Familiares e advogados apontam inocentes presos em ação da Polícia contra milícia

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Operação feita na Zona Oeste da cidade prendeu 159 pessoas como suspeitos, dos quais 11 possuem ficha criminal apresentada pelo Ministério Público.

Por Rafael Bruza

Suspeitos de integrar grupo de milicianos deitados após a festa na Zona Oeste do Rio / Foto – Divulgação (Polícia Civil)

Dia 7 de abril, a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu 159 pessoas em uma festa na Zona Oeste da cidade, feita em homenagem a Wellington da Silva Braga, o “Ecko”, suspeito de liderar uma milícia que comanda negócios ilícitos e territórios na região. Roupas militares, carros importados, fuzis e granadas foram apreendidas no local. Governo e imprensa anunciaram todos os detidos como supostos membros do grupo criminoso. Defensores, amigos e familiares dos suspeitos, no entanto, afirmam que muitos cidadãos presos haviam pago ingresso e não pertencem ao grupo criminoso.

Eles sustentam que a festa, descrita como um “show de pagode” foi divulgada abertamente na rádio e nas redes sociais com preço inicial de R$ 10.

Uma familiar de Edilson P. Santos, detido na operação, declara ao The Intecept Brasil que estava no show e que tentou evitar a prisão de seus familiares.

“A gente foi no aniversário da minha vizinha de 60 anos (comemorado na festa). A filha dela pegou um camarote e nós fizemos tudo lá, todo mundo com ingresso e pulseirinha. Chegamos por volta de meia noite. Estávamos lá curtindo e aproximadamente às 3h começou o tiroteio. Separaram os homens das mulheres. Meu filho, que é especial, também estava. Eu consegui tirar ele, que é surdo e mudo, com a receita do Gardenal que ele toma. Peguei e tirei ele, mas não pude fazer nada pelo meu irmão (Edilson P. Santos)”, declara a familiar ao The Intercept Brasil, que entrevistou familiares e advogados de cidadãos detidos.

O estudante Lucas Octávio, um dos sete menores apreendidos pelos policiais como membros da organização criminosa, relatou que os agentes entraram na festa antes que o terceiro grupo de pagode entrasse no palco.

“A gente tava lá curtindo o show, que foi divulgado na Internet. Compramos nossos ingressos e fomos. Chegamos lá, curtimos e dois grupos de pagode cantaram. Quando o terceiro grupo ia cantar, do nada aconteceu a maior algazarra no portão. Quando fui ver, começou a dar tiro. Muita troca de tiro. Os policiais entraram e já mandaram a gente abaixar. Levaram a gente para um campo, mandaram ficar deitado no campo e revistaram a gente”, declara Lucas. “Depois falaram que iam nos levar à Cidade da Polícia para depormos e depois nos liberariam. Mas eu que sou ‘de menor’ fiquei uns quatro dias”.

O defensor público, Ricardo André, que representa 25 cidadãos presos na operação, criticou a ação da polícia.

“Essa prisão indiscriminada, sem que se individualize a conduta de 159 pessoas numa festa aberta ao público, com divulgação publicada em redes virtuais é algo que foge completamente dos padrões de legalidade”, declara.

Artistas se mobilizaram nas redes sociais contra a prisão do circense, Pablo Dias Bessa Martins (Pablo Prynce), de 23 anos, que estava na festa e continua detido. Ele é acrobata e palhaço na Cia Up Leon. Tem uma viagem para a Suécia marcada para o dia 24 de abril, onde possui contrato de apresentação.

O ator Marcos Paulo gravou um vídeo declarando que “lugar de artista é no picadeiro”, em defesa do circense detido.

Justiça nega liberdade

Na madrugada deste sábado, a Justiça do RJ decidiu manter a prisão preventiva de 22 suspeitos, após audiência de custódia que durou aproximadamente 15 horas e foi realizada no Fórum Central por sistema de conferência, devido à elevada quantidade de suspeitos detidos. Os demais casos ainda serão analisados.

A desembargadora Gizelda Leitão, da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, negou a existência de qualquer ilegalidade ou constrangimento ilegal nas prisões, argumentando que policiais apontam inexistência de bilheterias ou de qualquer profissional ligado à realização de eventos.

“Os participantes da festa eram sim ‘recepcionados’ e tinham o acesso autorizado por homens fortemente armados (armas de guerra – fuzis), mas nem isso causou estranheza ou temor aos participantes da ‘festa'”, destaca a decisão.

O Ministério Público apresentou a ficha criminal de apenas 11 detidos – dos 159.

Para os advogados do caso, a ausência de antecedentes criminais é uma prova de que a “maioria absoluta deles” participava apenas de uma festa em um sítio no bairro de Santa Cruz e não possui ligações com a milícia comandada pelo criminoso Wellington da Silva Braga, o “Ecko” – que conseguiu escapar do cerco policial.

A operação

A Delegacia de Homicídios da capital realizou a ação após dois anos de investigação. Quatro criminosos morreram na operação, que é uma das maiores já realizadas pela polícia contra as milícias – grupos comandados por agentes e ex-agentes do Estado, como policiais militares, bombeiros e policiais civis, além de ex-traficantes e assaltantes.

Dois soldados do Exército, um da Aeronáutica e um bombeiro estão entre os presos. O número de detidos na ação foi tão grande que foram precisos dois ônibus para fazer o transporte dos suspeitos até a Cidade da Polícia.

A ação foi coordenada por policiais das Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense e conta com o apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), 27ª DP (Vicente de Carvalho) e 35ª DP (Campo Grande).

O sítio em que a festa foi feita, localizado em Santa Cruz, Zona Oeste da cidade, é considerado o quartel general da milícia comandado por “Ecko”.

No local houve a apreensão de 24 armas de fogo, dentre elas fuzis, pistolas, revólveres, granada, 76 carregadores, 1.265 munições de calibres variados, coletes balísticos, fardamentos e toucas ninja. Também foram apreendidos 11 veículos.

Segundo o Secretário de Segurança Pública do Rio, general Richard Nunes, outras ações de combate à milícia serão realizadas.

“A sociedade pode confiar na intervenção federal. Outras operações já estão sendo planejadas e serão executados em curto prazo. O Rio precisa voltar a ser uma terra feliz, de um povo feliz, trabalhador”, afirmou Nunes.

De acordo com as primeiras informações da Polícia Civil, o sítio em que foi realizada a festa é um local notoriamente dominado pela milícia, a festa era uma celebração ao grupo criminoso e havia segurança feita por homens de fuzil, por isso “todos os frequentadores do evento tinham plena consciência dessa ação delituosa”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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