A desconstrução de João Dória

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Por André Henrique

Movimentos destrambelhados são sintomas de comunicação errática e mostram que apenas marketing não segura popularidade de um líder e de um governo

Imaginar que marketing resolve tudo em política é simplificação grosseira. O marketing é um dos aspectos da política. A espuma. A superfície de um oceano profundo e complexo.

A política muda de acordo com os ventos das circunstâncias. Em tempos de crise, como no Brasil, as mudanças são mais aceleradas. O que é fato hoje pode virar mingau horas ou dias depois. Lula e o PT foram dados como mortos em 2016 e Aécio Neves era o principal líder da oposição. E aí?

Impressionados com o desempenho de João Dória nas urnas e com seus jogos de cena no governo, supostos consultores de comunicação passaram a vendê-lo, para os demais políticos, como exemplo de gestor e marqueteiro.

Agora os bajuladores, açodados e oportunistas, estão em silêncio, diante da desidratação de Dória. O erro dos supostos consultores foi levar em conta apenas a popularidade, fruto da lua de mel de um governo em início, e o barulho do marketing e da comunicação despolitizada do prefeito.

Se a política é produto das circunstâncias, analisarei as duas conjunturas, a da eleição do tucano e a atual, para entender as razões que levaram Dória do céu de brigadeiro às portas do inferno.

Voltemos a 2016. João Dória apresentou-se para o eleitorado como o empresário de sucesso que levaria a eficiência do setor privado para o setor público. A novidade. O homem que não precisaria da política para sobreviver. O “apolítico”.

Em tempos de crise econômica e de hemorragia em praça pública dos partidos e políticos tradicionais, tal discurso cai como luva para os ouvidos de milhares de brasileiros enojados com a corrupção “novelizada” pela mídia e irritados com a ineficiência dos serviços públicos. Este é um ponto.

O racha na centro-esquerda também favoreceu o peessedebista. As candidaturas Marta Suplicy e Luiza Erundina dividiram os votos à esquerda e reduziram as chances de Fernando Haddad ir para o segundo turno.

2016 foi o ano da maior crise da história do PT e o partido obteve o seu pior desempenho eleitoral dos últimos vinte anos, o tucano colheu os frutos dessa situação.

Eis os principais fatores que explicam a vitória do empresário; os truques de marketing são detalhes secundários, alguns importantes, outros, não.

A conjuntura propícia a um outsider antipetista levou Geraldo Alckmin a apostar em João Dória. Deu certo, a princípio. Mas a criatura cresceu e voltou-se contra o criador.

Embevecido com o suposto sucesso de seu marketing nas redes sociais, com os elogios dos capachos e com a crise do PSDB e do Brasil, Dória resolveu apostar em sua pré-candidatura à presidência da República.

Em sua aventura como pré-candidato ao Planalto, João Dória começou a viajar o Brasil e sua rede de inimigos fatalmente cresceu. O marqueteiro tornou-se alvo das esquerdas, dos inimigos internos no PSDB, dos satélites (ONGS, movimentos sociais, imprensa) de ambos e da extrema-direita.

Em vídeo, o tucano Alberto Goldman acusou Dória de favorecer empresas nas licitações municipais e de abandonar a prefeitura para fazer campanha à presidência da República.

O prefeito deu uma resposta agressiva e preconceituosa, fugindo dos questionamentos políticos de Goldman, e zombando de sua idade. Resultado: Dória perdeu credibilidade dentro e fora do PSDB.

São Paulo é uma cidade difícil de governar. Os últimos prefeitos murcharam em popularidade depois que deixaram a prefeitura. Ou por suas gestões ou pelo fracasso de seus indicados. Caso Maluf, com Pitta. Serra, com Kassab.

A cidade, mais cedo ou mais tarde, cobraria por resultados, não se contentaria com os jogos de cena do prefeito. Não basta vestir-se de gari e postar no facebook. Os serviços públicos precisam funcionar minimamente. O mundo real vai muito além das teclas e das curtidas.

Alvejado por ataques inimigos e questionado pela ausência de resultados de suas políticas frente à prefeitura, a popularidade de João Dória caiu quase dez pontos, segundo o Datafolha.

A “farinata” do prefeito, que seria distribuída como merenda nas escolas públicas, virou, na boca da imprensa e do povão, ração humana. Venceu a narrativa dos opositores. O marqueteiro saiu mal na foto. O jogo virou.

Agora o prefeito, ou prefake (como dizem por aí) se agarra nas calças do MBL (Movimento Brasil Livre), para manter-se vivo politicamente.

A mídia e o mercado já cuspiram Dória com caroço e tudo. Luciano Huck surge como alternativa no DEM. Geraldo Alckmin corre contra o tempo para aglutinar as forças políticas e econômicas liberais e de centro–esquerda em torno de seu nome.

O movimento “liberal” e “apartidário”, MBL, pretende reunir forças mui “liberais” e “progressistas”, como as igrejas neopencostais e os ruralistas, para darem uma força para o João, mas o tucano ficou para trás na fila do PSDB, do DEM, do mercado e da mídia.

João Dória é um clássico caso de erro estratégico e de timing.

O super marqueteiro coloca a sua carreira política em risco ao dar um salto maior que a perna e se arriscar pré-candidato à presidência da República logo em seu primeiro ano como prefeito.

O super marqueteiro não percebeu que o vídeo de Goldman era uma armadilha das velhas raposas do PSDB e deu uma resposta impensada e destrambelhada. Um grande líder tem de ter faro, para perceber as arapucas; e equilíbrio, para racionalizar seus contra-ataques e recuos. Não basta ser marqueteiro.

O super marqueteiro não percebe que, se sair do PSDB, para ser candidato à presidência por outro partido, terá de responder por quíntupla traição; ao partido, ao padrinho, à prefeitura, ao paulistano e a seu discurso de novo; pois, nada mais velho que usar a prefeitura de SP como trampolim e cometer infidelidade partidária e política em cascata.

Não, não basta ser marqueteiro. Um marketing despolitizado constrói um balão de gás, não um líder consistente. Basta um espinho, e boom. Talvez Dória tenha acelerado demais, mas ele ainda não explodiu. Outra possibilidade para o prefeito, caso o projeto presidencial afunde, seria o Palácio dos Bandeirantes, como compensação; mas terá de combinar com José Serra, o PSB e demais “alckmistas” que estão na fila.

Enfim, são muitos espinhos no caminho de João Dória. Resta saber se ele terá virtu para perceber os riscos, e conteúdo, para ir além dos xingamentos e dos truques visuais (que têm prazo de validade).  Política exige um olhar para além da espuma.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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