Entenda quem são os líderes da greve e por que paralisações persistem

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Entidades que fecharam acordo com o Governo Temer representam apenas parcela dos grevistas, enquanto lideranças nas redes sociais incentivam as paralisações.

Por Rafael Bruza

André Janones (centro) Wallace Chorão (à direita) e Claudio Honorato (à esquerda) mantém as paralisações neste nono dia de greve / Foto – (Facebook)

Depois que entidades, como a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCAM), aceitaram propostas do Governo Temer anunciadas no domingo (27), o advogado, André Janones, e o motorista, Wallace Landim, o “Chorão”, se tornaram as únicas lideranças dos caminhoneiros que incentivam a manutenção de paralisações em diversas rodovias do país, nesta terça-feira (29) – nono dia de greve.

Desde o início das paralisações, Janones e Chorão se comunicam com grevistas através das redes sociais Whatsapp e Facebook – onde a página de Janones alcançou as 600 mil curtidas.

“Meu grupo defende o Chorão. Disseram que se ele falar que a greve acabou, os caminhoneiros acatam”, contou ao Independente um guincheiro que compõe um grupo de Whatsapp com 70 participantes, de onde chegam informações aos caminhoneiros.

O caminhoneiro Justino Ferreira, do Paraná, também afirmou que as paralisaçoes continuam. Ele se encontra no frigorífico da Copacol, em Cafelândia (PR), onde há cerca de 110 caminhões parados.

“Ele (Chorão) é a única referência que consideramos mais envolvida com a gente. Então pode-se dizer que sim (Chorão é liderança)”, afirma Justino.

Wallace Chorão afirma desde a semana passada que as entidades de caminhoneiros que negociaram com o Governo – e obtiveram redução do preço do diesel no domingo – não representam o movimento.

“Se a gente não tiver participando, (as negociações) não vão ter resultado nenhum. Pode sair de lá agora falando que ‘acabou a greve’, mas já falamos com todo povo na rua. Só libera quando a gente der o OK para vocês. Quando fizermos um vídeo falando que liberou”, disse Chorão a jornalistas na semana passada.

Janones, a sua vez, afirma que os grevistas defendem a queda do preço de todos os combustíveis.

“Nós estamos brigando pela retirada imediata da carga tributária do combustível”, afirma o advogado em um vídeo divulgado no domingo (27). “Aqui não é só caminhoneiro, eu sou advogado, tem médico, tem empresário, agricultor…”.

O advogado e o motorista vêm fazendo críticas à imprensa, acusada de manipular a opinião pública ao falar do fim da greve.

“A Rede Globo vai tentar manipular a sociedade brasileira. O Fantástico de hoje (domingo) vai ter objetivo de criminalizar e marginalizar essa classe que está rodando o país, correndo risco de vida em estradas de má qualidade e correndo risco de ser assaltado. Esta categoria que carrega o país nas costas! A Rede Globo vai tentar mostrar eles como bandidos para tentar te manipular”

Em recente transmissão ao vivo, feita pelo Facebook, Janones também afirmou que Michel Temer ameaçou usar a força contra caminhoneiros grevistas

“Os caminhoneiros podem entender (a declaração) como uma tentativa de intimidação. Ele disse claramente que, se preciso for, vai ter que usar atitudes mais enérgicas para poder reestabelecer, segundo ele, a ordem econômica no Brasil. Boa parte dos caminhoneiros tão entendendo isso como uma ameaça, uma intimidação levada à classe e aos caminhoneiros. O recado, essa ameaça, do presidente Michel Temer não foi bem aceita”, afirma Janones no vídeo.

Lideranças

Assim como Chorão, Janones lidera grupos de caminhoneiros desde o início da greve. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o advogado é recebido por manifestantes em Brasília que tiram selfies e o carregam nos braços por uns instantes.

Janones disse que conheceu Chorão apenas na semana passada, já durante a paralisação. Segundo conta, o motorista pediu seu apoio para a greve.

O advogado foi filiado do PT e deixou o partido em 2012 por “divergências internas do partido”

“Queria apoiar um candidato que eu não apoiava”, afirmou à Folha. “O meu histórico no PT não foi de um político, foi de um filiado comum. Nunca exerci nenhum cargo de direção, nunca disputei nenhuma eleição”.

Nesta segunda-feira (28), “Chorão” foi ao Palácio do Planalto ao lado do deputado federal Cabo Daciolo (Patriota-RJ), sargento licenciado do Corpo de Bombeiros, para pedir “redução de tributos também na gasolina, álcool e gás de cozinha”, segundo escreveu o parlamentar em uma rede social.

O motorista disse à Folha que pretendia ser recebido na Casa Civil. Ele negou intenções eleitorais.

“Não sou candidato. Eu me filiei ao Podemos em Osasco por causa do prefeito”, afirmou “Chorão”.

Fim das paralisações?

O presidente Michel Temer disse ter “absoluta convicção” de que a paralisação terminaria nesta terça-feira (29). Para isto, o governo aceitou no domingo (27) as reivindicações de entidades de reduzir em R$ 0,46 por litro o preço do diesel na bomba por 60 dias e eliminar a cobrança do pedágio dos eixos suspensos dos caminhões em todo o país – medida que não foi concretizada em SP.

Mas persistem protestos e bloqueios por todo país, neste décimo dia de paralisações. Segundo o último balanço divulgado pela polícia, há ainda 594 pontos de aglomeração de caminhoneiros em rodovias federais. Não há vias total ou parcialmente obstruídas, mas, em diversas localidades, caminhões só conseguem passar por bloqueios escoltados pela polícia e garantindo que a carga é dirigida a serviços essenciais.

Nos últimos dias, motoboys, taxistas, motoristas de aplicativo e de vans escolares se uniram aos protestos contra os preços de combustível em São Paulo.

Os petroleiros também começam uma greve na quarta-feira (30), pedindo redução dos preços de combustível, demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras e mudança na política de preços de combustíveis.

Agitadores? Infiltrados políticos?

O jornal Folha de S. Paulo tratou Janones e Chorão como “agitadores nas redes sociais”.

O presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), José da Fonseca Lopes, afirmou nesta segunda-feira (28), em entrevista à imprensa na sede da entidade, que a paralisação não é mais dos caminhoneiros, mas de pessoas que querem “derrubar o governo”. Ele não citou nominalmente Janones nem Chorão.

Fonseca estimou que ainda faltava cerca de 250 mil caminhões deixarem a paralisação.

“Não é o caminhoneiro mais que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas nisso aí. Eles estão prendendo caminhão em tudo que é lugar. […] São pessoas que querem derrubar o governo. Eu não tenho nada que ver com essas pessoas, nem nosso caminhoneiro autônomo tem. Eles estão sendo usados por isso”, disse.

O ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) também falou em infiltrados no movimento dos caminhoneiros e disse que a Polícia Rodoviária Federal irá passar a retirá-los dos pontos de paralisação.

“A Polícia Rodoviária Federal conhece as estradas onde trabalha e sabe das infiltrações políticas que aconteceram. Ela está mapeando e não quer cometer nenhuma injustiça”, disse Padilha. “Ela tem feito algumas ações de retirada de pessoas quando for o caso”, acrescentou o ministro.

Nesta terça-feira (29), o Governo Federal deu continuidade às reuniões do gabinete de crise. Representantes de 11 ministérios participam de encontro na manhã desta terça-feira (29) no Palácio do Planalto.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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