Escolas sem Partido ou sem Autoritarismo?

0

Com o Escola sem Partido, limitamos o trabalho de questionar conflitos na sociedade e seu estágio atual de desenvolvimento.

Opinião – Marcelo Machado

Cena do filme alemão, A Onda, com distribuição da Constantin Film e Highlight Film / Foto - Divulgação
Cena do filme alemão, A Onda, com distribuição da Constantin Film e Highlight Film / Foto – Divulgação

Ninguém sai por aí dizendo que deseja uma escola pública doutrinadora, que apresente apenas aos alunos os elementos da ideologia do partido no poder. Pois, ou ninguém tem de fato este desejo ou porque sabem que tal proposta não seria nada bem vista pela opinião pública atualmente. Porém, todos sabem que em uma democracia é impossível excluir os partidos na disputa pela definição dos parâmetros escolares, tanto de sua organização quanto de seu conteúdo programático. O Estado é responsável pela educação pública e do ministério da educação as secretarias de educação em cada estado e cidade existem centenas de milhares de militantes partidários.

Diante dessa situação, recebemos com perplexidade o projeto de lei intitulado “Escola sem Partido”. Em um primeiro momento nos perguntamos: a que se refere?

Buscando a respeito na internet, percebemos que ele se inicia de fato como uma proposta da sociedade civil, com organizações de pais e professores preocupados não só com a presença de militantes partidários entre os dirigentes das escolas públicas, mas principalmente entre os professores. Diziam eles que tais professores abusavam da audiência cativa dos alunos para promover suas próprias preferências ideológicas.

Sabemos que existem, como em todo tipo de profissional, professores ruins, que independente de sua visão de mundo, culto ou credo, muito mais restringem a capacidade de percepção dos alunos do que as ampliam, mas o desenrolar da história nos mostra que não é apenas este o caso.

A proposta se torna polêmica quando começa a ser pautada em câmaras municipais, assembleias legislativas estaduais pelo Brasil todo e chega até ao Congresso Nacional. Defendida por partidos conservadores, é apresentada como solução contra a atuação conspiratória dos partidos de esquerda que visam à conquista da hegemonia cultural através da doutrinação dos jovens. É neste momento que precisamos então esclarecer os fatos. Tais partidos conservadores, além de se colocarem hipocritamente como neutros, como se historicamente, tanto o formato quanto o conteúdo programático das escolas públicas não fossem doutrinários, no sentido de disciplinar a população destinada a servir de mão de obra para sociedade, afirma também que a capacidade de perceber e criticar tal tradição são apenas uma bandeira falsa dos partidos de esquerda, gananciosos pelo poder.

Precisamos assim, partir da premissa evidente e inquestionável que tal criticismo não é monopólio de partidos de esquerda e está presente na academia, na forma de pensar de diversas pessoas esclarecidas, nos movimentos sociais, organizações independentes e na sociedade civil de forma ampla. Deste modo, podemos afirmar que o ensino das questões de gênero, história dos povos indígenas e africanos, direitos humanos e respeito à diversidade não podem ser considerados de forma nenhuma doutrinação ideológica e a necessidade da presença destes conteúdos nos parâmetros curriculares é compreendida e defendida pela grande maioria da população.

Aprofundando a questão. Mesmo a divisão dos conteúdos em disciplinas pode ser considerada algo extremamente doutrinário. Professores acusados de militantes partidários se encontram em sua maioria na área de humanas, lecionando além de artes e língua portuguesa, principalmente, história, geografia, sociologia e filosofia. Porém, pela já estabelecida cultura que legitima tal divisão disciplinar, estes dificilmente questionam os conteúdos de matemática e ciências ditas exatas. Mas não podemos esquecer que tanto esta divisão quanto estes conteúdos não são formações espontâneas da realidade e que podemos encontrar na história o momento em que passaram a ser dados como verdade e foram transmitidos de forma padronizadora.

Portanto, além de terem uma história, são conteúdos embasados também em uma visão de mundo e filosofia específica, que de forma nenhuma podem ser consideradas neutras.  Assim, com o número de aulas de sociologia e filosofia bastante reduzido como é atualmente nas escolas brasileiras e com a divisão que visa restringir a capacidade de abordagem entre história e geografia, a visão sobre a sociedade passada aos alunos deixa de ter prevalência das ciências sociais e passa a ser pautada pela biologia, tomada como último reduto das ciências e da verdade por se apoiar na experiência e na matemática. Reforçada pela mídia e instituições jurídicas conservadoras, tal visão propaga o individualismo e os preconceitos na sociedade, pois se o conteúdo das ciências humanas forem censurados ou considerados doutrina, qual mais será o argumento que justifique as desigualdades evidentes na sociedade, além da superioridade de um povo sobre outro ou aptidão inata do indivíduo? Como os jovens poderão olhar para a sociedade e perceber o fato de que muitíssimas menos mulheres são lembradas por seus grandes feitos ou então que a população carcerária nas Américas tem muitíssimos mais negros do que brancos e não julgar de forma preconceituosa? O fato é que a grande missão das ciências humanas na escola é justamente mostrar que existem conflitos na sociedade e que seu atual estágio de desenvolvimento se deve muito ao autoritarismo no passado e que ainda está enraizado em nossa cultura e que se esta missão for considerada doutrinação, então não teremos armas nem saída contra o autoritarismo.

Que fique claro que não nego a utilidade dos conhecimentos das matemáticas e das ciências ditas exatas, mas não podemos esquecer que verdade e utilidade são conceitos muito distintos e só poderemos superar o autoritarismo quando nos perguntamos diante de cada afirmação: considerar isto verdade é útil para quem?


Marcelo Machado, cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

Cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

Comente no Facebook