É tão difícil tolerar quem pensa diferente?

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Hostilizar quem pensa diferente de nós virou um infeliz costume da Era da Internet. Estamos mais conectados do que nunca, mas a maioria de nós ainda é incapaz de deixar a agressividade de lado para realizar a verdadeira conexão humana, que só acontece pela empatia.

Opinião – Rafael Bruza

A atriz Letícia Sabatella diante da delegacia em que registrou boletim de ocorrência pelas agressões morais e verbais que sofreu durante manifestação pró-Impeachment em Curitiba / Foto – Reprodução (Terra sem Males)
A atriz Letícia Sabatella diante da delegacia em que registrou boletim de ocorrência pelas agressões morais e verbais que sofreu durante manifestação pró-Impeachment em Curitiba / Foto – Reprodução (Terra sem Males)

Diferentemente da simpatia, que aproxima, e da antipatia, que afasta, a empatia é a virtude que faz o ser humano se colocar no lugar de outro, sentindo as dores, dificuldades e realidades que a outra pessoa sente, tanto boas quanto ruins.

É através dela que nos conectamos profundamente com alguém, a ponto de compreender essa pessoa de forma bastante completa.

E nessa ação, ganhamos compaixão, aceitação e compreensão, que são virtudes necessárias para qualquer harmonia em sociedade.

Mas faltou essa empatia dos manifestantes de Curitiba que hostilizaram a atriz Letícia Sabatella durante as manifestações políticas do domingo (31), por ela simplesmente ter mais identificação com o espectro político de esquerda do que com o de direita.

Ao invés de escolher essa bela virtude, os agressores ali presentes preferiram apostar pela antipatia e hostilizaram uma atriz que eles nem conheciam em pessoa.

Dessa forma, o convívio harmonioso em sociedade perdeu-se por livre e espontânea vontade dos manifestantes.

E o pior, meus caros, é que isso não foi um caso isolado.

Há tanta gente convivendo nas redes sociais, mas tão poucos dispostos a se posicionar no lugar do outro através da empatia, que sou obrigado a refazer a pergunta do título: é tão difícil tolerar quem pensa diferentemente?

Bom, considerando o panorama atual, é sim!

Nos identificamos com políticos, jornalistas e formadores de opinião que criticam rivais políticos por serem como são e pensar como pensam. Então, no fundo, apenas seguimos o exemplo deles através do comportamento de manada.

O problema é que, nessa lógica, criamos um mar de ódio que é simplesmente insuportável!

Uma pessoa de esquerda hostiliza outra de direita no Facebook, que fica com raiva e hostiliza outras duas de esquerda, que, claro, darão mais força ao fluxo de ódio virtual… Pronto. Formou-se um círculo vicioso de antipatia em que todos ficam indignados e feridos emocionalmente até que alguém decida por fim a essa rede de agressividade com um pouco de paz, se é que alguém está disposto a fazer isso.

Diante de tudo isso, peço que você seja essa pessoa disposta a fazer o bem por quem pensa diferente. E quero te ajudar a fazer isso falando sobre outro caso ocorrido aqui no Brasil recentemente.

Na quinta-feira (28), um médico de Serra Negra, no interior de São Paulo, divulgou uma imagem no Facebook ridicularizando um paciente de 42 anos que ao invés de dizer ‘pneumonia’, disse “peleumonia”.

O paciente, que é mecânico, estudou até o segundo ano do ensino fundamental e não sabia pronunciar algumas palavras. Mas, ao invés de sentir empatia pelo paciente e compreender o baixo grau de escolaridade daquele cidadão, o Dr. Guilherme Capel Pasqual preferiu humilhá-lo nessa rede social, diante de toda rede mundial de computadores.

Acontece que a ação do doutor se voltou contra ele, pois além de agressivos, há muitos internautas moralistas.

Pouco tempo após a divulgação da imagem, pessoas de todo Brasil entraram no perfil de Facebook do médico para hostiliza-lo com insultos e mensagens de raiva.

O doutor foi afastado junto com outras duas funcionárias. E o caso foi parar na mídia, onde cresceu ainda mais.

Dias depois, o médico pediu desculpas ao mecânico, com direito a uma foto de conciliação entre ambos que virou foto de perfil.

Mas para muita gente, ser afastado do emprego e agredido moral e verbalmente por milhares de pessoas foi pouco para o Dr. Guilherme Capel Pasqual.

Acham que ele deve sofrer mais.

comentarios medicoNesta segunda-feira (01), ainda tem gente publicando mensagens de raiva na página do médico, como se algo bom fosse acontecer com a hostilidade agora que o doutor já pediu desculpas e já sofreu represálias em seu emprego.

Isso, meus amigos, não faz o menor sentido. É ataque gratuito.

Algo tão inútil quanto contra-atacar os agressores de Leticia Sabatella com mais agressões.

O que quero dizer é que nos dois casos há gente disposta a atacar e poucos dispostos a compreender os demais (tanto quem ataca quanto quem é hostilizado).

E o caso é: se temos simpatia ou antipatia por uns e outros, podemos fazer um esforço para ter empatia e tolerância por todos, sem deixar de fazer críticas necessárias (com educação e bom tom, por favor).

É difícil, mas o caminho da harmonia geral é esse! Não há outro!!

No caso da atriz, a raiva mútua continuará, pois políticos e formadores de opinião de esquerda naturalmente destilam ódio contra a direita por ela ter atacado a atriz. E aqui forma-se novamente o círculo vicioso de antipatia de difícil solução que citei acima.

Mas no caso do médico, já há gente bem intencionada que viu como o doutor sofreu o suficiente para aprender com seu erro. E essas pessoas deixaram de criticar o doutor para protegê-lo de hostilidades.comentarios medicos 2

Percebem a diferença?

Compreender as situações, as pessoas, e atuar com bom senso é função de quem defende a harmonia geral.

Se somos contra a hostilidade a Letícia Sabatella, mas hostilizamos de forma excessiva todas as pessoas de direita pelo que aconteceu com a atriz, me desculpem, mas estamos atuando justamente com o ódio que dizemos combater.

E se queremos realmente criar harmonia e paz como defendemos, é nossa obrigação atuar com essa harmonia e paz para com os demais, independentemente de postura política ou do histórico de cada um.

Até porque o mundo só muda quando mudamos nosso interior.

E o resto é papo furado de quem ganha dinheiro com a hostilidade alheia.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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