeiro – 18h – Avenida Paulista – 1 mil pessoas presentes

A convocatória do Vem Pra Rua foi feita via redes sociais, como ocorre tradicionalmente, e a manifestação de São Paulo a favor da “Justiça” contra Lula era apenas uma, entre outros atos convocados pelo grupo Brasil afora.

O protesto começou frio, cresceu em tamanho, teve momentos de exaltação e perdeu dimensão à medida que a tarde virava noite, depois de entusiasmar cidadãos presentes.

De vista e como as imagens mostram, a maior parte do público presente tinha mais de 40 anos e pele branca.

Grupos de senhoras, trabalhadores que passavam pelo local e manifestantes de camiseta da seleção brasileira formaram uma manifestação pequena, mas robusta, que encheu a calçada e ocupou duas faixas da Av. Paulista, diante do Tribunal Regional Federal da 3ª Região – “irmão” paulista do TRF-4, de Porto Alegre, onde ocorreria o julgamento de Lula.

Bandeiras do Brasil e de São Paulo eram agitadas sobre cabeças presentes, enquanto a Polícia Militar assistia o ato com relativa distância.

O protesto do Vem Pra Rua / Foto (Rafael Bruza/Independente)

No microfone, líderes do movimento classificavam o dia como “histórico” e incentivavam a comemoração da massa argumentando que a condenação de Lula era uma vitória para a luta contra a corrupção.

O Independente perguntou a manifestantes sobre o poder Judiciário que atingiu Lula, mas deixou Temer e Aécio Neves impunes. No geral, responderam que Temer será julgado dia 1 de janeiro e se posicionaram contra a corrupção do senador tucano – mas obviamente demonstraram mais incômodo com a candidatura de Lula.

A manifestação teve exaltações a Sérgio Moro, gritos de apoio a Lava Jato e exclamações contrárias aos “corruptos”.

O início do hino nacional uniu as centenas de pessoas ali presentes, enquanto cinegrafistas da TV Gazeta e da Band recolhiam imagens para o noticiário do dia.

Havia um grupo de camiseta vermelha, chamado “Transição Socialista”, distribuindo panfletos ao lado da manifestação. O Independente entrevistou um dos responsáveis, que classificou Lula como um “traidor” e argumentou que o ex-presidente abandonou a classe operária ao se aliar a “poderosos”.

Antes disso, a reportagem viu o líder do Revoltados Online, Marcelo Reis, fazendo uma transmissão ao vivo da manifestação e convocando internautas a comparecerem no ato que ocorreria na manhã seguinte na Avenida Paulista, também a favor da condenação do ex-presidente Lula no TRF-4.

Passadas algumas horas de manifestação, os microfones deram lugar a reprodução de músicas aleatórias no carro de som do Vem Pra Rua, que sinalizavam o ocaso do ato.

Protesto do MBL, Revoltados Online e Nas Ruas – 24 de janeiro – 10h – Vão do MASP – Avenida Paulista – cerca de 400 pessoas presentes

O dia de manifestações em São Paulo começou com a presença de um grupo pequeno a favor de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. Um homem fazia comentários exaltados no alto-falante e outro vendia camisetas do deputado, enquanto os demais manifestantes aguardavam o início do ato – tanto na calçada, parados, quanto na faixa da avenida separada para o ato, onde gritavam e agitavam bandeiras para motoristas que passavam no local.

Alguns motoristas provocaram os manifestantes chamando-os de “coxinhas”, outros buzinaram e levantaram o braço em sinal de apoio ao ato.

Protesto do MBL, Revoltados Online e Nas Ruas feito no vão do MASP, durante julgamento de Lula / Foto (Rafael Bruza/Independente)

Nas redes sociais, a convocatória do MBL foi tímida e o protesto atraiu menos pessoas que o ato do dia anterior.

Por volta das 11h30, o carro do movimento chegou trazendo jovens lideranças e membros do grupo. O boneco gigante de Lula com roupa de presidiário começou a ser inflado na rua e as primeiras notícias sobre o julgamento chegavam de Porto Alegre.

O voto de João Gebran Neto, do relator do processo no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), foi comemorado como um gol pelos manifestantes.

Logo um músico subiu com violão ao carro do Revoltados Online para cantar músicas políticas – contrárias à Lula, obviamente -, enquanto uma mulher vendia seu CD à plateia.

A manifestação durou o dia todo.

Protesto a favor da intervenção militar – 24 de janeiro – 15h – Avenida Paulista – cerca de 30 pessoas presentes

Subindo a Avenida Paulista, um grupo a favor da intervenção militar fazia barulho e mostrava bandeiras aos carros que passavam no local. Havia gente jovem no ato, mas os líderes tinham mais de 40 anos e falavam com tom incisivo, defendendo a moralidade, a corrupção e o Regime Militar (1964-1985).

Eles clamavam pelo retorno dos militares entendendo que vale a pena perseguir “comunistas” pelo “bem da nação”.

Todos criticaram a imprensa e a manifestação do MBL, que ocorria a poucas quadras dali.

Acusaram os movimentos pró-Impeachment de se aliar com o “corrupto” Michel Temer e disseram que não irão a atos destes grupos – classificados por eles como “esquerda”.

A entrevista e a presença da câmera chamaram atenção dos manifestantes. Vieram conversar conosco, sem enfrentamento, querendo apenas expor suas ideias.

Mas o tom dos manifestantes subiu quando um dos jornalistas do Independente chamou o governo Militar de “Ditadura”.

“É regime militar”, respondeu incisivamente o manifestante.

O jornalista não problematizou a situação e seguiu com a pergunta: “mas o que ocorria com a corrupção durante o ‘regime militar’”?

Os entrevistados responderam que os militares não escondiam as ilegalidades “como políticos fazem atualmente”.

Finalizada a entrevista, houve conversa com os manifestantes, que só terminou quando a chuva ameaçou cair na capital paulista, obrigando os jornalistas a se deslocarem para o local da última manifestação do dia: a do PT, na Praça da República, com presença de Lula.

Protesto do PT, com presença de Lula – 24 de janeiro – 17h – Praça da República – Centro de SP – 50 mil pessoas presentes

Muita gente, bandeiras coloridas de diversos movimentos, policiais carregando armas com bala de borracha e cartazes em defesa de Lula caracterizavam uma Praça da República lotada, que aguardava a fala do ex-presidente, marcada para às 19h.

O PT fretara ônibus de diversas cidades do Estado para encher o ato a favor de Lula no centro da capital.

O objetivo foi cumprido, como as imagens mostram.

Protesto do PT a favor de Lula na Praça da República, dia 24 de janeiro / Foto (Rafael Bruza)

Ninguém comentava o resultado do julgamento no TRF-4, pois todos sabiam que Lula seria condenado em 2ª instância – e pouco importava, aos manifestantes, se o placar seria 3×0 ou 2×1.

A questão central ali era mostrar ao poder Judiciário e à direita que Lula não estava sozinho.

Das bocas dos manifestantes saíam palavras críticas à Justiça e ao julgamento – uma “farsa” e uma “fraude” feita para “retirar Lula das eleições”, segundo entrevistados.

Muitas pessoas de camiseta vermelha tinham idade avançada. Havia inclusive um senhor que ironicamente vestia uma camiseta da “Juventude da CUT”.

Em contrapartida, a imprensa mente ao dizer que só há sindicatos e pessoas pagas com sanduíche de mortadela em manifestações petistas.

Havia gente de todo tipo, apesar da ampla presença de diversos movimentos, partidos e sindicatos.

A imprensa diz que cobre eventos com profundidade, mas a reportagem só viu duas câmeras de televisão no ato: uma da RedeTV muito bem posicionada e outra presa em um helicóptero, que se aproximava da manifestação para captar imagens.

Ou seja: estava claro que a Grande Mídia não faria entrevistas naquela multidão petista, ao contrário do que fizera nos atos de direita.

Enquanto isso, o microfone do carro principal passava pelas mãos de alguns dos principais líderes de esquerda da capital paulista. Isa Penna (PSOL), Wagner Freitas (CUT) e Guilherme Boulos (MTST) fizeram discursos para a plateia falando em direitos das minorias, injustiças da Justiça e, claro, condenação de Lula.

Fernando Haddad, Eduardo Suplicy e Gleisi Hoffman também estavam presentes.

O horizonte estava enfeitado com bandeiras, balões gigantes e grandes faixas dizendo que “eleição sem Lula é fraude”.

Manifestantes a favor de Lula na Praça da República / Foto (Rafael Bruza)

Uma cantora assumiu o microfone para interpretar “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, eternizada na voz de Elis Regina.

Algumas notas saíram desafinadas, mas a música, que trata sobre as condições de vida das pessoas perseguidas na Ditadura Militar e se tornou um hino da Anistia, tinha significado político no momento – aplicado retoricamente na situação de Lula.

Diz a letra:

“Mas sei, que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar”

Enquanto isso, havia pelo menos três rodas de bateria agitando o público. Bares cheios, vendedores ambulantes, gente branca, gente negra, gente de partidos e gente comum se misturava entre si.

Uma mulher chorou ao ouvir que Lula tinha sido condenado por 3×0.

“Tem um pessoal que é mais fanático, né?”, comentou uma manifestante que descansava em um banco próximo à praça lotada. A interlocutora moveu com a cabeça em concordância…

Por volta das 20h, o ex-presidente Lula foi anunciado no microfone e ovacionado na multidão sob gritos de “olê, olê olê, olá, Lula, Lula!

O ex-presidente começou a falar com a voz desgastada e cansada, mas com a oratória marcante de sempre, gerando reações no público a cada comentário.

“Esse ato é infinitamente maior que um de eleição. É um ato em defesa da soberania do povo”, exclamou Lula. “Eu nunca tive nenhuma ilusão com a decisão do tribunal. E por quê? Porque houve um pacto entre o poder Judiciário e a imprensa. Resolveram que era hora de acabar com o PT e de acabar com nossa governança no país. Eles já não admitiam a ascensão social das pessoas mais pobres do país. Era muita gente com carro na rua e a culpa é dessa desgraça do PT, que fica ajudando esses pobres trabalhadores”, ironizou.

“Se eles me condenaram, me deem o apartamento pelo menos, porra”, disse Lula em tom irônico, despertando euforia na multidão presente (veja mais comentários de Lula na reportagem em vídeo do Independente).

Com o fim do discurso, a manifestação começou a se deslocar com agilidade.

Subiram a Consolação mantendo a linha da Praça da República e, assim, deram fim a maior manifestação do dia.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook