‘Elites religiosas deturpam o Evangelho’, diz grupo de ativistas evangélicos

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O grupo Ativismo Protestante se identifica com ideias progressistas: afirma que a bancada evangélica afronta a laicidade do Estado e argumenta que seus políticos não representam os cidadãos protestantes do Brasil.

Por Rafael Bruza

Culto evangélico realizado em sala da Câmara dos Deputados em 2014 / Foto – Reprodução

Com 17 mil seguidores, a página Ativismo Protestante no Facebook tem a missão de “analisar, criticar e publicar assuntos relacionados às igrejas protestantes do Brasil, com uma visão política, social, cultural e histórica, sob um olhar progressista”. São cidadãos evangélicos de todo país que defendem ideologias políticas progressistas, naturalmente encaixadas em espectros políticos de esquerda, e que se opõem aos líderes religiosos “reacionários” do país.

“O Ativismo Protestante nasceu a partir da ruptura da ordem democrática do Estado de Direito, no caso o Brasil, para questionar as posições pró-impeachment de alguns líderes ligados às igrejas evangélicas, principalmente pentecostais e neopentecostais, e fazer oposição à Frente Parlamentar Evangélica, conhecida como Bancada Evangélica ou Bancada da Bíblia, a qual defende pautas totalmente conservadoras e afronta constantemente a laicidade do Estado, garantida pela Constituição Federal de 1988”, diz o manifesto do grupo.

Um dos líderes do grupo e administradores da página no Facebook, o engenheiro elétrico, Osmar Carvalho / Foto – Reprodução (Arquivo Pessoal)

O Independente conversou com o engenheiro elétrico, Osmar Carvalho, um dos administradores da página do Facebook, que defende ideias progressistas através do cristianismo.

“Nossas lideranças incutiram nas mentes dos incautos que ser de esquerda é do demônio, e ser de direita é de Deus. Ao mesmo tempo, evangélicos nos acusam de pregar o marxismo, o que para eles é ser anti-cristo. Nem Karl Marx é anti-cristo, nem nós somos religiosamente marxistas. Para ser socialista, não é preciso ler Marx, basta ler a Bíblia”, diz Osmar.

Assim como um cidadão evangélico entrevistado em agosto deste ano, o grupo Ativismo Protestante também entende que os evangélicos carecem de representatividade no momento.

“A Bancada Evangélica é majoritariamente de direita, e tem a pretensão de afirmar que fala pelos evangélicos, o que não é verdade, dada a multiplicidade de perfis desse segmento religioso, do qual fazemos parte”, diz Osmar, que acusa a bancada evangélica de “deturpar” o Evangelho.

“Creio que há uma deturpação do evangelho por parte das elites religiosas, dos líderes religiosos, que afasta os evangélicos das causas sociais. Essa deturpação passa pela demonização dos progressistas, cujas pautas são voltadas para questões sociais, de auxílio e defesa dos mais pobres. Além disso, as igrejas usam as causas sociais com outro intuito, o de angariar dinheiro.”, diz Osmar.

Confira a entrevista na íntegra com este representante do grupo Ativismo Protestante.

Independente – Quantas pessoas compõem o grupo do Ativismo Protestante e de onde vocês são?

Osmar Carvalho Em relação à quantidade, somos homens e mulheres, solteiros e casados, pais e filhos, pretos e brancos, de exatas e de humanas, trabalhadores e desempregados, do sudeste e do nordeste, de denominações diferentes, como Assembleia de Deus, Batista, Presbiteriana, desigrejados, etc.. A maioria não se conhece pessoalmente, pois firmamos contratos sócio-digitais de colaboração, com pessoas que se interessaram e se colocaram à disposição para colaborar. Nossas portas estão abertas para qualquer um que quiser colaborar. Temos umas cinco pessoas que colaboram assiduamente, com textos, nas redes sociais e nas discussões das pautas. E temos as pessoas que mandam artigos para publicarmos, mas de forma espontânea e não periódica.

Independente – Por que vocês se opõem à bancada evangélica?

Osmar Carvalho Primeiro, porque consideramos a política a principal ferramenta para o estabelecimento e para a manutenção da democracia. No nosso caso, a lógica religiosa é invertida, colocamos políticos como os mais nocivos. Não há como pensar o que é uma nação sem pensar seu sistema político. A política é quem determina o pensamento de um país, seja em seu âmbito econômico, social ou outro qualquer.

Segundo, porque a Bancada Evangélica é majoritariamente de direita, e tem a pretensão de afirmar que fala pelos evangélicos, o que não é verdade, dada a multiplicidade de perfis desse segmento religioso, do qual fazemos parte. Suas pautas também não são as pautas de todos, como o apoio à proibição do aborto, ao projeto Escola sem Partido e à redução da maioridade penal, veementemente defendidos por eles. Nós mesmo somos contra redução da maioridade e contra o Escola sem Partido. Essa postura reacionária da Bancada Evangélica acaba reverberando nas ruas, incitando a violência, o preconceito e a discriminação contra grupos de minorias já perseguidos; por exemplo a comunidade LGBT. Logo, essa “fé” opressora tem que ser confrontada, desqualificada e substituída por uma fé inclusiva e igualitária, para que o Estado contemple todos.

Por fim, tenho visto muitas barganhas por parte da bancada evangélica, como o apoio a Temer, para livrá-lo de denúncias de vários crimes, e suas reformas impopulares.

Independente – Alguém ou algum grupo representa os protestantes progressistas na política nacional?

Osmar Carvalho No momento não, infelizmente. Os políticos protestantes são eleitos por votos de igrejados, são submissos aos dogmas religiosos de suas igrejas, pois são representantes delas. Dificilmente um candidato evangélico se elegeria sem esse apoio das grandes igrejas evangélicas, principalmente das pentecostais e neopentecostais. Mesmo os que conseguem se eleger sem esse apoio precisam defender agendas conservadoras, pois ainda é o perfil da maioria desse segmento religioso.

Independente – Há semelhanças entre os valores cristãos e políticas de esquerda? Quais?

Osmar Carvalho Com certeza há, e muitas. O principal é o amor ao próximo. Acho que nós de esquerda sofremos mais que os de direita, justamente por isso, por sempre pensarmos no próximo, no coletivo. Esse espírito altruísta que move o cristão é o mesmo que move a esquerda, em âmbitos diferentes: social, político e religioso. Ou seja, do amor ao próximo deduzimos outras semelhanças entre cristianismo e esquerda política, como a luta por moradias para todos, por direito à terra distribuída de forma justa e igualitária (reforma agrária), e a inclusão de todos, sem preconceitos e racismos. Já temos aí alguns valores comuns: amar o próximo, ajudar os mais pobres, promover a igualdade e praticar a justiça.

Independente – Por que evangélicos costumam optar pelo conservadorismo elitista ao invés do auxílio aos mais pobres?

Osmar Carvalho Não creio que costumam optar por um conservadorismo elitista. Creio que há uma deturpação do evangelho por parte das elites religiosas, dos líderes religiosos, que afasta os evangélicos das causas sociais. Essa deturpação passa pela demonização dos progressistas, cujas pautas são voltadas para questões sociais, de auxílio e defesa dos mais pobres. Além disso, as igrejas usam as causas sociais com outro intuito, o de angariar dinheiro. As igrejas usam o social como pretexto para pedir ofertas de dinheiro, para justificar a o acúmulo de dinheiro e legitimar a necessidade de doação de dinheiro, já que Jesus não deixou isso na Bíblia, pelo menos não de forma bem clara e explícita.

Consequentemente, as igrejas assumem o social, enquanto os fiéis cuidam cada um da sua própria vida. Isso se parece com a lógica da política representativa, na qual elegemos pessoas para trabalharem por nós, gerir o país, fazendo a política, enquanto nos dedicamos as nossas vidas e nossas famílias, ocupados em nossos trabalhos. Mas essa lógica aplicada às igrejas aliena as pessoas, que acabam ficando indiferente aos problemas sociais. Tira a consciência social, tão exigida por Jesus.

Independente – Na sua concepção, como cristãos devem tratar homossexuais?

Osmar Carvalho Como seres livres. Para mim, essa é uma reflexão acerca da liberdade e da verdade. A visão da esquerda brasileira e europeia acerca da relação verdade-liberdade vem nessa ordem: a busca e o cuidado pela verdade devem prevalecer, para que se obtenha a liberdade. Essa visão filosófica vem do iluminismo, que tem a busca pela verdade endeusada, principalmente a busca da verdade por métodos científicos. A ciência era a deusa da verdade na idade moderna.

Para a esquerda americana, a relação é o contrário: o cuidado pela liberdade levaria à verdade. Essa visão filosófica é levada à política. Ou seja, para os americanos, quanto mais liberdade, mais a verdade aparecerá por si própria. Ao contrário da Europa, que cuida da liberdade, deve-se velar pela liberdade, e a verdade apareceria por seus próprios esforços.

A liberação do casamento gay nos EUA tirou muitos do armário e os levou às ruas. Estão por ai em toda parte agora, se beijando, se assumindo, enfim…apareceram!

A verdade é que sempre estiveram por ai, escondidos, reprimidos pela falta de liberdade: a liberação! Bastou a liberdade (liberação) vir e parece que se multiplicaram? Não! Sempre existiram, mas sob a visão europeia, ainda não eram uma verdade, não eram comprovados pela ciência. Logo, não tinham a liberdade de ser.

Defendo a liberdade como um caminho para que a verdade apareça. E parece estar funcionando isso. Não temos que temer as verdades que venham da liberdade plena, das liberações, sejam elas quais forem. O próprio Deus parece concordar com a filosofia de esquerda americana, pois ele mesmo deu liberdade total aos seres humanos, para fazerem de suas vidas o que bem entenderem.

Independente – Como fiéis cristãos conservadores veem uma página protestante que defende políticas de esquerda e como a comunicação pode ajudar a unir estes grupos aparentemente contrastantes?

Osmar Carvalho A maioria vê com muito ódio, pois para esse segmento conservador somos uma afronta aos dogmas religiosos estabelecidos. Claro que isso é fruto de ignorância, pois não temos a pretensão de extinguir os protestantes; pelo contrário, queremos que nossa fé e nossos valores sejam úteis à sociedade, de forma a melhorá-la para todos. Os meios de comunicação digitais podem ajudar muito a combater essa falta de compreensão das nossas pautas. Quando o Ativismo Protestante foi criado, em 13 de dezembro de 2016, não tinha a esperança de que houvesse mil protestantes progressistas; hoje a página no Facebook reúne milhares de pessoas, entre simpatizantes, curiosos e opositores. Estamos reunidos, de forma bastante conflitante, mas seguimos no diálogo e no debate. Acredito muito que podemos, e vamos, evoluir para além do fundamentalismo religioso e do ódio. Interessante é que e página é bem heterogênea, com evangélicos, católicos, umbandistas, ateus, etc. Temos recebidos bastante mensagens positivas e de incentivo a continuar com o trabalho, por parte de todos.

Independente – Como grupos de esquerda veem o Ativismo Protestante e o que pode ser feito para aproximar as ideologias progressistas (tradicionalmente ateias) com quem defende políticas de esquerda por conta de fatores religiosos?

Osmar Carvalho Ser evangélico progressista é ter que enfrentar o inferno duas vezes: de um lado, a certeza dos crentes de que somos um tipo de anticristo; do outro, o ceticismo da esquerda de que somos realmente progressistas. É ser quase um apátrida político-social. Por que então continuamos? É mais do que ideologia: é chamado! Sim, enfrentamos muita resistência, preconceito e desconfiança por parte da esquerda mais radical, que ainda insiste em negar e barrar a influência religiosa nas questões políticas e sociais. Talvez essas atitudes expliquem a perda de espaço do socialismo em lugares mais pobres e com os mais simples. Elitizaram demais a esquerda? Intelectualizaram demais o discurso? Abandoaram os agora prosélitos evangélicos, por serem “alienados político-sociais”? Natural, depois de tantos anos dominando o cenário político, alguma soberba haveria de nascer em alguns corações e mentes. Nesse sentido, a extrema esquerda tem se mostrado tão intolerante quanto a extrema direita. Porém, o caminho para reconquistar o espaço perdido pela esquerda nas periferias, principalmente para as igrejas neopentecostais e sua teologia da prosperidade, tem de passar necessariamente pelos evangélicos progressistas.

Independente – De que forma vocês, ativistas protestantes, agem ou pretendem agir em periferias?

Osmar Carvalho Agimos junto com os movimentos sociais, participando de manifestações e debates. O ruído das ruas não nos incomoda, ao contrário, nos instiga a exercer o nosso Cristianismo e Espiritualidade. Diferenciamo-nos de um evangélico tradicional justamente por isso, pois nos envolvemos nas causas das mulheres (aborto, igualdade de gênero, feminismo), da comunidade LGBT (homossexualidade, preconceito), dos negros (racismo, cotas), da polícia (violência, desmilitarização) etc, mas sem os estereótipos e sem os paradigmas religiosos opressores

Independente – Por que líderes protestantes conservadores costumam ter mais visibilidade do que evangélicos progressistas?

Osmar Carvalho Porque são apadrinhados pelas grandes igrejas, que ainda controlam e orientam a massa evangélica. Nossas lideranças incutiram nas mentes dos incautos que ser de esquerda é do demônio, e ser de direita é de Deus. Ao mesmo tempo, evangélicos nos acusam de pregar o marxismo, o que para eles é ser anti-cristo. Nem Karl Marx é anti-cristo, nem nós somos religiosamente marxistas. Para ser socialista, não é preciso ler Marx, basta ler a Bíblia.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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