Denúncias e questionamentos em torno da Operação Carne Fraca

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Confira um resumo inicial do caso, dos questionamentos, das imprecisões da investigação e dos fatos preocupantes levantados pela Polícia Federal.

Por Rafael Bruza

Entrevista coletiva dos policiais da Polícia Federal sobre a Operação Carne Fraca / Foto – Reprodução

O caso

Na sexta-feira (17), a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca, que investiga um esquema de liberação irregular de licenças para frigoríficos envolvendo fiscais do Ministério da Agricultura e empresas do agronegócio, como a BRF (Sadia e Perdigão) e a JBS (Friboi, Seara e Swift), entre outros frigoríficos menores. A PF disse que é a maior operação já realizada na história da instituição.

Foram 1.110 policiais federais cumprindo 309 mandados judiciais, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão em residências e locais de trabalho dos investigados.

Entre os 26 presos preventivamente estão o gerente de relações institucionais e governamentais da BRF, Roney Nogueira dos Santos, e o executivo do grupo JBS Flavio Cassou.

Um funcionário da JBS chamado Flavio Cassou foi acusado de dar dinheiro a servidores em troca da emissão de certificados, sem a devida fiscalização, para a venda e exportação de produtos. Além disso, o ex-presidente da Big Frango (JBS), o executivo Roberto Mulbert, aparece perguntando a uma servidora sobre a possibilidade de prorrogar a data de validade de embalagens.

Inicialmente, 33 servidores do Ministério da Agricultura foram afastados e 3 frigoríficos foram fechados – sendo dois da Peccin Agro Industrial e um da BRF (Perdigão e Sadia).

O frigorífico da BRF foi fechado por suposta exportação de carne contaminada. Segundo a acusação, a empresa que controla as marcas Sadia e Perdigão pagou fiscais agropecuários para evitar o fechamento da unidade, que processa aves para a marca Perdigão em Mineiros (GO), onde havia incidência de salmonella. A BRF também é acusada de reembalar produtos inadequados para a venda com nova data de validade.

Outros 21 estabelecimentos estão sob suspeita após a operação de sexta-feira (17).

No escândalo revelado pela Operação Carne Fraca, também estavam envolvidos o ex-superintendente do Ministério da Pesca e da Agricultura no Paraná, o superintende de Goiás e um alto funcionário em Minas Gerais. Ambos foram afastados do cargo.

As investigações começaram após relato do fiscal agropecuário, Daniel Gouvêa Teixeira.

As denúncias divulgadas

Parte das informações da investigação provém do relatório de 300 páginas da Polícia Federal sobre indícios de corrupção entre empresas e servidores do Ministério da Agricultura.

Mas a maioria das notícias da imprensa sobre a adulteração de carnes revelada pela Operação Carne Fraca da Polícia Federal, na última sexta-feira (17), provém de uma entrevista coletiva concedida na sexta-feira (17) pelo delegado da PF, Maurício Moscardi Grillo.

O delegado falou sobre a adulteração de carnes e o interesse das empresas no esquema.

“São dois anos de análise de fatos, desde utilização de papelão por essas empresas – até essas que já citei de grande porte (JBS e BRF) – para colocar esse tipo de situação em comidas, pra fazer enlatados, e outras coisas que podem prejudicar a saúde humana. (…) Tudo isso mostra que o que interessa para esse grupo é o capitalismo, é o mercado, independente da saúde pública”, disse.

Moscardi disse que estas irregularidades foram encontradas principalmente em frigoríficos menores da Região Sul, mas também em outras localidades.

Ele disse ainda que os problemas iam desde mudar a data de vencimento e embalagem de carnes estragadas, que eram usados para embutidos, até injetar água em frangos para alterar seu peso.

A imprensa reproduziu as informações e o caso dominou a opinião pública no final de semana. Na sexta-feira (17), milhares de tuítes levaram as empresas JBS e BRF (Friboi e Seara, além de Perdigão e Sadia, respectivamente) aos Assuntos Mais Falados do Twitter.

As ações destas empresas na Bolsa de Valores também caiu na sexta-feira e voltaram a cair nesta segunda-feira (20) com a abertura da Bolsa.

Questionamentos à investigação

Após as denúncias, especialistas e o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, criticaram a forma que a Polícia Federal fez as denúncias.

Em entrevista coletiva feita no domingo (19), Maggi disse que houve “fantasias” na narrativa da PF e que é uma idiotice pensar que os produtores colocariam papelão em produtos, pois “as empresas gastaram milhões de dólares para conquistar mercados” e não misturariam papelão.

“Em função da narrativa é que se criou grande parte dos problemas que temos hoje”, afirmou.

O ministro disse que o Ministério da Agricultura não foi consultado pelos policiais e declarou que os técnicos poderiam ter esclarecido pontos que foram considerados irregulares, mas que são práticas permitidas do setor.

A PF argumenta que a pasta não foi chamado para as investigações, pois a operação visava investigar apenas pessoas do Ministério.

Em paralelo, o ministro ressaltou na entrevista que as investigações irão tomar outro rumo a partir de agora, pois a pasta irá ajudar a PF com informações técnicas do setor de carnes.

“O ministério estará com seus técnicos explicando tecnicamente para os agentes da Polícia Federal o que é certo e o que é errado, na visão dos nossos regulamentos.”

Após a entrevista, o ministro disse que não ficaria “batendo boca” com a PF via imprensa.

Em entrevista à BBC Brasil, o médico veterinário e especialista em carnes, Pedro Eduardo de Felício, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, disse que forma que a PF divulgou as informações gerou desconfiança “exagerada”.

“A polícia agiu mal com a maneira como divulgaram tudo. Acho que houve certo exagero, para precipitar a loucura que foi na imprensa ontem”, disse Felício.

Três acusações questionadas

Três denúncias divulgadas pela investigação foram questionadas por especialistas.

A primeira fala sobre a suposta introdução de papelão em enlatados (embutidos).

Tanto Pedro Eduardo de Felício quanto a BRF rebateram a acusação da Polícia Federal sobre a introdução de papelão em embutidos.

A acusação supostamente provém de uma gravação divulgada pela PF em que um funcionário da empresa conversa com o gerente de produção da BRF.

Funcionário: o problema é colocar papelão lá dentro do cms também né. Tem mais essa ainda. Eu vou ver se eu consigo colocar em papelão. Agora se eu não consegui em papelão, daí infelizmente eu vou ter que condenar.

Luiz Fossati (gerente de produção da BRF): ai tu pesa tudo que nós vamos dar perda. Não vamos pagar rendimentos isso.

Em entrevista a BBC Brasil, Pedro Felício disse que a referência ao papelão não foi feita como ingrediente para o processamento da carne.

“Acho muito difícil isso ter acontecido. O que acontece é que tem áreas dentro das indústrias que são chamadas de áreas limpas, onde não podem entrar embalagens secundárias, como caixas de papelão”, diz.

“Na gravação que ouvi, duas pessoas falavam em entrar com uma embalagem de papelão na área limpa. Evitar papelão nessas áreas faz parte das boas práticas de manufatura, mas não fazer isso não é o mesmo que usar papelão dentro da salsicha”, afirma.

A empresa se defende usando argumento próximo ao levantado por Pedro.

“Não há papelão algum nos produtos da BRF. Houve um grande mal entendido na interpretação do áudio capturado pela Polícia Federal. O funcionário estava se referindo às embalagens do produto e não ao seu conteúdo. Quando ele diz “dentro do CMS”, está se referindo à área onde o CMS é armazenado. Isso fica ainda mais claro quando ele diz que vai ver se consegue “colocar em papelão“, ou seja, embalar o produto em papelão, pois esse produto é normalmente embalado em plástico. Na frase seguinte, ele deixa claro que, caso não obtenha a aprovação para a mudança de embalagem, terá de condenar o produto, ou seja, descartá-lo.

A despeito desta situação, há uma denúncia no site Reclame Aqui – especializado em queixas de consumidores – de 2015, que fala sobre tiras de papelão compradas junto com carne moída da Friboi. A JBS não foi acusada de introduzir papelão em seus produtos.

A segunda denúncia questionada provém de fala do delegado, que ressaltou na entrevista coletiva que empresas – não identificadas, por ora – usaram Ácido Ascórbico em excesso para melhorar o aspecto de carnes.

A partir desta declaração, muitas pessoas começaram a afirmar que esta substância é cancerígena.

O ácido pode contribuir com distúrbios gastrointestinais, cálculos renais e outros problemas de saúde se for consumida em excesso. Mas não há evidências de que gere câncer.

Além disso, a substância é usada regularmente em embutidos – não em carnes vermelhas, usadas inclusive de matéria-prima em produtos embutidos.

“O uso dele tem benefícios e não é para mascarar carne adulterada. Ele tem uma função nas carnes processadas como antioxidante, ajuda a melhorar a estabilidade do sabor e reduzir o teor de nitrito residual. O nitrito é um aditivo para realizar a cura, que é uma etapa importante no processamento da maior parte dos produtos processados. Todo ingrediente não cárneo tem função a cumprir no processamento de alimentos”, afirmouà BBC Brasil, Carmen Castillo, da ESALQ – USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

Independente disto, o Ácido Ascórbico não é usado em carnes vermelhas, usadas de matéria-prima.

A última denúncia questionada trata sobre salsichas de peru preenchidas com proteína de soja, fécula de mandioca e carne de frango.

“Muitas vezes verificou-se a falta de proteína, por exemplo, numa merenda escolar, trocada por fécula de mandioca ou então a proteína da soja, que é muito mais barata do que a carne, então substituía. Muitas vezes até tinha a quantidade de proteína suficiente, mas não era a proteína da carne, era proteína de outro alimento, que não traz as mesmas substâncias pro corpo humano como a carne”, afirmou o delegado Moscardi.

O uso de fécula de mandioca é legal para embutidos como salsichas. Mas é preciso determinar as quantidades determinadas por lei para evitar produtos dominados por matérias-primas alheias à carne.

Denúncias não questionadas

Segundo a investigação, frangos da BRF, a maior exportadora do produto no mundo, teriam “absorção de água superior ao índice permitido”.

A lei no Brasil determina que o frango não pode ter mais de 8% de água. Entrevistado pela BBC Brasil, Felício afirma que a introdução de água em frangos é “um problemão” que o Brasil “vive e luta contra há muito tempo”.

Ele considera “uma luta difícil” e afirma que “existe um esforço para combater”, inclusive do Ministério Público.

O suposto uso de cabeças de porcos ou de boi em linguiças aparece em uma ligação entre sócios do frigorífico Peccin.

A introdução destas cabeças em linguiças é proibida no Brasil, apesar de admitida em outros lugares do mundo e usada em embutidos cozidos, como mortadelas.

Usadas em linguiças, as cabeças de porcos ou de bois geram uma qualidade pior do produto, mas ainda são comestíveis.

Preocupação do consumidor

Na entrevista coletiva de sexta-feira (17), o delegado Moscardi foi questionado se “quase nenhum produto do mercado” estaria “100% livre de possíveis fraudes”.

“É possível que a gente tenha consumido alimentos de baixa qualidade, no mínimo, com qualidade inferior do que deveria ser fornecido”, respondeu o delegado.

“Hoje é realmente complicado. Tenho ido ao mercado e passeio um bom tempo até escolher um produto, mudou esse aspecto na minha vida. É difícil porque a confiança que a gente tem nas empresas, pelo menos da minha parte, mudou muito. São empresas que a gente considerava corretas, então assusta. Obviamente deve ter empresas sérias, corretas, mas na investigação foi assim, foi aparecendo uma, depois outra. Acho que a gente pode dizer que todas as empresas que a gente teve o azar ou a sorte de investigar tiveram problemas sérios. Foram quase 40, afirma Moscardi.

Ainda em entrevista a BBC Brasil, Pedro Eduardo Felício afirmou que os consumidores devem conferir os certificados de origem e inspeção dos estabelecimentos mesmo após as acusações de corrupção de inspetores federais.

“Os erros que foram cometidos devem ser comprovados e punidos, com certeza. Mas eu não acredito que essas acusações possam ser generalizadas, acho que esse foi problema localizado e o governo terá que resolver”, diz.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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