Duas semanas após o crime, polícia mantém sigilo sobre caso de Marielle

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Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram investigação imparcial e rápida do caso e disseram que o crime é “profundamente alarmante”, feito com “o objetivo de intimidar todos aqueles que lutam por direitos humanos e pelo Estado de direito no Brasil”.

Por Rafael Bruza * com informações da Agência Brasil

A vereadora do PSOL assassinada e policiais civis investigando o caso / Fotos – Reprodução

Na última semana, a polícia do Rio de Janeiro tratou com sigilo a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Nenhum delegado se pronunciou abertamente sobre o caso, que ocorreu na quarta-feira (14), com características de execução premeditada, e a imprensa não foi informada sobre quantas linhas de investigação estão em marcha.

Dias após o ocorrido, o comando da Divisão de Homicídios divulgou imagens de câmeras de segurança que mostram os assassinos aguardando a vereadora no carro.

Eles chegaram a usar um celular antes de realizar o assassinato. Dois carros participaram da perseguição assim que Marielle saiu de um prédio na Lapa, onde participava de um evento de mulheres negras.

Um dos veículos supostamente usados no assassinato foi apreendido em Minas Gerais pela Polícia Civil do Estado. A polícia ouviu o dono do veículo e descartou seu envolvimento no crime, mas ainda considera a possibilidade de o carro ter sido usado no assassinato de Marielle.

Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil mineira, “tudo leva a crer” que o veículo foi usado no crime, mas a confirmação depende da realização de uma perícia realizada por policiais civis do Rio de Janeiro, que ainda não teve resultados divulgados.

A vereadora foi atingida por quatro tiros na cabeça e o motorista Anderson Gomes por três tiros nas costas. Uma assessora que estava no carro sofreu ferimentos leves.

O crime ocorreu no trecho de uma rua do Centro do Rio onde não há câmeras – as imagens que mostram a emboscada foram gravadas desde uma câmera distante do local exato do crime.

Nesta segunda-feira (26), segundo o portal G1 (Grupo Globo), a polícia ouviu mais três pessoas ligadas ao gabinete da vereadora.

Confusão sobre cápsulas de munição

Na semana após o crime, imprensa noticiou que o crime teve participação de mais de um veículo e que a munição usada pela polícia provém de um lote comprado pela Polícia Federal em 2006.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, chegou a declarar que este lote havia sido roubado na sede dos Correios na Paraíba. Mas a informação foi contestada pelos Correios.

Após a contradição, o Ministério da Segurança Pública udou a versão e disse que cápsulas de munição do mesmo lote usado no assassinato da vereadora e do motorista foram encontradas em uma agência dos Correios da Paraíba após um assalto.

A nota divulgada naquela semana, informa que houve um arrombamento na agência dos Correios de Serra Branca, na Paraíba, em 24 de julho de 2017 e que, ali, foram encontradas cápsulas do mesmo lote.

“O arrombamento foi seguido de explosão do cofre de onde foram subtraídos objetos e valores. Na cena do crime a PF encontrou cápsulas de munições diversas, dentre elas do lote ora investigado”, informa o texto.

ONU

Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) ligados a questões de direitos humanos e de gênero divulgaram na segunda-feira (26) comunicado no qual consideram o caso “profundamente alarmante”.

Os especialistas integram os Procedimentos Especiais do Conselho dos Direitos Humanos, o maior órgão de especialistas independentes no Sistema de Direitos Humanos da ONU, como são conhecidos os mecanismos independentes de monitoramento de direitos humanos do Conselho.

“O assassinato de Marielle é alarmante, já que ele tem o objetivo de intimidar todos aqueles que lutam por direitos humanos e pelo Estado de direito no Brasil”, apontaram no comunicado conjunto.

Os especialistas da ONU pedem investigação rápida e imparcial dos assassinatos, alertando que a execução de Marielle é um sintoma assustador dos atuais níveis de violência no país.

“Marielle foi uma extraordinária defensora de direitos humanos. Ela defendeu os direitos dos negros, das populações LGBTI, das mulheres e dos jovens das favelas mais pobres do Rio. Marielle será lembrada como um símbolo de resistência para comunidades marginalizadas historicamente no Brasil”, diz o comunicado.

Eles também lembram que Marielle criticou o uso da força militar no Rio de Janeiro e a intervenção federal na segurança pública do estado.

Pedem ainda às autoridades brasileiras mais proteção de defensores de direitos humanos do país.

“Pedimos às autoridades brasileiras que usem este momento trágico para revisar suas escolhas em promoção de segurança pública e, em particular, para intensificar substancialmente a proteção de defensores de direitos humanos no país”.

s especialistas da ONU lembram que como vereadora, Marielle integrava a comissão que acompanha a intervenção no Rio de Janeiro e que poucos dias antes de sua morte denunciou o uso da força pela Polícia Militar na Favela de Acari, na zona norte da cidade.

Eles destacaram ainda que, neste fim de semana, oito pessoas morreram durante uma operação policial na Rocinha, na zona sul do Rio, e ressaltaram que a segurança pública nunca deve ser feita às custas de direitos humanos. “Respostas repressivas que miram e marginalizam pessoas pobres e negras são inaceitáveis e contraprodutivas”.

O comunicado é assinado pelas relatoras especial sobre Violência Contra Mulher, Suas Causas e Consequências, Dubravka Šimonovi ; especial sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias, Agnes Callamard; especial sobre Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância, E. Tendayi Achiume; pelo presidente do Grupo de Trabalho dos Especialistas em Pessoas de Origem Africana, Michal Balcerzak; pelo especialista independente em Proteção contra Violência e Discriminação Baseada em Orientação Sexual e Identidade de Gênero, Victor Madrigal-Borloz; pela presidente do Grupo de Trabalho sobre Temas Relacionados à Discriminação, Legal ou Prática, Contra a Mulher, Alda Facio.

Segundo a ONU, os titulares de mandato dos Procedimentos Especiais “são especialistas independentes em direitos humanos nomeados pelo Conselho para abordar situações específicas de países ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Os especialistas não são funcionários da ONU e são independentes de qualquer governo ou organização. Eles servem em sua capacidade individual e não recebem um salário por seu trabalho”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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