Espanha e Catalunha: condenados a uma declaração de entendimento

0

Do referendo à declaração implícita de independência, jornalista espanhol conta o que está ocorrendo na Espanha e na Comunidade Autônoma de Barcelona.

Por Adrián Argudo. jornalista do jornal Nuevo Crónica e apresentador de televisão

Casal se beija durante uma manifestação na Espanha / Foto – Reprodução

Passou uma semana desde o 1-O, o dia do referendo, 1 de outubro. Era uma data marcada a fogo, tanto no calendário catalão quanto no resto da Espanha – assim como internacionalmente. As votações para decidir o futuro da Catalunha sobre sua independência ocorreram no primeiro domingo de outubro de 2017. Evidentemente, eram votações ilegais. Ninguém pode esquecer que a soberania nacional da Espanha, segundo a Carta Magna do país, reside no povo espanhol. Isso quer dizer que uma decisão desse calibre corresponde, então, a todo conjunto da nação espanhola, não apenas a uma parte.

Assim são as coisas: estávamos diante do maior desafio independentista catalão dos últimos tempos. Obviamente, era um passo adiante, que superava a trajetória de Artur Mas, feita até 9 de novembro de 2014, quando era presidente da Generalitad – governo regional da Catalunha. Nesta data, que ocorreu há pouco menos de três anos, começou o procés, onde votaram 1,8 milhões de pessoas, um terço dos convocados para as votações.

Os eleitores tinham que responder duas perguntas: “você deseja que a Catalunha se converta em um Estado”? E a outra: “Em caso afirmativo, você deseja que a Catalunha seja um Estado independente? Aquela jornada ficou conhecida como 9-N. Segundo fontes oficiais do Govern, 80,7% dos eleitores votou “sim” nas duas questões. A partir desse momento, o desafio independentista começou a ganhar força, até chegar na data que iniciou esta crônica internacional feita para o Independente.

Neste ciclo, convém, de forma rápida, apontar alguns detalhes que facilitarão a compreensão da linha temporal dos fatos.

A candidatura da coalizão Junts pel Sí (“Juntos Pelo Sim”) foi vencedora das eleições para Generalitat de 2015. Nela estavam a Convergência Democrática da Catalunha, cujo exponente era Mas; Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), cujo exponente era Oriol Junqueras, hoje vice-presidente da Generalitat; Democratas da Catalunha e Movimento D’Esquerres.

O objetivo era claro: obter a independência da Catalunha.

Junts pel Sí ganhou as eleições, mas não teve 100% de êxito no plebiscito, onde roçaram a maioria absoluta, que seriam 68 deputados na Câmara – conseguiram 62. Em segundo ficou o Ciudadanos, partido de Albert Rivera, que assumiu 25 cadeiras. O Partido Socialista da Catalunha, CatSíqueesPot, conquistou 11 cadeiras; o Partido Popular teve outros 11 e CUP obteve 10.

Não à toa, Junts pel Sí e a CUP tiveram maioria parlamentária sem superar os 50% de votos. Entretanto, a situação dava “grande legitimidade” a Artur Mas, em suas intenções soberanistas, enquanto o presidente da CUP, Antonio Baños, lançava uma extensa declaração de intenções dizendo que “Mas não é imprescindível”.

Seu passado ligado à corrupção e aos cortes de gastos não agradava os adeptos do antissistema. Com o “não” firme da CUP, Artur Mas estava numa encruzilhada de ir embora ou convocar novas eleições ao término dos prazos. Finalmente, e nos acréscimos do segundo tempo, Mas nomeou seu sucessor, o atual presidente, Carles Puigdemont, possivelmente a pessoa que levou o procés à situação mais extrema na história.

Portanto, o que aconteceu dia 1 outubro de 2017, conhecido como 1-O, começou a ser desenhado em janeiro de 2016.

O presidente da Espanha, Mariano Rajoy, e o presidente da Catalunha, Carles Puigdemont / Foto – Reprodução

1-O

Depois da contextualização, vamos fazer uma síntese do que ocorreu no dia 1 de outubro e da longa trajetória que surgiu após isso. Perto da meia noite do dia 30 de setembro, a expectativa era absoluta. Desde todos os pontos da Espanha, curiosos aguardavam os acontecimentos desta jornada que, sem nenhum tipo de dúvida, foi histórica.

O desafio independentista ia gerar manchetes e títulos jornalísticos nas horas seguintes como nunca antes visto. Um dos protagonistas desse dia, e dos meses anteriores, cujo nome é vital em toda essa história, é Gabriel Rufián, deputado do ERC no Congresso dos Deputados. A polêmica estava servida sobre o censo, urnas e colégios eleitorais. Pois bem, não estávamos diante de um referendo com garantias de aceitação por parte do Governo da Espanha. Tivemos uma trajetória tensa, com duros enfrentamentos e violência. Alguns casos de suposta violência depois foram desmentidos. Eram boatos, como a história de Marta, conselheira do ERC, que disse que tinha quebrado os dedos na confusão, para posteriormente admitir que era apenas uma capsulitis em um deles. Mas, insistimos, isso não supõe que outras cenas de violência são falsas. Isso, aliás, abriu um debate na opinião pública.

“Se o resultado dessa votação não seria legitimado de nenhuma forma, por que empregar as forças do Estado contra as votações”?

Nesse ponto, a discussão alcança um caráter filosófico. Essas mostras de violência por parte do Estado foram manchete no dia seguinte do 1-O em meios de comunicação internacionais e no Governo da Catalunha, lamentaram a imagem governista de “ente  repressor”. Isso já dá uma ideia da confrontação existente entre ambas as administrações e de fato, a relação entre o presidente Rajoy e Puigdemont é praticamente inexistente. Durante essas horas, também chegaram imagens de pessoas tirando fotos de si enquanto votavam. Outras votaram sem controle de identificação. Estamos diante de um “censo universal” que acentuou o descontrole na regulação do voto. Dito e feito: as garantias legais brilhavam por sua ausência, igual as credenciais, para o reencontro posterior.

Por volta de meia-noite, chegaram os resultados. Como vocês podem imaginar, dar credibilidade a essas cifras era, mais do que nunca, questão de fé. A participação foi ligeiramente inferior à convocatória do 9-N. O próprio Governo Catalão anunciou a cifra de 2,2 milhões de votos, com 90% de posições favoráveis à independência. Entre as declarações daquela noite, podemos destacar as de Orial Junqueras, vice-presidente da Generalitat.

“Agradecemos aos cidadãos da Catalunha, que fizeram o possível nesta jornada tão difícil e tão dolorosa. Cumprimos com o mandato parlamentário e seremos consequentes com o resultado”, disse Junqueras.

Enquanto isso, partidos constitucionalistas pediam para as pessoas ignorarem os números das urnas.

As horas seguintes, ou seja, a segunda-feira foi vertiginosa do ponto de vista informativo. E, obviamente, os meios de comunicação também entraram no debate.

Palavras como “manipulação”, “censura” e “pouco profissionalismo” se estenderam entre a população. Os que mais receberam críticas: RTVE, que é a TV pública da Espanha, e TV3, a televisão regional da Catalunha. Ambas receberam críticas e acusações que citavam as palavras apresentadas acima.

Quer dizer: as TV’s foram criticadas pelas mesmas coisas, defendendo pontos de vista contrários.

RTVE é um braço executor do Governo de Rajoy (é lamentável ver trabalhadores da casa se manifestando com frequência neste sentido). E TV3 foi criticada por se posicionar do lado do procés. Desde este meio, com absoluto respeito, procuramos expor o sentimento e o debate gerado na sociedade espanhola, respeitando os trabalhadores de base de ambos os lugares.

Tensões e extremismos políticos

Se voltarmos na história, vemos que em outubro de 1934 ocorreu, em Barcelona, a proclamação do Estado Catalão, feita pelo então presidente da Generalitat, Lluís Companys, que acabou fuzilado seis anos depois pela Ditadura Franquista.

Este fato, precisamente, foi levantado numa enorme polêmica recente. Pablo Casado, deputado e vice-secretário de Comunicação do PP, sugeriu que o atual presidente da Catalunha poderia acabar como Companys.

Isso gerou uma multidão de reações contra o popular. Posteriormente, Casado foi à público dizer que estava falando sobre prisão de Puigdemont – não sobre o fuzilamento.

Sobre o referendo, partidos como o Ciudadanos pediram que o presidente Rajoy aplique o artigo 155 da Constituição Espanhola, trecho muito comentado nestes tempos.

O artigo diz que “se uma Comunidade Autônoma não cumprir as obrigações que a Constituição ou outras leis impõem, ou agir de forma que atente gravemente o interesse geral da Espanha, o Governo (…) poderá adotar as medidas necessárias para obrigá-la ao cumprimento forçoso de ditas obrigações ou para proteção de mencionado interesse geral”.

O 1-O também deixou cenas vergonhosas. Vimos episódios lamentáveis de pessoas que entoaram cantos franquistas e levantaram bandeiras ilegais. Obviamente surgiram enfrentamentos entre posturas radicais de um lado e de outro, inclusive entre gente normal que divergia nas opiniões.

O rei da Espanha, Felipa VI, faz discurso à nação em que comenta a situação da Catalunha / Foto – Reprodução

Discurso do rei

O rei Felipe IV lançou uma mensagem nesta semana para toda a sociedade. No discurso, que durou cerca de 6 minutos, chamou o Estado para por ponto final a uma “deslealdade inadmissível” da Generalitat e acentuou a situação de “extrema gravidade” do momento.

O rei, em tom sério, acusou Puigdemont e sua equipe de “quebrar os princípios democráticos de todo Estado de Direito e socavar a harmonia e a convivência da própria sociedade catalã, chegando desgraçadamente a dividi-la” ressaltando que hoje ela “fraturada e enfrentada”.

A declaração deixou a porta aberta para a aplicação do artigo 155 da Constituição Espanhola.

Da mesma forma que falamos de imagens nada desejáveis, devemos comentar as contrárias. No fim de semana depois do 1-O, milhares de pessoas se vestiram de branco nas “Plazas de España” de várias cidade a favor de um diálogo e de entendimento entre as partes. Muitas vozes coincidem em apontar tanto Rajoy e sua equipe quanto Puigdemont como responsáveis por esta situação extrema.

Dia 8 de outubro também foi um dia muito importante de diálogo na Catalunha, durante a macha pela unidade, organizada pela Societat Civil Catalana, que uniu a um milhão de assistentes, segundo os organizadores.

Declaração de independência

O Govern, através de seu presidente, Carles Puigdemont, fez uma declaração implícita de independência. Ou seja: declarou independência, mas ao mesmo tempo a suspendeu visando possíveis negociações. Isso ocorreu agora, na tarde deste dia 10 de outubro.

É uma situação complicada, e que pode se enroscar ainda mais.

Também contamos com uma primeira postura de Rajoy sobre o discurso de Puigdemont. A equipe do presidente já está preparando uma resposta à declaração, que comentaremos nas próximas horas.

Por sua parte, a CUP classificou as palavras do presidente da Catalunha como uma “traição inadmissível” e o porta-voz do PSC, Miquel Iceta, afirmou que a declaração os “separa da União Europeia”.

E assim foi, em resumo, as horas e horas de acontecimentos, notícias e informações, que levamos da Espanha ao Brasil.

Podemos dizer que, terminando essa crônica, as partes estarão condenadas a uma declaração de entendimento.

Formado em jornalismo e pós-graduado em Comunicação pela Universidad Carlos III de Madrid. Apresentador de televisão na Espanha e editor-chefe no jornal regional de Madri Nuevo Cronica. Correspondente do Independente na Espanha. Serviçal do jornalismo. Professor. Torcedor do Atético de Madrid.

Facebook Twitter 

Comente no Facebook