Globo, Folha e Estadão fortalecem estratégia do discurso de Marcela Temer

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Desde maio, Michel Temer vem subindo a verba de publicidade oficial dirigida a estes meios de comunicação, que agora fazem cobertura favorável à estratégia do Governo.

Opinião – Por Rafael Bruza

Membros do governo ao redor da primeira-dama, Marcela Temer / Foto - Reprodução (Agência Brasil)
Membros do governo ao redor da primeira-dama, Marcela Temer / Foto – Reprodução (Agência Brasil)

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Essa frase falsamente atribuída à George Orwell (na verdade, foi criada por William Randolph Hearst) diz muito sobre as funções do jornalismo ocidental. Mas quando o assunto é política no Brasil, muitas vezes nós, jornalistas, nos deixamos levar pela ideologia e esquecemos que trabalhamos para vigiar o poder público. Isso aconteceu novamente nesta quarta-feira (05), quando a primeira-dama, Marcela Temer, fez seu primeiro discurso público e recebeu uma cobertura bem favorável de grandes veículos de comunicação.

A Folha disse logo no título da matéria que o discurso de Marcela Temer (embaixadora do programa “Criança Feliz”) foi feito “em tom emotivo”. Após o lide, o jornal ressalta que a primeira-dama “trabalhará de maneira voluntária, sem receber remuneração”.

Depois afirma que o discurso foi feito “em tom pausado e professoral”, além de destacar que a esposa do presidente é “mãe”.

Mas tem mais.

Cobrindo o mesmo fato, o G1 reproduziu o discurso de Marcela Temer evitando análises, mas difundindo apenas conteúdo positivo sobre a primeira-dama, enquanto divulga informações sobre o programa “voluntário” e social em que Marcela Temer é embaixadora.

Não há nenhuma crítica. Entre os diversos meios de comunicação do Grupo Globo, que é o maior conglomerado de mídia da América Latina, no máximo vemos uma matéria do jornal O Globo que seleciona memes de internautas. Nela, aliás, só aparecem críticas ao programa “Criança Feliz”.

Em paralelo, o jornal O Estado de S. Paulo destacou o “tom maternal” da primeira-dama e reproduziu fielmente o discurso de Marcela Temer, que “ressalta importância da ‘primeira infância”, segundo título da matéria. E o corpo do texto segue com o “mais do mesmo” relatado nas linhas acima.

É tudo tão belo, tão nobre e tão virtuoso. Pena que trata-se de um trabalho digno de assessoria de imprensa, mas não de jornalismo.

Nenhum dos três jornais fez o trabalho de questionar “por que Michel Temer colocou Marcela Temer na área social do Governo”.

Ora, o mídia training é reconhecível no discurso pausado, estudado e preciso da primeira-dama. Ela foi muito cautelosa para não dizer um “a” fora do que estava previsto. E esse comportamento evidencia que tudo se trata de uma estratégia política de Temer, onde Marcela é apresentada como uma pessoa responsável, consciente e maternal.

O discurso virtuoso citado acima e a juventude da primeira-dama compõem juntos a imagem de esposa “bela, recatada e do lar”, eternizada na matéria da revista Veja de maio. Trata-se do sonho de muitos cidadãos conservadores e a imagem perseguida por muitas cidadãs conservadoras desse país.

O que Temer pretende com a nomeação de Marcela e com a estratégia do discurso é justamente agradar essas pessoas.

Mas, ao invés de desconstruir esse trabalho evidente, mostrando como tudo se trata de uma ação marqueteira, os jornais preferiram fortalecer a ação de Temer e destacaram apenas o tom “emotivo”, “professoral” e “maternal” da primeira-dama, enquanto difundiam a informação de que Marcela Temer não terá remuneração em seu trabalho, além de ser jovem e mãe.

Que belo favor à Michel Temer, hein?!!

Pior que (1) não é a primeira vez que ocorrem coberturas favoráveis à Temer e sua esposa (aqui no Independente, já falamos sobre outros casos “aqui” e “aqui”) e (2) essa cobertura favorável aconteceu justamente depois que Temer subiu a verba de publicidade oficial dirigida a estes meios de comunicação, como revelou o blogueiro Miguel do Rosário (confira “aqui” e “aqui”).

Entre maio e agosto de 2016 (quando Temer governou interinamente), a FOlha recebeu 78% a mais de verbas através de publicidade oficial (do Governo e/ou empresas estatais), em comparação ao mesmo período de 2015.

A Globo recebeu R$ 15,8 milhões a mais que um ano antes, no mesmo período. É um aumento de 15% em uma verba já milionária.

Não foram divulgados dados de 2015 sobre o Estadão, mas em 2016 esse jornal recebeu R$ 469 mil até agosto.

Isso explica em parte a cobertura favorável sobre o discurso de Marcela Temer, cuja retórica reforça estereótipos machistas que veem a mulher apenas como uma figura secundária em relação ao “homem político, que trabalha pelo país e traz comida para casa”.

Uma análise publicada na página no Facebook, “Quartinho da Dany”, supera os textos dos grandes meios de comunicação em termos jornalísticos e apresenta essa consequência através de um exercício retórico feito com o leitor. Confira:

“Resolva as questões:

1.Destaque todas as palavras utilizadas no texto (dos meios de comunicação) acima que estão em caixa alta:

Resposta: EMOTIVO, TRABALHO VOLUNTÁRIO, SEM REMUNERAÇÃO, PAUSADO, PROFESSORAL, JOVEM, MÃE, MATERNAL e INSTINTO MATERNO.

2. Explique como essas palavras estão ligadas no mesmo campo semântico:

Resposta: Todas as palavras fazem parte do campo semântico do papel feminino da mulher-mãe na nossa sociedade patriarcal.

3. Com suas palavras, disserte sobre os atributos destacados da primeira-dama para exercer um trabalho relacionado a crianças:

De acordo com a seleção de palavras, para trabalhar com crianças, é preciso ser jovem, emotiva, professoral e maternal, pois o papel da mulher na nossa sociedade é apenas cuidar do lar e dos filhos. Não é à toa que boas professoras retratadas na mídia seguem este padrão (maternal-jovem-emotiva). Para citar um exemplo, a Professora Helena de Carrossel eternizou, nosso imaginário, o que é ser uma boa professora querida pelos alunos. Tanto é que costumamos chamar a professora do Infantil de “tia”, alguém praticamente da família, maternal, que nem precisa ganhar tanto assim para cuidar dos “sobrinhos”. Além disso, não é coincidência não existirem professores homens atuando na Educação Infantil. Homem não tem o tal “instinto maternal”. A ênfase em Marcela ser mãe é um recado muito bem dado: quem cuida das crianças é a mãe. Ela – somente ela – com seu instinto maternal e tom pausado (tem que ser calma e emotiva) é capaz de ser a (única) responsável pelas crianças: quem pariu Mateus, que o embale. Mães, professoras, babás, avós, sogras e cuidadoras em geral são destinadas a um papel específico na sociedade quando o assunto é criança, cuidar delas. E esse trabalho deve ser “voluntário”, “sem remuneração”, porque estamos apenas fazendo a nossa parte, a nossa obrigação, ao colocar o tal do instinto materno em prática. Não precisamos de remuneração. Os homens – ministros, presidentes, prefeitos, deputados – saíram à caça de comida por nós. A partir dessas reflexões, podemos imaginar por que todas as profissões ligadas ao cuidado infantil são tratadas como menos importantes e indignas de remuneração decente. Professoras, babás, mães e empregadas domésticas – funções quase que exclusivamente femininas – não precisam de (boa) remuneração. Aos homens, os ministérios. Às mulheres, o cuidado infantil VOLUNTÁRIO”.

É ou não uma análise muito mais crítica e jornalística do que a que vimos nos meios de comunicação?

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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