Em entrevista, Dallagnol diz que Operação Lava a Jato chegará diferentes partidos

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O coordenador da operação no MP falou sobre investigações envolvendo o PSDB, PT e o futuro da Lava a Jato.

Por Rafael Bruza

Captura de um momento da entrevista

Em entrevista à Rádio BandNews concedida nesta sexta-feira (17), o procurador da República, Deltan Dallagnol, que coordena a força-tarefa da Operação Lava a Jato no Ministério Público Federal, afirmou que as investigações alcançaram mais políticos do PT, PMDB e PP porque  eram os partidos da base aliada do Governo. O procurador também sinalizou que as investigações atingirão mais partidos.

“O PSDB não fazia parte da base aliada do Governo Federal do PT, que governou entre 2003 e 2016. Quando se investigou a corrupção da Petrobras e se conseguiu expandir a investigação para outros órgãos públicos federais, naturalmente se alcançaram os partidos que compunham a base aliada porque os dirigentes dos órgãos, os diretores da Petrobras eram indicados pelo presidente da República, a partir dos partidos da base aliada. Existe um sistema chamado presidencialismo de coalizão, em que o presidente não governa sozinho. Precisa de partidos aliados que aprovem seus projetos no Congresso. E em todo governo, como ocorreu no Partido dos Trabalhadores, existe uma troca de apoio entre Presidência e Congresso. O que aconteceu foi que se promoveu uma base aliada e o presidente indicava pessoas dessa base aliada em troca de apoio político. Isso fazia parte da troca de interesses que existia em favor desse apoio ao presidente para aprovar reformas. Como o PSDB não fazia parte dessa base aliada, não foram indicadas pessoas do PSDB, por exemplo, como diretores da Petrobras. Não tem como achar, na Petrobras, um diretor do PSDB porque não existia diretor do PSDB entre 2003 e 2016. Essa foi a razão pela qual até recentemente não se tinha chegado ao PSDB”, afirma Dallagnol na entrevista.

O procurador logo afirma que as investigações tendem a chegar a outros partidos com a colaboração de empresas que fizeram contratos não só com o Governo Federal, mas também com governos estaduais.

“A medida em que grandes empresas que atuaram não só no Governo Federal, mas também nos governos estaduais, estão colaborando, as investigações são desmembradas por vários lugares e vão, sim, alcançar membros dos mais diversos partidos políticos. Agora, eu não posso determinar se essas investigações vão para Curitiba ou não porque isso compete ao Supremo Tribunal Federal. Ele está com tudo em suas mãos, todas as colaborações da Odebrecht e elevai desmembrar para diversos lugares da federação os crimes praticados em diversos lugares. Digamos que os crimes tenham sido praticados em Minas Gerais, por hipótese. Esses crimes vão ser objeto de decisão do STF, que pode manda-los a Minas Gerais ou pode mandar, se entender que eles têm ligação com os crimes apurados em Curitiba, para a força-tarefa do caso Lava a Jato em Curitba. O nosso compromisso foi e é e será fazer tudo que está a nosso alcance para responsabilizar todas as pessoas que praticaram crimes, na medida da sua culpabilidade”.

O procurador também questiona a tese de que o PT é o partido mais investigado da Operação Lava a Jato.

“O número de políticos processados perante o STF do Partido Progressista é bem maior do que do Partido dos Trabalhadores. E quando você olha o número de políticos processados do Partido dos Trabalhadores, é igual ao número de políticos processados do PMDB perante o STF. Isso mostra que esse pressuposto de que ‘se investigou mais o PT’ é falso. Existem mais políticos do PP processados criminalmente e depois você tem um número equivalente de políticos do PT e do PMDB. Agora, em razão de um discurso mais forte das pessoas do Partido dos Trabalhadores, de vitimização, de perseguição, e cabe lembrar  que político nunca é criminoso, jamaispratica crimes, político no Brasil é sempre perseguido, isso foi uma das minhas grandes descobertas ao longo desses três anos de caso. Então, como existe um discurso de perseguição de um partido político, as pessoas acabaram gerando este estigma, como se as pessoas do partido tivessem mais processados, mas isso não é uma realidade. A Lava a Jato tende a se expandir e a colaboração da Odebrecht vai contribuir muito nessa direção, vai expandir para vários outros partidos políticos e nosso compromisso é responsabilizar todo mundo que praticou crimes com base em provas e evidências que a gente recolheu ao longo da investigação”.

Dallagnol diz ironicamente que político nunca é “criminoso”, mas sim “perseguido”. Em outro momento, afirma que Lula não se tornou alvo da operação.

Há algumas versões editadas da entrevista à BandNews. O Brasil 247 – site alinhado com o Partido dos Trabalhadores – editou o trecho que fala sobre a chegada das investigações ao PSDB e noticiou: “Dallagnol diz que a Boechat que PSDB está fora da Lava a Jato”.

A Bandeirantes, a sua vez, publicou versões diferentes da entrevista. O vídeo em que o procurador fala sobre o PSDB está disponível “aqui”.

Esta é a entrevista divulgada no Youtube:

Outras questões

O procurador explicou a Operação Lava a Jato de forma resumida.

“Quando olhamos em perspectiva esse esquema de corrupção, nós temos, de um lado, empresários, de outro lado, os agentes públicos da Petrobras que foram corrompidos por aqueles empresários, nós temos, no meio, lavadores de dinheiro profissional, operadores que faziam o trânsito de da propina – fazendo que ela aparecesse limpa do outro lado, para operadores públicos – agora temos agentes únicos que unem todo esse esquema, que são os políticos porque são os que indicam os diretores da Petrobras. E eles recebiam a prerrogativa de indicar esses diretores em troca de apoio político no Planalto. Ou seja, o partido que governa o país dava prerrogativa para determinados partidos indicarem quem seriam os diretores da Petrobras para receberem apoio político para aprovarem leis no Congress e conseguir o que eles chamam de governabilidade no chamado presidencialismo de coalizão, onde vários partidos se unem para que o governo se torne possível”, explica.

“Agora isso criava um ambiente espúrio em que aqueles partidos indicavam as pessoas, não para que as pessoas tivessem uma ótima gestão, mas sim para que os diretores dos órgãos arrecadassem propina com dois objetivos: financiamento ilícito de campanha eleitorais e enriquecimento ilícito próprio. Dentro desse contexto, os políticos tem uma função extremamente relevante, o que nos traz uma reflexão sobre a necessidade de transformação do nosso sistema político. Ele é feito para não funcionar, feito gerando grandes oportunidades, incentivando mesmo a corrupção”.

Sobre o futuro da Operação Lava a Jato, Dallagnol disse que outras áreas da Petrobras ainda serão investigadas.

“Boechat, nós temos um mundo por avançar em nossa frente. Apenas na Petrobras, temos diversas áreas ainda não exploradas, como a área da telecomunicação e outras diretorias sobre as quais nós não avançamos ainda. Nós temos as ações sobre cartéis, ações sobre partidos políticos, ações sobre empresas estrangeiras, potenciais ações contra bancos que permitiram atos de lavagem de dinheiro e isso para falar apenas de Petrobras. Se for possível, nós avançaremos também para outras áreas porque esse esquema de indicação de cargos políticos para arrecadação de propina é esquema que não se restringe à Petrobras. Existem evidências de que ele aconteceu também fora de outros órgãos públicos”, afirma o procurador.

A jornalista Carla Bigatto cita “um levante dos advogados que defendem réus da Lava a jato com reclamações sobre procedimentos da Justiça Federal” e pede opinião do procurador sobre esta situação.

“Essas manifestações dos advogados levantando coisas genéricas sobre o caso Lava a Jato, sem especificar fatos, é uma grande reclamação caracteriza praticamente uma teoria da conspiração. É como se os cerca 40 policiais federais que atuam no caso, 12 procuradores da República de 1ª instância e os 10 procuradores da Repúblcia que atuam na Procuradoria-Geral da República, os juízes da 1ª instância e todos os magistrados, todos os tribunais que são concursados, não têm indicação política, não têm vinculação política partidária, estivessem mancomunados para prejudicar pessoas. Essa não é nossa função”, afirma Dallagnol.

Sobre o foro privilegiado, Dallagnol disse que o Supremo Tribunal Federal não tem perfil de investigador e afirmou que a ele “precisa dos ouvintes” para favorecer as 10 Medidas Anticorrupção.

“As investigações perante a Suprema Corte são mais difíceis porque ela não tem perfil de investigação. Enquanto a Suprema Corte americana julga 100 processos por ano, a nossa Suprema Corte julga 100 mil processos por ano. Ou seja, o processo tende a não andar mesmo. O que nós queremos de um futuro melhor, e até o Boechat perguntou quais são as perspectivas para esse ano, claro que nós temos várias perspectivas investigativas, mas no meu ponto de vista, o melhor que nós podemos avançar é aproveitar o da energia gerada por esse momento contra a corrupção para nos aprovarmos mudanças sistêmicas, para que a lei passe a vale para todos no Brasil, não apenas episodicamente, num caso concreto, mas em todos. Para isso, o MP ofereceu 10 Medidas contra a Corrupção para que ela se torne lei, verdade, e nós precisamos da colaboração de cada ouvinte”, afirma o procurador.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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