#foratemer e Rodrigo maia : A esperteza que não leva a lugar nenhum

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Por Fábio Pannunzio

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) / Foto – Reprodução

Fala-se dia e noite em quem sucederá Michel Temer na Presidência. Três nomes são recorrentes: Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati e Rodrigo Maia. Os dois tucanos, no entanto, têm uma viabilidade eleitoral menor do que o atual presidente da Câmara Federal num processo de escolha indireta como o previsto no rito constitucional.

Rodrigo Maia é apontado pelo grupo hegemônico que ainda orbita em torno do Planalto como a solução ideal. Suas virtudes seriam equivalentes em módulo aos seus maiores defeitos. Ele é parte do baixo clero congressual, tem ascendência sobre boa parte das bancadas e sabe jogar o jogo da esperteza. Isso o qualificaria para ocupar a Presidência e prosseguir com a agenda das reformas, assegurando sua aprovação.

Quero discordar desse axioma. Rodrigo Maia é sim um dos mais espertos entre os espertos. Só está na posição em que se encontra porque traiu o que contratou ao ser eleito presidente-tampão no lugar de Eduardo Cunha. Para quem não se lembra, ele disse que não disputaria a reeleição, vedada pelo regimento da Casa que preside. Está lá até hoje.

Rodrigo Maia está sendo investigado no âmbito da Operação Lava Jato. Pesam contra ele suspeitas gravíssimas, que o equiparam a qualquer outro suspeito de receber propina em troca de favores de generosos empreiteiros. A Polícia Federal vê indícios claros de corrupção passiva e lavagem de dinheiro em sua atuação parlamentar.

As relações entre ele e a construtora OAS precisam ainda ser explicadas. A suspeita é a de que o atual presidente da Câmara tenha atuado como “representante da empresa” em 2013 e 2014  na elaboração de emendas a uma medida provisória de interesse da empreiteira na área da aviação civil.  Para a PF, “não restam dúvidas da atuação clara, constante e direta” em favor da companhia liderada pelo ubíquo Léo Pinheiro.

As planilhas da Odebrecht não deixam dúvida de que Rodrigo Maia era um craque. Ele aparece ora como Botafogo, ora como Fluminense entre as alcunhas da corrupção. Ainda que pesem restrições  sobre as intenções de delatores premiados pelo MPF, é no mínimo estranha essa onipresença de Maia na contabilidade da organização criminosa. E menções assim tão desairosas não podem constituir credenciais para quem pretende assumir a Presidência de um País acossado pela cultura da tunga.

Chegamos a um ponto de inflexão da história em que certas elites econômicas, no assanhamento de ver concretizadas reformas conservadoras de difícil consecução em outras circunstâncias, não se importam em sacrificar a moralidade em benefício da conveniência. Nesse contexto, tanto faz um ladrão declarado ou um suspeito carimbado a conduzir a Nação, desde que certos pressupostos de natureza ideológica triunfem.

O que essas elites não sabem é que a lógica da esperteza foi que nos trouxe ao ponto a que chegamos. Que a desonestidade alegada de Michel Temer não é a solução, e sim o problema a ser enfrentado. Que se há alguém que atrapalha a lógica do processo das reformas, é ele, Temer, juntamente com o grupo que o cerca.

Argumenta-se que Abraham Lincoln jamais teria acabado com a escravidão dos Estados Unidos se não tivesse subornado parlamentares venais do Partido Democrata. Temer seria seu alelo histórico,  o pai-fundador da contemporaneidade na institucionalidade brasileira. Uma falácia aberrantemente imoral.

Não se tem notícia de que Lincoln tenha mandado prepostos buscar malas recheadas de dólares em pizzarias, muito menos de que pretendesse produzir atos de ofício para que a Casa Branca se transformasse num valhacouto de ladrões para que a Décima-Terceira emenda à Constituição dos EUA fosse promulgada.

Argumentar que um presidente possa abrir mão da decência e do decoro em nome de uma boa causa é a inversão completa do republicanismo. O que o Brasil precisa agora é de um choque de ética e honestidade. Sem isso, vai ficar sempre à mercê de gente cuja biografia possa ser resumida num apodo futebolístico.

Rodrigo Maia jamais teria a mais ínfima chance de passar nem perto da Presidência da República por mérito eleitoral. Ele é ruim de voto e, a julgar pelo gosto com que se lança a aventuras impopulares, é bem pouco provável até que consiga renovar seu mandato parlamentar. Assim, não é de se estranhar que vá se empenhar ao máximo para tomar de Temer a cadeira que este já havia tomado de Dilma Rousseff. Apoio entre seu pares ele tem para acalentar esse intento. Daí a presunção de que tudo fará com esse fim.

Mas imagine o que aconteceria se dentro de algumas semanas o Ministério Público e a Polícia Federal o denunciassem ao Supremo Tribunal Federal. A crise toda que se pretende suplantar com a dificílima saída institucional para a sucessão de Temer voltaria à estaca zero. É difícil imaginar o que aconteceria à economia, já arrasada pelos reiterados estragos provocados pela corrupção dos dirigentes brasileiros. E também ao ânimo do cidadão comum, que anda horrorizado com a falta de compostura dos nossos políticos e da nossa elite mesquinha.

Por isso tudo, a melhor solução seria delegar ao povo a decisão sobre seu destino. Se é para errar, que o erro seja do eleitor, e não desse grupo incrustado no Poder que não dá o menor sinal de querer largar o osso. E ainda que não seja possível, por lapso de viabilidade política, conclamar eleições diretas, há gente melhor qualificada para dar um choque moral ao País. Aí está, por exemplo, o advogado Modesto Carvalhosa, em uma cruzada para mostra aos homens de boa fé que o mundo não se acabou.

Pode parecer um idílio conceber a entrega do governo a alguém que só tem virtudes, que não está nem aí para a Ética da Responsabilidade weberiana.

Mas soa como um desplante, um pesadelo mesmo, oferecer à Nação mais do mesmo, o roubo contra a gatunagem, a esperteza contra a corrupção.

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