Escola sem partido ou partido sem escola

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Por Jorge Generoso do Nascimento *

Boaventura Kloppenburg, em seu livro “A Maçonaria no Brasil – Orientação Para Católicos (Vozes. 1956 – Edição Esgotada), ao criticar o “Estado Laico” defendido pela instituição maçônica, chama a atenção para o fato do ensino oficial “totalmente leigo”, sob os aspectos que isso é uma falácia, pois nos lembra que “o ensino leigo é incapaz de sustentar sua neutralidade, pois somente personalidades nulas é que podem ser “neutras”; que a atividade pedagógica “ou cessa de ser pedagógica ou cessa de ser neutra”, pois todo sistema pedagógico é necessariamente baseado em uma ou em um sistema filosófico, os quais devem entender o homem na sua formação considerados suas concepções sobre sua natureza, seus destinos e das suas relações empáticas com outros ao seu redor; também tal formulação de ensino leigo, é questionado pela própria psicologia do educando, ou seja, as respostas aos desejos infantis, perguntas essas que invariavelmente vão terminar em “quem sou eu”, “o que faço aqui”, pois a isso, o racionalismo científico está a milhões de anos luz para responder, e se contenta em se preencher de pensamentos filosóficos, e estes fatalmente falarão de uma metafísica. É difícil imaginar como será transmitida a filosofia (que quer dizer amor a verdade!), as ciências naturais, a história universal, só para citar um mínimo em um universo gigantesco de saberes, sem se reportar a quem de fato abriu essas portas de pensamento, que foi o pensamento filosófico como um todo, que mesmo sucedido pelo pensamento científico, não se destruiu a sua natureza peculiar do conhecimento anterior, o seu próprio amor a verdade. Explicamos: o conceito de átomo é pensado pela lógica filosófica, pois uma porção de matéria pode ser fracionada até um ponto onde não é mais possível esse fracionamento, ou seja, um “indivisível. Coube aos filósofos Leucipo e Demócrito essas ideias. Hoje sabemos que o átomo não é tão indivisível assim, havendo partículas mais elementares. Isso destrói a filosofia e seus filósofos que pensaram isso? Não, pois o pensamento de indivisibilidade permanece, só que agora no nível quântico elementar, e caberá a ciência ir mais além na tentativa de descoberta de partículas elementares constitutivas das partículas elementares. Existem? Não sei, pois são apenas uma possibilidade teórica, de pensamento!

Portanto, o que querem os advogados da escola sem partido, como expressão de ensino laico sem uma alma? Na verdade, apenas o “partido sem escola” em sua formulação. Isso atende as necessidades de acumulação de capital (não será falado aqui em mais valia para ninguém ser tachado de “comunista”), pois o capitalismo se apresenta com um simulacro que substitui o ser humano e sua subjetividade, ou seja, retira da pessoa os seus desejos latentes, em prol do desejo do momento, da moda, do imediato, do sucesso. Isso faz Alfredo Adler (psicólogo, filósofo e médico psiquiatra Austríaco do final do século XIX e início do Século XX),  pensar que as fontes das neuroses são essa incapacidade de nos mostrar a altura no cumprimento dos desafios propostos a nós pelo meio social que vivemos, ou seja, temos patologias por não superarmos nossas inferioridades. E esse pensamento de Adler é apreendido e estimulado pelo poder mandante, de forma o homem abandonar o companheirismo em prol do individualismo, e se puder, como prêmio, a própria radicalidade do hedonismo.

Não partilho dos conceitos de Adler, pois reconheço o homem na sua singularidade, na sua alteridade, mas principalmente, pela sua verdade do inconsciente. E é nesta que opera a subjetividade, de como é visto e entendido as coisas desse mundo, interiorizadas.

Esse inconsciente forma um consciente que é sua parte moldada pelo mundo exterior, ou seja, pela realidade que se impõe. E nesta realidade é que temos a ação da Lei, enquanto extrato maior de nossa situação de obediência, pois ai é que está o que regula, media e castra – reprime em função da nossa participação da vida em comunidade, que como troca por isso, fornece proteção contra os acontecimentos naturais. Portanto, as forças da acumulação de riquezas pretenderão suprimir na sociedade o exame de suas subjetividades, em função de um pensamento único, unilateral imposto pelo fim que eles desejam, transformando-nos cada um em uma ilha cercada pela mais pura e simples violência, a ponto da necessidades dos países se armarem serem atualizadas a nível individual, de cada cidadão se considerando uma totalidade, ou seja, da própria vulgarização do conceito de guerra armada.

Recentemente, no processo político, uma frase repetida inúmera vezes na internet – “ A elite não tem ódio, tem uma estratégia, pois o ódio ela terceiriza” – é verdadeira na sua identidade mais simples, ou seja, de quem é beneficiado por isso. E não são os outros 99% da população que sobrevivem as migalhas que caem da mesa dos fartos. Então não deve causar espanto o fato de que, o “coronelismo” do nordeste foi substituído pelo “coronelismo” de pastores e líderes religiosos, aos quais, por identificação, os chamados protestantes, crentes ou evangélicos sagram-nos como objetos que lhes permitirão o gozo único imposto por eles mesmos ao rebanho de seus crentes.

Com o advento da informática, ocorreu com as ideias o mesmo que ocorreu com a invenção da imprensa impressa, ou seja, na medida que as pessoas se educam e tem acesso a leitura e a informação, que tenham acesso facilmente aos diversos “partidos” que existem na formulação histórica, como o empirismo, o materialismo, o humanismo ,o nihilismo, o marxismo, a economia comunista e até mesmo o capitalismo, algo acontece de estranho no meio da sociedade. Tais fatos – informática e imprensa livre – são sinais claros denunciantes da existência de “inimigos” aos detentores do poder. Portanto, a escola sem partido é apenas uma das formulações do emburrecimento das pessoas e a substituição de sua subjetividade, em particular ao desejo, aos padrões de consumos e de necessidade de lucros dos reais detentores do poder. Outras formulações são censura a internet, e agora reinstalada, a política de denúncias de professores, pensadores, entre outros, pelo governo recém eleito por cerca de um terço dos eleitores do pais, como também forma de controle social, ao lado da criminalização de entidades que defendem os direitos sociais, as manifestações. Todo isso pode ser sintetizado no conceito de fascismo, mas penso que a identidade fascista é só uma face de um algo mais ameaçador na história humana, que terão como operadores os eugenistas, e sua ação será muito mais efetiva do que as exercidas nos campos de concentração nazistas. O horizonte de recursos naturais em esgotamento é uma fronteira que, penso, as classes dominantes não deixarão ser ultrapassado pelas necessidades e desejos da maioria absoluta das pessoas. A sabedoria popular pontifica: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

A escola sem partido apenas mostra um partido de elite sem escola, sem formulação humanista, sem formulação filosófica como tal, proposta e gerenciada por pessoas de grupos com nítidas expressões fixadas nas fases iniciais da vida, de onde vem os desejos de acumulação, e para tanto, da necessidade de exploração. E fundem ministérios os quais um delimitaria a função do outro; não desenvolvem políticas de reciclagem sérias e efetivas; grandes áreas da nossa cobertura vegetal são devastadas, tudo isso sob os olhares e sentimentos de uma população simplesmente anestesiada pelo desejo que irão se beneficiar das riquezas ali transformadas, introjetadas nelas na mesma proporção que diminuíram seus “egos”, seus “eus” subjetivos em prol dos objetivos de um bando de ovelhas que, aos gritos de alegria, são levados ao mercado para serem vendidos.

Sem ser moralistas, façamos uma análise do que resultou o estado do ensino laico no Brasil, sem sua total implementação, e comparemos depois com o que se sucederá com a tal escola sem partido como formulada. Deve ser lembrado que o texto é da década de 30, mas pode ser reatualizado para nosso tempo: “Graças aos constantes esforços da Maçonaria temos no Brasil o ensino oficial leigo. Há mais de 50 anos este ensino forma as nossas gerações agnósticas. E quais os frutos do realizado ideal maçônico? Fale o Sr. Perilo Gomes (P e r i l o G o m e s , O Liberalismo, 1933, p. 51 s.) : “Essas gerações são as que hoje dirigem a causa pública, pontificam nas cátedras, dominam no comércio, nas indústrias e representam a moderna cultura brasileira. São as gerações que levaram o País ao desastre de nossos dias, à angústia intelectual, econômica, política e espiritual em que nos debatemos. E’ essa gente apressada, ávida de sensações e de prazeres, meio voltaireana, sem compromisso com o passado nem esperanças no futuro; empolgada pelo imediatismo em tudo quanto empreende; geração de remadores, de futebolistas, de gente de “muque”; que polarizou a sua cultura entre os “cabarets” e as sociedades esportivas; que não conhece as nossas tradições, abomina a existência em família e não tolera a menor restrição ao seu programa de vida sem peias; geração sem fé, sem educação e sem princípios. Eis os frutos da escola leiga entre nós. Eis as verdadeiras causas causais da crise que sofremos no Brasil”. Nota final: moro a cerca de 1,5 km de uma dessas escolas sem partido, e causa-me espanto a falta de alma de seus alunos!!!

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*Jorge Generoso do Nascimento –  61 anos, psicanalista clínico, foi professor universitário, secretário municipal, pós graduado em psicanálise clínica e filosofia/psicanálise.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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