Cuidado com robôs que debatem política automaticamente nas redes sociais

0

Estudo da FGV/DAAP afirma que perfis automatizados foram usados em momentos importantes da política nacional para “propagar informações falsas, maliciosas, ou gerar um debate artificial”.

Por Rafael Bruza

Ilustração / Foto – Divulgação (FGV/DAAP)

Um estudo inédito da Diretoria Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP), publicado na semana passada, afirma que perfis automatizados do Twitter – chamados de robôs ou bots – moveram debates políticos em momentos importantes do país, desde as eleições de 2014.

“Contas automatizadas que permitem a massificação de postagens se converteram em uma potencial ferramenta para a manipulação de debates nas redes sociais, em especial em momentos de relevância política. Com isso, o mundo virtual tem permitido a adaptação de velhas estratégias políticas de difamação e manipulação de debates públicos, agora em maior escala”, diz o artigo de apresentação da pesquisa.

O estudo analisou a participação de robôs durante momentos importantes da história política recente.

“Na greve geral de abril de 2017, por exemplo, mais de 20% das interações ocorridas no Twitter entre os usuários a favor da greve foram provocadas por esse tipo de conta. Durante as eleições presidenciais de 2014, os robôs também chegaram a gerar mais de 10% do debate”, afirma o estudo.

Essa influência ocorreu em outros momentos importantes da política nacional.

“Durante protestos pelo Impeachment, essas interações provocadas por robôs representaram mais de 20% do debate entre apoiadores de Dilma Rousseff, que usavam significativamente esse tipo de mecanismo”, afirma o estudo. “Outro exemplo analisado mostra que quase 20% das interações no debate entre os usuários favoráveis a Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014 foi motivado por robôs”.

Estes robôs são usados para manipular outros internautas.

“Nas discussões políticas, os robôs têm sido usados por todo o espectro partidário não apenas para conquistar seguidores, mas também para conduzir ataques a opositores e forjar discussões artificiais”, explica o estudo. “Eles manipulam debates, criam e disseminam notícias falsas e influenciam a opinião pública postando e replicando mensagens em larga escala. Comumente, por exemplo, eles promovem hashtags que ganham destaque com a massificação de postagens automatizadas de forma a sufocar algum debate espontâneo sobre algum tema”.

A FGV/DAPP não aponta nomes que podem estar por trás dos robôs, pois indica que diversos grupos podem fazer uso de perfis automatizados, inclusive desde o exterior.

“Ao identificarmos robôs operando para um campo, porém não queremos dizer que os atores políticos e públicos ali situados sejam responsáveis diretos pelos robôs a seu favor”, afirma. “Diversos grupos de interesse podem estar fazendo uso desse tipo de recurso de disseminação de informações. Na verdade, lato sensu (em sentido amplo), há robôs até operando do exterior. Isso inclusive enseja a reflexão de manipulação não só interna, mas também para além dos campos políticos nacionais, sugerindo a hipótese da possibilidade de até mesmo outros atores, estranhos ao quadro nacional, operarem nas redes esses mecanismos”.

Trata-se, então, de uma ameaça para a própria democracia, segundo os pesquisadores, que apresentam os perfis automatizados como “uma ameaça real para o debate público, representando riscos, no limite, à democracia, ao manipular o processo de formação de consensos na esfera pública e de seleção de representantes e agendas de governo que podem definir o futuro do país”.

Esse estudo da FGV/DAPP segue a linha de um trabalho feito pela Universidade Oxford, dos Estados Unidos, publicado em junho de 2017 e que fala sobre o caráter “determinante” de robôs nos debates políticos do Brasil.

Como funcionam?

Segundo o estudo da FGV/DAPP, os robôs “são usados nas redes sociais para propagar informações falsas, maliciosas, ou gerar um debate artificial”.

Ou seja: compartilham informações falsas já publicadas ou produzem pequenos textos para gerar influência no debate.

“Para isso, precisam ter o maior número possível de seguidores”, de forma que se pareçam a perfis reais, afirma o documento em que a pesquisa foi publicada.

“Sua ação pode, por exemplo, produzir uma opinião artificial, ou dimensão irreal de determinada opinião ou figura pública, ao compartilhar versões de determinado tema, que se espalham na rede como se houvesse, dentre a parcela da sociedade ali representada, uma opinião muito forte sobre determinado assunto”, diz o estudo. “Isso acontece com o compartilhamento coordenado de certa opinião, dando a ela um volume irreal e, consequentemente, influenciando os usuários indecisos sobre o tema e fortalecendo os usuários mais radicais no debate orgânico, dada a localização mais frequentes dos robôs nos polos do debate político”.

Mas há outras funções.

“Os perfis automatizados também promovem a desinformação com a propagação de notícias falsas e campanhas de poluição da rede. Robôs frequentemente usam as redes sociais para reproduzir notícias falsas com o objetivo de influenciar determinada opinião sobre uma pessoa ou tema, ou poluir o debate com informações reais, porém irrelevantes para a discussão em questão. Esta ação, que conta com o compartilhamento de links como principal mecanismo de propagação, tenta evitar ou diminuir o peso do debate sobre determinado assunto. Para isso, os robôs geram um número enorme de informações, que chegam até os usuários simultaneamente às informações reais e relevantes, que acabam tendo seu impacto diminuído. Assim, a atuação de robôs não apenas dissemina notícias falsas, que podem ter efeitos nocivos para a sociedade, mas também busca ativamente impedir que os usuários se informem de maneira adequada”.

O roubo de perfis feito com intuito de transformar uma conta verdadeira em uma automatizada é também entra na lista de ação desses robôs.

“Outra estratégia comum dos perfis automatizados é o compartilhamento de links maliciosos, que tem como fim o roubo de dados ou informações pessoais. Essas informações podem ser usadas para a criação de novos perfis robôs que tenham características que auxiliem estes robôs a iniciarem conexões nas redes com usuários reais, como fotos de perfil. Uma ação comum e que costuma gerar suspeita sobre a atuação de robôs é a marcação por parte de um usuário desconhecido em um link reduzido, sem identificação clara do seu conteúdo. Esses links podem também, além de roubar informações pessoais para uso na própria rede social, direcionar o usuário para notícias falsas ou sites que usarão o número de acessos para ampliar sua influência na rede”.

Os robôs foram usados até mesmo para manipular bolsas de valores.

“Também já foram detectadas ações de robôs com o objetivo de manipular o mercado de ações. Isso ocorre quando redes de robôs são colocadas em funcionamento para gerar conversas que envolvam de maneira positiva determinada empresa ou tema, manipulando, assim, os sistemas das corretoras de acompanhamento do debate nas redes. Desta forma, ações em questão podem ser valorizadas com base em um otimismo forjado pela ação de robôs”, diz o estudo, que apresenta um exemplo desses usos dos robôs.

“Um caso recente deste tipo de ação envolveu um debate gerado por robôs nas redes com relação a uma empresa de tecnologia chamada Cynk. Os algoritmos automáticos de compra e venda de ações identificaram esse debate e começaram a fazer transações com ações da empresa, cujo valor de mercado aumentou 200 vezes, chegando aos 5 bilhões de dólares. Quando corretores de ações identificaram que era uma ação orquestrada e automatizada, as perdas já eram grandes. Este tipo de ação mostra outro potencial disruptivo dos perfis automatizados, dessa vez para a economia, podendo gerar impactos que transbordam também para os debates políticos”.

Presença no Facebook e no Twitter

O estudo também indica que os robôs possuem maior facilidade de propagação no Twitter do que no Facebook.

“O padrão de texto do Twitter (140 caracteres) gera uma limitação de comunicação que facilita a imitação da ação humana. Além disso, o uso de ‘@’ para marcar usuários, mesmo que estes não estejam conectados a sua conta na rede, permite que os robôs marquem pessoas reais aleatoriamente para inserir um fator que se assemelhe a interações humanas”, diz o estudo.

“Robôs também se aproveitam do fato de que, geralmente, as pessoas são pouco criteriosas ao seguir um perfil no Twitter, e costumam agir de maneira recíproca quando recebem um novo seguidor. Experimentos mostram que no Facebook, plataforma na qual as pessoas costumam ser um pouco mais cuidadosas ao aceitar novos amigos, 20% dos usuários reais aceitam pedidos de amizade de maneira indiscriminada, e 60% aceitam sempre que possuem ao menos um amigo em comum. Dessa maneira, os robôs adicionam um grande número de pessoas ao mesmo tempo e seguem páginas reais de pessoas famosas, além de seguir e serem seguidos por um grande número de robôs, de forma que acabam criando comunidades mistas – que incluem perfis reais e falsos”.

Como identificá-los?

Os estudos sobre identificação de robôs nas redes sociais foram inspirados em trabalhos para detecção e bloqueio de spams (publicidade enviada em massa) em sistemas de mensagem eletrônica, como o e-mail, conforme explica o estudo.

Mas, ainda segundo os pesquisadores, “não há uma característica única que indique categoricamente se determinado perfil pertence a um usuário real ou falso, automatizado”.

Os robôs fazem o possível para imitar o comportamento humano e serem vistos como reais pelos usuários de Internet.

A FGV/DAPP aponta três metodologias usadas para identificar robôs (leia mais na página 13 do estudo) na Internet. Essa identificação pode ser feita:

  1. a) a partir de informações disponíveis nas próprias redes sociais;
  2. b) sistemas baseados em contribuição colaborativa (crowdsourcing) e inteligência humana para identificar os perfis de robôs; e
  3. c) através de aprendizado de máquinas (machine-learning), baseado na identificação de determinadas características que permitem a automatização da diferenciação entre robôs e pessoas.

Mas internautas ainda dependem de suas próprias capacidades para identificar perfis automatizados, em situação que “avaliadores leigos não têm boa performance” para identificação individual, segundo um estudo de Wang et al (2013) nos EUA, que usou a metodologia crowdsourcing para analisar capacidade de internautas identificarem os robôs.

A despeito disso, o estudo apresenta fatores que podem ser estudados e combinados para desenvolver um modelo de detecção de robôs em redes sociais.

Os fatores são:

  • Características do usuário (suspeito), considerando o número de amigos (as pessoas reais possuem, em média, entre 100 e 1000 seguidores), a proporção e a correlação entre perfis seguidos e perfis que seguem o usuário;
  • Características das amizades (do suspeito), analisando como os usuários daquela rede estão interagindo entre si, incluindo padrões relacionados a linguagem, popularidade e horário nos locais de interação;
  • Características da rede de retuítes, menções e repetição de hashtags (do perfil suspeito);
  • Características temporais, como o tempo médio de produção de tweets;
  • Características de conteúdo e linguagem;
  • Características do sentimento expressado por meio da postagem.

Os autores do estudo defendem identificação de quem está por trás dos robôs.

“Para que as redes sociais continuem sendo um espaço democrático de opinião e informação, é necessário identificar a organicidade dos debates. Para que as redes se tornem mais transparentes é também fundamental que os responsáveis por esse tipo de ação coordenada comecem a ser identificados, buscando compreender os interesses por trás da contratação destes serviços de automatização e propagação de desinformação”, conclui.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook