De olho nas eleições, Márcio França flerta com a tirania do estado e com a extrema-direita

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De olho nas eleições, Márcio França profere frases e toma atitudes que podem incentivar tirania do estado e violência.  

Ao dizer que quem “ofender” (aqui) a PM de São Paulo está correndo risco de vida, o governador de SP, Márcio França, está a conferir licença e legitimidade à violência policial, ainda que suas intenções sejam outras. Palavras têm força, ainda mais proferidas por um governador pré-candidato.

Entre domingo (13) e segunda (14) Márcio França tomou atitudes e proferiu frases com o objetivo de agradar setores da sociedade sedentos por vingança e não preocupados em gerar oportunidades, institucionalizando um modo de governar mais generoso com os desfavorecidos. O pré-candidato decidiu abraçar a extrema-direita.

O governador cultua o provincianismo com esse papo de “a farda da polícia é a extensão da bandeira de São Paulo”. Coisa antiquada estabelecer fronteira como se São Paulo fosse um paraíso e não parte de um problema nacional. Como se São Paulo não fosse o estado do PCC (Primeiro Comando da Capital) – aquele que fuzila policiais e dá toque de recolher, tirando milhões das ruas, como aconteceu em 2006.

Ao entregar flores a uma policial (aqui) – que, fora do exercício do seu trabalho, matou um bandido, em legítima defesa – França quis faturar politicamente com a morte de um ser humano. Fica a pergunta: o que seria França, neste caso, um marqueteiro da morte? Nem João Dória, com suas fanfarronices marqueteiras, chegaria a tanto.

A ação arriscada da policial justifica-se pelo fato de ela ser preparada para tanto, e pelos riscos, que as mães, inclusive ela, uma policial, corriam naquele instante aqui. Mas não há o que comemorar ante um flagelo reflexo da exclusão social, ante a morte de um jovem. Só mentes psicopáticas e oportunistas transformam isso em rega-bofe ideológico e eleitoral.

Todos os dias morrem policiais e bandidos nessa guerra diária em que muitas vezes a criminalidade mistura agentes do estado e bandidos no mesmo pacote. França fará uma celebração por dia pelas mortes de negrinhos nas periferias? Sim, as principais vítimas da violência urbana são jovens negros de periferia, segundo estatísticas.

França chegará às raias de defender armamento civil da população, tal qual um pré-candidato à presidência? Na esteira dos festejos do governador, delinquentes na internet defenderam a reação a assaltos e o armamento civil da população. Reitero: um homem público da responsabilidade do governador de SP tem de pesar os impactos de suas falas e atitudes, este é o ponto.

Matéria da Folha aqui mostra que especialistas demonstraram preocupação com a celebração (a entrega das flores a policial) do governador porque ela pode incentivar reação a assaltos, na contramão das orientações da polícia. A reportagem informa que a morte de policiais aumentou 10% em 2017, só em SP, chegando a 943, batendo recorde desde 2001. Essa é prova que apagar incêndio com gasolina queima a todos – policiais, criminosos e inocentes.

Nesta terça (15), aqui um policial reagiu a um assalto em um ônibus e morreu baleado, uma viajante está em estado grave, os criminosos foram mortos. Se é arriscado para um policial reagir, imagine para um civil despreparado.

O governador poderia ter ligado para a policial e conversado privadamente, mas aí não teria marketing, não é mesmo? A policial foi exposta e pode amanhã ou depois virar alvo de bandidos. Já o governador produziu contra si uma onda de críticas que poderia ter sido evitada – e piorou as coisas com a frase dita em Araçatuba nesta segunda (14), “as pessoas têm que entender que a farda deles [PM] é sagrada, é a extensão da bandeira do Estado de São Paulo. Se você ofender a farda, ofender a integralidade do policial, você está correndo risco de vida. É assim que tem que ser”.

A fala eleitoreira, corporativista e provinciana corteja a tirania do estado e o fascismo, além de expor civis e policiais à violência. Márcio França é conhecido por apenas 09% do eleitorado, segundo o último Datafolha; o seu cartão de visitas, com as digitais da extrema-direita, não é alvissareiro.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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