Fracasso do governo Temer abre um vácuo no centro. Não subestimem Álvaro Dias

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Por André Henrique

Fracasso do governo Temer favorece a centro-esquerda e a construção de uma candidatura de centro alternativa ao governismo. 

As filas nos postos de gasolina, o preço altíssimo do combustível, a falta de gasolina, os atrasos nos voos, o número reduzido de ônibus, o preço do gás de cozinha nas alturas. Enfim, a crise de abastecimento gera dores de cabeça em pessoas das mais variadas classes sociais.

O governo Michel Temer, além de o mais impopular da história, é um cadáver apodrecendo em Brasília. O enterro deverá acontecer no final de 2018 mesmo, se nenhuma eventualidade precipitar o fim trágico.

O presidente resiste com as forças que têm. Na crise dos irmãos Batista, Michel Temer por pouco não renunciou. Depois de reuniões, acumulou forças na imprensa e no Congresso – e, em pronunciamento, propalou que não renunciaria. Ali o governo estava morto. E, desde então, o Planalto atua para ressuscitar o governo.

Sim, em política, os mortos ressuscitam. O governo tentou dar sinais de vida com a intervenção federal no Rio de Janeiro, dando centralidade às forças armadas. Deu errado. Tentou respirar com os índices econômicos “favoráveis” e vender a narrativa do “fim da recessão”. Não deu certo também. Michel Temer flertou com a ideia de ser candidato à reeleição. Não pegou no breu.

A conjuntura de instabilidade política, provocada pela Lava-Jato, proporciona surpresas desagradáveis semanais – e, mesmo quando a Operação sai de cena, acontecem situações como essa da greve dos caminhoneiros e dos petroleiros. O governo não tem paz. Colhe tempestades alheias e as que plantou. A política de preços da Petrobrás, condicionada às flutuações do mercado, exasperou o caos. Locaute ou greve? Os dois. O fato é que milhões de brasileiros estão ilhados e irados.

Rodrigo Maia está em conflito com o Planalto. Maia diz que barra aumento de impostos na Câmara e o governo afirma que precisa dos aumentos para compensar as reduções no preço do diesel e os cortes no PIS/COFINS etc. Cortes que atingem a área social e dificultam ainda mais a possibilidade de construção de narrativas governistas. Trata-se de um desastre político.

Quem será o valente a defender um legado desses?  O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles é no momento o candidato do governo. Com o MDB é ruim, sem ele Geraldo Alckmin dificilmente reunirá palanques regionais e tempo de TV para chegar ao segundo turno. Resta ao tucano se aproximar de partidos medianos do centro (DEM-PP-PR-PRB etc), mas o nome do ex-governador não empolga e o centrão quer distância do fedor exalado pelo cadáver do Planalto.

A crise do governo Temer atinge diretamente a centro-direita liberal e fisiológica. Parte do centrão cogita fechar com Ciro Gomes, entretanto, a viabilidade de tais alianças esbarra em questões ideológicas. O mais provável é que o pré-candidato do PDT monte uma chapa de centro-esquerda, com PSB e PC do B. Ciro Gomes poderá perder apoios de esquerda se trouxer o DEM, por exemplo. Com isso cria-se espaço para uma candidatura de centro aglutinar partidos de medianos de…centro.

Neste contexto, abre-se uma janela para Álvaro Dias. O pré-candidato do PODEMOS é um político tradicional, mas por ter se afastado do PSDB, tenta se vender como alternativo ao PT, PSDB e PMDB, e como lava-jatista. Esse discurso afasta partidos tradicionais, mas, nas atuais circunstâncias, com Alckmin e o governo enfraquecidos, Dias pode construir uma chapa com PRB, PP, PTB, PR e DEM – partidos menos alvejados do que os três maiores e à procura de um abrigo.

Na última pesquisa CNT/MDA, Dias apareceu colado em Geraldo Alckmin. Em cenário com Lula, Dias pontuou 2,5% contra 04% de Geraldo Alckmin. Sem Lula, 3,5% contra 5,0%.  Na esteira do fracasso do governo Temer, pode surgir uma candidatura ao centro “alternativa” ao governismo para se contrapor à centro-esquerda. Como sempre, tais amarrações vão exigir habilidade política e desprendimento das partes envolvidas, coisas raras atualmente na centro-direita pátria.

E tal candidatura pode surpreender se os impasses entre PT e Ciro Gomes não forem resolvidos a tempo e pelo bem-comum das esquerdas. Nesse cenário, não subestimem uma surpresa. Não subestimem Álvaro Dias.

 

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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