Familiares dos suspeitos condenam ataques de Barcelona; mesquitas são alvos de agressões

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A prima de um suspeito foragido se manifestou contra o ataque na Espanha. Segundo a plataforma cidadã da Espanha contra a Islamofobia, os casos de agressões contra muçulmanos tiveram aumento de 106,12% entre 2015 e 2016.

Por Rafael Bruza

Muçulmanos se manifestam em Ripoll contra o ataque de Barcelona / Foto – Reprodução

Grupos muçulmanos da Espanha condenaram neste fim de semana os ataques de Barcelona e Cambrils, reinvindicados pelo Estado Islâmico, que deixaram 15 mortos e centenas de pessoas feridas. Uma das manifestações muçulmanas contrárias aos ataques ocorreu em Ripoll, na Catalunha, e contou com presença de familiares dos supostos terroristas, que fizeram gritos contra a violência e mostraram cartazes dizendo: “não em meu nome”, sugerindo que os ataques terroristas não os representam. Enquanto isso, mesquitas da Espanha foram alvos de agressões islamofóbicas nos últimos dias.

Em Rippoll, onde ocorreu uma manifestação que reuniu dezenas de pessoas muçulmanas, a prima do suspeito fugitivo, Younes Abouyaaqoub, pediu publicamente que seu primo se entregue à polícia e disse que não sabe o paradeiro de seu familiar.

“Não sabemos se estão vivos ou mortos. Não sabemos onde estão”, disse a mulher no sábado (19), identificada pela imprensa local como Fátima.

Younes Abouyaaqoub continua foragido e é o principal suspeito de atropelar cidadãos no centro turístico de Barcelona com uma van.

A irmã de um dos suspeitos falecidos chora na manifestação / Foto – Reprodução

A prima de Abouyaaqoub afirma que os jovens foram radicalizados pelo imã Abdelbaki Es Satty. Também assegurou que eles tinham começado a rezar há pouco tempo e indicou que a família não suspeitou do súbito interesse pela religião por considerar que esta característica é natural na idade dos suspeitos – Abouyaaqoub tem 22 anos.

Declarações como esta da prima de Abouyaaqoub aumentaram as suspeitas de que o imã, Abdelbaki Es Satty de 42 anos, liderava a célula terrorista formada por 12 pessoas – das quais quatro estão detidos, cinco morreram após o ataque em Cambrils (120 km ao sul de Barcelona), um está foragido e outro morreu na casa de Alcanar.

“Ele se reunia mais com os jovens do que com pessoas da sua idade”, afirmou à AFP um vizinho de Ripoll, ao descrever o imã, que chegou à cidade em 2015. Em junho, ele pediu férias de três meses, ao afirmar que precisava viajar ao Marrocos.

Segundo a polícia espanhola, os planos iniciais da célula terrorista foram frustrados por uma explosão acidental na quarta-feira (16) em uma casa de Alcanar, 200 km ao sul de Barcelona.

“Naquele momento estavam preparando os explosivos para, de modo iminente, executar um ou vários atentados na cidade de Barcelona“, disse Trapero.

Em Extremadura, na fronteira da Espanha com Portugal, também ocorreu uma manifestação muçulmana contra os ataques de Barcelona.

Mesquitas são alvos de agressões

Este fim de semana, as mesquitas de Granada e Sevilha denunciaram à polícia que sofreram agressões islamofóbicas após os atentados na Catalunha, segundo a edição brasileira do jornal El País.

Na noite de sábado, um grupo de extrema-direita lançou rojões e proclamou mensagens xenofóbicas ao lado da mesquita maior de Granada, situada no bairro de Albaicín. Em Sevilha, apareceram pichações na fachada da sede da Fundação Mesquita de Sevilha.

A Polícia Local de Granada recebeu, às 21h (16h em Brasília), um aviso do serviço de emergência alertando sobre a presença de um grupo de 12 radicais que alteravam a ordem pública na porta do templo.

Os jovens, membros do coletivo Hogar Social (Lar Social), dirigiram-se à mesquita com cartazes gritando palavras de ordem como “terroristas”, “vocês são financiados pelo Estado Islâmico” e “fora da Europa”, segundo a agência Europa Press. Os radicais lançaram um rojão “com a intenção de que a fumaça fizesse os muçulmanos saírem de dentro da mesquita”, criando uma situação de “medo e pânico” entre os moradores da área.

Ainda segundo o jornal El País Brasil, é a primeira vez que a mesquita de Granada, inaugurada em 2003, 23 anos depois do primeiro projeto, sofre agressões desse tipo.

“Já havíamos recebido telefonemas anônimos, sobretudo depois dos atentados, mas nunca tínhamos visto algo assim.” Ruiz destaca que os manifestantes exibiam um cartaz.

Segundo a plataforma Cidadã Contra a Islamofobia da Espanha, os casos de agressões contra muçulmanos tiveram aumento de 106,12% entre 2015 e 2016.

Também ocorreram agressões islamofóbicas em Sevilha, Tarragona e Logroño.

Em Sevilha, a Fundação Mesquita de Sevilha, um dos órgãos de representação da comunidade muçulmana, denunciou no sábado à Polícia Nacional o aparecimento de pichações islamofóbicas e xenófobas em sua sede no centro da cidade. As mensagens continham insultos como “Assassinos! Vão pagar por isso” e “Mouro que reza, facão na cabeça! Stop Islam!”

A fundação entende que essas pichações configuram o crime de ódio.

Os Mossos d’Esquadra (polícia regional da Catalunha) pediram que as mesquitas não sejam criminalizadas. “São lugares de culto, onde as pessoas vão rezar”, afirmou o major do corpo policial catalão, Josep Lluís Trapero.

Ataque do EI?

Além de reivindicar os ataques de Barcelona, o Estado Islâmico também assumiu a autoria de um ataque a um bar que nunca existiu.   

“Com o apoio de Alá, diversos mujahidin [os combatentes da jihad]agiram simultaneamente em duas unidades mirando grupos de cruzados na Espanha na última quinta-feira [17]. O primeiro grupo mirou uma reunião de cruzados com um ônibus em Las Ramblas, Barcelona. […] Depois, eles invadiram um bar com armas leves perto das Ramblas, torturando e matando os cruzados e os judeus que estavam no lado de dentro”, diz a reivindicação.

O comunicado provavelmente se baseou nos rumores de que os autores do atentado nas Ramblas estavam entrincheirados dentro de um bar turco em Barcelona. No entanto, esses boatos foram desmentidos pela polícia da Catalunha poucas horas depois.

Vários dos atentados realizados na Europa nos últimos anos não contaram com a participação da cúpula do Estado Islâmico, mas foram realizados por extremistas inspirados por sua ideologia radical, que se dissemina pelo mundo todo através da internet – veja aqui mais detalhes sobre esse tipo de reivindicação do Estado Islâmico.

O internacionalista Jean Marcouizos acredita que a crise de identidade e a exclusão de cidadãos europeus de origem asiática ou africana costuma ser um dos fatores que contribuem para o crescente numero de atos terroristas.

“Sem serem completamente aceitos como europeus e ao mesmo tempo sem terem vínculos com o país de seus pais ou avós, o extremismo religioso se torna uma alternativa para encontrar identidade. Podemos ver isso em muitos casos de cidadãos europeus que se juntaram as fileiras do Daesh ou que praticaram ataques influenciados por suas ideias, mas sem serem aliciados diretamente”, explica.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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