Curador da exposição cancelada em Porto Alegre quer levar obras a outras cidades

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Gaudêncio Fidélis considera que as campanhas de boicote “desrespeitaram” a curadoria e os artistas selecionados. A cidade de Belo Horizonte cogitou receber a exposição, mas voltou atrás após encontrar problemas contratuais.

Por Rafael Bruza * com informações do jornal O Tempo

O curador da exposição, Gaudêncio Fidélis, e uma das obras acusadas de incentivar a pedofilia / Foto – Reprodução (Raul Hotz/Divulgação)

O curador da exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, Gaudêncio Fidélis, pretende levar as 270 obras de 85 artistas a outras cidades do país, depois que a apresentação foi cancelada em Porto Alegre no domingo (10), por conta de campanhas de boicote feitas por grupos religiosos e pelo Movimento Brasil Livre (MBL) contra o banco.

“A questão da logística poderia ser um dificultador, mas eu gostaria que qualquer lugar do país tivesse condições técnicas para receber a mostra. Foi um desrespeito com a curadoria e com os artistas selecionados. É um trabalho realizado desde 2010. Isto abre uma brecha sem precedentes no país. Capturaram e editaram imagens fora do contexto, criaram uma falsa narrativa. Foi um movimento orquestrado e conservador”, observa o curador, que lamenta o cancelamento da exposição.

“Esse é o mundo que vivemos agora? Um mundo em que um grupo reduzido, com ideologias das mais reacionárias e retrógradas, vai dizer para nós o que nós podemos ver e como nós podemos pensar? Esse é um grande e terrível precedente que esse fechamento intempestivo da exposição abre”, disse o curador em entrevista ao vereador do Rio de Janeiro, David Miranda (PSOL). “Essa exposição começou a ser pensada em 2010! É uma tristeza ver que isso tudo acabou, que foi tirada da visibilidade pública depois de apenas dois dias e meio de manifestações das mais reacionárias de parte deste grupo que a gente conhece como MBL”.

Entre os autores expostos na “Queermuseu”, estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano e Ligia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos. Críticos da mostra afirmaram que alguns dos quadros representavam “imoralidade”, “blasfêmia” e “apologia à zoofilia e pedofilia”.

Por conta dos protestos e da repercussão do caso, o Banco Santander comunicou nesta segunda-feira que irá devolver à Receita Federal os R$ 800 mil captados via Lei Rouanet para a realização da exposição. Em nota, a instituição pediu desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra. O objetivo da empresa, de acordo com o comunicado, “é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia”.

Promotores não viram pedofilia

Os promotores Denise Villela e Julio Almeida analisaram as obras nesta segunda-feira (11) e declararam à imprensa que “não há pedofilia” no conteúdo exposto.

“Fomos examinar in loco, ver realmente quais obras que teriam conteúdo de pedofilia. Verificamos as obras e não há pedofilia. O que existe são algumas imagens que podem caracterizar cenas de sexo explícito. Do ponto de vista criminal, não vi nada”, salienta o promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Julio Almeida.

“Não há crianças e adolescentes em sexo explícito ou exposição de genitália de crianças e adolescentes. Também não há obras que façam com que a criança seja incentivada a fazer sexo com outra criança”, declarou o procurador em entrevista ao G1 (Grupo Globo).

O promotor também afirmou que uma das medidas que poderiam ser tomadas seria colocar essas peças em um espaço reservado. Entretanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não faz uma exigência “objetiva” da necessidade da colocação de classificação etária para museus.

“O ECA é muito claro [diante a classificação indicativa de idade]para revistas, peças de teatro, programas de televisão, entre outros. Para museu não tem algo objetivo. É a primeira vez, em 20 anos na promotoria, que vejo isso”, destaca Julio.

BH cogitou receber exposição

O secretário de Cultura de Belo Horizonte (BH), Juca Ferreira, estudou a viabilidade de receber a exposição para não “legitimar a volta da censura”. Mas, após conversar com o prefeito da cidade, Alexandre Kalil (PHS), ele afirmou que seria praticamente impossível trazer a mostra para BH por uma questão contratual, segundo o jornal O Tempo, de Minas Gerais.

Antes da Prefeitura de BH desistir de trazer a exposição para a cidade, membros do MBL da região prometeram manter os protestos contra a exposição.

“Se vier para a cidade vamos protestar e continuar estimulando o boicote. Não existe censura quando não existe aparto coercitivo, somente mostramos nossa indignação e realmente estimulamos as pessoas a boicotarem a mostra. É uma exposição que agride a crença de diversas pessoas”, afirmou o coordenador do MBL de Belo Horizonte, Ivan Gunther.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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