Entenda o caso de extorsão de um hacker a Marcela Temer

1

A chantagem feita na época do afastamento de Dilma Rousseff e a repercussão posterior do caso.

Reportagem – Por Rafael Bruza

Silvonei José de Jesus Souza é um telhadista que ganhava pouco mais de R$ 4 mil por mês até ser preso em maio de 2016, época do afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República. Cerca de 40 policiais cercaram sua casa na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, e o prenderam por tentar extorquir Marcela Temer, esposa de Michel Temer (PMDB), na posse de supostas fotos da primeira-dama em lingerie e uma mensagem de voz que supostamente comprometia o presidente do Brasil.

Entenda o caso:

O disco rígido da Santa Ifigênia

Segundo os autos do processo, tudo começou em 2008, quando Souza comprou um disco rígido – o Hard Disk, HD, que é uma memória de computador – de um vendedor ambulante nas ruas Santa Ifigênia, zona central de São Paulo, por cerca de R$ 250.

O dispositivo de armazenamento continha informações ilegais do banco de dados da operadora de Internet de Marcela Temer, que não foi identificada. Os dados mostravam e-mail, endereço, CPF, número de telefone e número de contrato dos clientes com a empresa.

O HD também continha informações de cadastro da Receita Federal, mas não foram relelados detalhes sobre como estes dados foram obtidos por quem vendeu o HD a Silvonei José de Jesus Souza.

O hacker disse que obteve as informações privadas da primeira-dama pesquisando pelo nome de Marcela Temer no banco de dados do HD que comprou.

Logo usou o e-mail de Marcela Temer para obter sua senha do iCloud, que é um sistema de armazenamento em nuvem da Apple disponível a todo usuário de produtos da empresa,  fez backup (recuperação de dados e arquivos) usando seu próprio Iphone e obteve acesso a arquivos privados.

Chantagem e crime

Segundo os autos do processo, o primeiro passo de Souza foi conversar com Karlo Tadeschi, irmão de Marcela Temer, através de um perfil de Whatsapp idêntico ao da primeira-dama.

O perfil usado pelo telhadista-hacker seria clonado ou roubado: não há informações sobre como o Souza fingiu ser Marcela Temer durante a conversa com Karlo.

O fato é que no dia 4 de abril de 2016, pouco antes da primeira votação do Impeachment na Câmara dos Deputados, Souza se passou por Marcela Temer para pedir dinheiro a Karlo Tadeschi.

Disse que precisava comprar tintas e contratar mão de obra.

Mesmo estranhando a mensagem e afirmando que não dispunha de todo montante pedido, Karlo fez o depósito de R$ 15 mil na conta indicada na mensagem e só descobriu o golpe que sofrera após dois dias, quando conversou com a irmã e soube da clonagem do telefone.

Em entrevista ao Diário Centro do Mundo, o advogado de Souza fala sobre a extorsão.

“Ele se fez passar por Marcela e pediu dinheiro emprestado ao irmão para fechar um negócio. Ele disse que não tinha todo o dinheiro, mas poderia transferir R$ 15 mil. O hacker, fazendo-se passar por Marcela, aceitou e o irmão fez a transferência”, conta o advogado.

No dia 5 de abril, o hacker entrou em contato direto com Marcela Temer para pedir R$ 300 mil em troca da não divulgação de fotos em lingerie e de um áudio supostamente comprometedor, encontrado entre as mensagens de Whatsapp da primeira-dama.

Informações divulgadas nesta segunda-feira (13) na imprensa mostram um trecho da conversa entre Silvonei José de Jesus Souza e Marcela Temer em que o hacker ameaça vender o material à imprensa.

“Pois bem, como achei que esse vídeo joga o nome de vosso marido na lama (…) Quando você disse que ele tem um marqueteiro que faz a parte de baixo nível, pensei em ganhar algum com isso! Tenho uma lista de repórteres que oferece R$ 100 mil pelo material”, afirmou Souza à primeira-dama, segundo o processo.

O conteúdo do áudio não foi divulgado. Apenas esta mensagem entre Marcela e o hacker.

Além disso, o processo indica que Souza não dispunha de um vídeo, mas sim de uma mensagem de voz. O documento não mostra descrição do diálogo nem das mensagens enviadas pelo hacker.

Mas sabe-se que Souza pediu R$ 300 mil para não divulgar o áudio em questão e as fotos íntimas de Marcela Temer, que não foram vazadas, mas existem, segundo o advogado de Souza.

Investigação

No final de abril de 2016, pouco antes da votação do Impeachment que afastaria Dilma Rousseff da Presidência da República, Michel Temer se encontrou com Alexandre de Moraes, então secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, no Governo de Geraldo Alckmin (PSDB) para contar o ocorrido e pedir investigação do hacker que queria extorquir Marcela Temer.

Segundo matéria da revista Veja da época, Moraes recrutou policiais de estrita confiança no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e determinou uma rápida e sigilosa operação conduzida pelo delegado especial Rafael Correa.

As prisões

O telhadista-hacker Silvonei José de Jesus Souza nunca tinha sido preso. Na manhã do dia 11 de maio – um dia antes do afastamento de Dilma Rousseff da Presidência -, cerca de 40 policiais à paisana e 11 carros cercaram sua casa na comunidade de Heliópolis , em São Paulo, para prender sua mulher, que levava o filho para a creche.

O telhadista foi preso pouco depois, após responder uma mensagem da mulher – possivelmente enviada pela Polícia em segredo – e ser localizado.

Ele foi acusado de extorsão, estelionato e associação criminosa.

Silvana Lima de Oliveira e Regina Célia Gonçalves Nobre também foram presas por emprestar seus dados (telefônicos e bancários) a Souza, “sendo reiteradamente recompensadas por isso”, segundo o processo.

Mas ao contrário de Souza, ambas foram postas em liberdade, tendo em vista que o inquérito policial as acusava apenas de emprestar os dados.

Nos autos do processo, os nomes de Marcela Temer e seu irmão aparecem escondidos com pseudônimos. O escrivão se refere à primeira-dama como “Mike” e seu irmão como “Kiko”.

Souza confessou o crime na época e foi rapidamente condenado em 1ª instância a 5 anos, 10 meses e 25 dias de prisão em regime fechado por estelionato e extorsão. Ele recorreu à sentença e o caso está será julgado em 2ª instância.

Hoje está no presídio de Tremembé.

Segundo Ivan Carlos de Campos Claro, um dos advogados de defesa, a Justiça optou por um presídio distante de São Paulo para dificultar o acesso à imprensa.

Agilidade na prisão

O Diário Centro do Mundo conversou com Marlon Heghys Giorgy Milaneto, um dos advogados de defesa de Silvonei José de Jesus Souza, que comentou sua visão do caso.

“Quando ele (Souza) foi preso, Michel Temer estava para assumir a presidência, por conta da votação do impeachment, e tudo o que ele queria era evitar um escândalo envolvendo o nome da Marcela Temer às vésperas de se tornar primeira dama”, afirma o advogado.

Marlon Milanetto também afirma que o mais grave da sentença é o rigor e a tramitação em velocidade anormal do processo.

No caso da atriz Carolina Dieckman, usado como referência nessas tentativas de extorsão na Internet, os acusados foram postos em liberdade. Em 2017, quatro anos após os crimes – os acusados ainda não foram julgados.

Mas como réu confesso, Silvonei José de Jesus Souza foi punido e continua na prisão.

Censura à imprensa

Nesta segunda-feira (13), uma liminar concedida pelo juiz Hilmar Castelo Branco Raposo Filho, da 21ª Vara Cível de Brasília obrigou os jornais Folha de S. Paulo e O Globo a tirarem do ar reportagens que descrevem a chantagem realizada pelo hacker contra a primeira-dama.

“Defiro o pedido de antecipação dos efeitos da tutela para determinar que os réus se abstenham de dar publicidade a qualquer dos dados e informações obtidas no aparelho celular da autora. Isto sob pena de multa no valor de R$ 50.000,00”, diz o juiz.

A petição foi aberta pelo advogado Gustavo do Vale Rocha, subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil (Governo Federal de Michel Temer), em nome de Marcela Temer.

As reportagens foram apagadas após intimação judicial, mas outros veículos publicaram a informação.

Nesta mesma segunda-feira, o presidente Michel Temer disse que não houve censura na ação do Palácio do Planalto.

“Não houve isso (censura), você sabe que não houve”, respondeu o presidente no Palácio do Planalto ao ser questionado sobre o assunto após um pronunciamento à imprensa sobre greves e a Operação Lava a Jato.

O presidente e o Governo decidiram não comentar o caso para não expor a privacidade de Marcela Temer.

Boatos

Na Internet, sites publicaram fotos de modelos loiras afirmando que eram as imagens vazadas da primeira-dama.

Outras publicações publicaram imagens de um ensaio sensual de Fernanda Tedeschi, irmã de Macela Temer, como se fossem a fotos vazadas de Marcela.

Mas estas nunca foram divulgadas na Internet.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook