“É preciso saber quem matou e mandou matar Marielle”, diz presidenta do PSOL-Campinas

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Por André Henrique 

Se os deputados federais de Campinas, no último período, tivessem compromisso com os trabalhadores, teriam votado contra o golpe, pela investigação do Temer na Câmara, contra a PEC 95 (que restringe os gastos sociais por vinte anos), contra a reforma trabalhista, porque essas legislações prejudicaram os trabalhadores e as trabalhadoras”, salientou Marcela Moreira.

Na quinta-feira (12), a presidenta do PSOL de Campinas, Marcela Moreira, concedeu entrevista aos portais Rede Popular e Independente.

Ao comentar sobre o PSOL nas eleições de 2018, Marcela avalia que, apesar do avanço dos discursos de ódio do conservadorismo, vê boas perspectivas eleitorais para seu partido. De acordo com a avaliação da líder do PSOL, o eleitorado reconhecerá que seu partido fez oposição de esquerda ao PT e se colocou contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

“Estamos animados com a votação do PSOL, até pela posição do partido nos 13 anos de governo do PT, com oposição de esquerda, mas colocando-se contra o impeachment por entende-lo como golpe, por ser um processo de intensificação de retirada dos direitos dos trabalhadores, e por isso entendemos que a população reconhece isso e continuará apoiando a participação do PSOL no Congresso”, avaliou Marcela.

Legislação eleitoral

Marcela Moreira demonstra preocupação com as mudanças na legislação eleitoral. Até a reforma política aprovada na primeira semana de outubro de 2017, todos os partidos recebiam uma fatia do fundo partidário, usado para manter a estrutura das legendas. O tempo de propaganda em rádio e TV era calculado de acordo com a bancada na Câmara, com a reforma passa a valer um desempenho eleitoral mínimo para que os partidos tenham direito ao tempo de propaganda e ao fundo partidário. Os partidos devem atingir pelo uma de duas das seguintes exigências:

Na eleição de 2018, os partidos terão de alcançar, no mínimo, 1,5% do total de votos válidos distribuídos em 09 estados ou mais. Em cada um desses estados, a legenda terá de ter, no mínimo, 01% dos votos válidos. Ou eleger 09 deputados distribuídos em, no mínimo, 09 estados.

Tais exigências vão aumentar gradativamente até 2030.

Aparentemente, as medidas visam reduzir o número de partidos e inibir o surgimento de “legendas de aluguel” criadas por grupos com o interesse de acessar o fundo partidário, barganhar cargos e vender seus tempos de TV em período de campanhas eleitorais. Entretanto, partidos pequenos e programáticos como o PSOL, a Rede, o Novo e o PV podem ficar sem atividade parlamentar.

Se essas regras vigorassem em 2014, partidos marcadamente ideológicos e de esquerda, como o PCdoB, que teve 1,98% dos votos válidos, e o PSOL, 1,80%, teriam ficado de fora do Congresso Nacional. O deputado federal do PSOL-SP Ivan Valente considera a PEC antidemocrática e uma ofensiva conservadora contra a esquerda.

“Uma coisa é fiscalizar e impedir a proliferação de partidos de aluguel, sem qualquer ideologia, outra coisa bem diferente é impedir a existência de partidos ideológicos e legitimamente constituídos e organizados no seio da sociedade”, ressalta.

“Na prática, essa legislação nos colocará na ilegalidade, por isso a importância de eleger uma boa bancada, até porque as bancadas do PSOL têm uma atuação muito combativa no Congresso”, reforçou Marcela.

Guilherme Boulos

Nas eleições de 2018 o candidato do PSOL à presidência da República será Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Guilherme Boulos anunciou a sua pré-candidatura à Presidência da República em março deste ano em São Paulo durante a Conferência Cidadã do movimento “Vamos”! (para assistir clique aqui)– formado por artistas, professores e intelectuais, além de movimentos indígenas, estudantis, negros e LGBT.

Para Marcela Moreira, a candidatura de Boulos com Sônia Guajajara vice é muito importante no campo do simbólico, porque, um representante dos sem-teto e uma indígena, nas relações de desigualdades, estão na base da pirâmide da exploração e dos ataques aos direitos.

“Estamos muito contentes com a vinda do Guilherme e com a candidatura da Sônia, e que a população reconheça o Guilherme e PSOL como alternativas na próxima eleição”, disse a presidenta do PSOL.

Renovação política em Campinas

Ao comentar sobre a baixa renovação política na cidade de Campinas, Marcela Moreira avalia que isso acontece porque a política no Brasil é dominada pela lógica do dinheiro. Ela destaca que acontece renovação sem renovação porque se elegem os filhos, irmãos e netos dos donos do poder, sendo mantida a política coronelista.

Marcela defende que é preciso eleger congressistas comprometidos com os trabalhadores e fez críticas aos deputados federais de Campinas “no último período, se os deputados federais de Campinas tivessem compromisso com os trabalhadores, teriam votado contra o golpe, pela investigação do Temer na Câmara, contra a PEC 95 (que restringe os gastos sociais por vinte anos), contra a reforma trabalhista, porque todas essas legislações prejudicaram muito os trabalhadores e as trabalhadoras”, disparou.

Feminismo

Socióloga e feminista militante, a presidenta do PSOL de Campinas fez a defesa do feminismo como uma luta por igualdade de direitos entre homens e mulheres, “existe uma concepção negativa divulgada sobre a questão do feminismo”, disse ela. E completou: “o feminismo nada mais é do que querer que exista igualmente de direito entre homens e mulheres. Nós lutamos para que as mulheres não sejam estupradas, que a gente não tenha medo de sair e sermos assediadas fora de casa, de não sermos assassinadas dentro de casa (porque a maioria dos feminicídios acontecem dentro de casa e são cometidos por maridos ou ex-maridos, companheiros ou ex-companheiros), lutamos para que mulheres e homens recebam salários iguais em trabalhos iguais”.

Para Marcela, o feminismo também é favorável aos homens, na medida em que o machismo impõe uma série de pressões sobre os homens levando-os a adoecerem, “a ideia é tentar sensibilizar as mulheres e mostrar que o feminismo é a favor das mulheres, inclusive a favor dos homens porque luta contra imposições de papeis sociais que acabam prejudicando também os homens. Queria só dar um exemplo: o alto número de ataques cardíacos que os homens têm, até por não conseguirem carregar o peso de cumprir o papel de ser o homem que não tem medo, que não vacila, que tem de ter emprego para sustentar a família etc”.

E ressalta: “o feminismo ajuda as mulheres e também os homens. Por isso eu acho inevitável o avanço das ideias de igualdade, do feminismo, de combate à LGBTfobia e de combate do racismo”.

Marielle Franco

No sábado (14), completaram-se quatro meses da morte de Marielle Franco, vereadora do PSOL pelo Rio de Janeiro e militante dos direitos humanos. Até o momento a polícia não descobriu a identidade dos assassinos. Marcela Moreira enfatizou que será difícil encontrar uma militante da qualidade e com a história da Marielle. A presidenta do PSOL de Campinas disse que é preciso continuar falando sobre o caso para não deixar que ele caia no esquecimento, para Marcela é preciso descobrir não apenas quem matou, mas quem mandou matar Marielle.

“Olha, na verdade, é muito duro a gente perder uma representante com a qualidade da Marielle. Por mais que a gente diga que outras Marielles virão, demorará muito tempo para que a gente consiga forjar uma militante com aquela qualidade, com aquele compromisso. A nossa luta é para exigir investigação, e que a gente descubra não só quem matou, mas quem mandou matar a Marielle” cobrou a líder do PSOL.

Não foi uma violência só física, mas extremamente simbólica contra as mulheres, porque se matou uma vereadora socialista, mulher, mãe, lésbica, da Maré, ou seja, é um ataque simbólico à participação das mulheres nos espaços de poder”, complementa a feminista.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) usou sua conta no twitter para desabafar, “os dias passam, a dor persiste e faltam respostas. Já são quadro meses sem você, Mari. Não tem sido fácil, mas estamos resistindo e pressionando para sabermos quem foi. Não descansaremos até que a verdade apareça. Saudades, te amo”.

A Anistia Internacional lançou uma petição cobrando das autoridades rigor e transparência nas investigações. Para assinar, clique aqui

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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