Em resposta a Roberto Requião, Romero Jucá reproduz besteirol de direita

0

Por André Henrique 

Romero Jucá reproduziu em escala industrial um monte de clichês de direita em seu vídeo-resposta para contrapor as ideias que o senador Roberto Requião elencou em seu vídeo de desagravo a Jucá.

Não cabe entrar em detalhes sobre quem está certo na querela partidária ou destrinchar sobre eventuais trocas de farpas abaixo da cintura, prefiro me concentrar no conteúdo qualificado do Requião em sua defesa de valores nacional-desenvolvimentistas como fundamentos de políticas econômicas e de um modelo de estado visando um país soberano e mais justo, com crescimento econômico e distribuição de renda.

Pode-se discordar de um ponto ou outro da fala de Requião, sendo do seu campo ideológico ou de outro, o que não dá para digerir é um senador com mais de seis décadas nas costas [Romero Jucá] responder com rótulos um comentário que fez referência histórica ao New Deal – política adotada por Franklin Delano Roosevelt para superar a grande depressão econômica nos EUA na década de 30 – e a fundamentos atuais de planejamento econômico adotados pela Alemanha.

Pode-se não gostar de Roberto Requião e não concordar ideologicamente com ele, mas deve-se reconhecer o seu conteúdo, típico de quem estuda e condiciona conceitos universais a realidades concretas, diferente de “intelectuais” de manual, com suas soluções fáceis, para problemas complexos, que os mesmos desconhecem, por falta de contato com o mundo real.

Muitos intelectuais de manual ganharam notoriedade nas redes sociais vendendo receitas fáceis para dilemas difíceis ou alimentando polarizações ideológicas dentro das quais não cabem as problemáticas complicadas do Brasil real. Parece que Romero Jucá os tem como referências, porque a penca de bobagens que ele repete em sua gravação pode ser encontrada em blogs, sites e rádios de extrema-direita.

É mais fácil pensar política por meio de jargões superficiais do que mergulhar na complexidade das questões, sobretudo para quem tem o cérebro baldio, preguiçoso e desonesto intelectualmente. Ao rotular as propostas de Requião como bolivarianas e ao dizer que elas “fracassaram na União Soviética”, Jucá simplifica uma discussão ampla sobre o Brasil e joga feno pra torcida. Nos comentários, a turba repete: “tirem esse petralha [Roberto Requião] do PMDB”.

Vale ressaltar que Jucá deu suporte no Congresso ao governo petista durante os 13 anos e nunca reclamou do suposto bolivarianismo do lulopetismo. Agora ele flerta com o pensamento neoliberal e com as torcidas de direita porque está em um governo serviçal de banqueiros e de oligarquias locais. Coisa de quem orienta às suas posições de acordo com a direção dos ventos do poder. Coisa de oportunista.

Romero Jucá não tem uma ideia de Brasil. Jucá tem um ideal de poder pessoal. Nada mais. O valente é governo desde a era dos dinossauros e representa no Congresso oligarquias locais sem compromisso com o meio-ambiente, com as populações indígenas e com os trabalhadores rurais. Jucá disse que Requião defende ideias atrasadas, mas ele é uma das principais representações do atraso na política brasileira.

O senador jogou fora uma chance de discutir o país. Cadê as premissas dele  sobre o tal projeto moderno para transformar o Brasil em uma república de fato onde a economia será um suporte para o estado promover bem estar coletivo, respeitando os direitos humanos, as minorias, os trabalhadores e o meio-ambiente? Vamos lá, Jucá, discorra. Vá além do toma lá da cá da fisiologia da qual você é um dos cardeais. Pense o Brasil, e não apenas o seu umbigo.

28 de abril – Requião reage à notícia de que Jucá trama a sua expulsão do PMDB. O senador elenca um conjunto de princípios que ele entende deveriam nortear o PMDB: ética na política e um projeto nacional-desenvolvimentista para o Brasil, em defesa da soberania nacional, do capital produtivo, dos trabalhadores e do meio-ambiente. 

30 de abril – Romero Jucá retruca o conteúdo de Requião com rotulações e adjetivações, sem apresentar uma ideia de partido e outra de Brasil. 

 

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

Comente no Facebook