Globo fortalece Rodrigo Maia; Record e Band defendem Temer

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Depois das delações da JBS, os conglomerados se dividiram e possuem posições diferentes em relação à Michel Temer, visíveis em informações sobre os bastidores da política.

Análise – Por Rafael Bruza

O bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e dono do Grupo Record, Edir Macedo, o presidente do Grupo Globo, Roberto Irineu Marinho, e o fundador e presidente do Grupo Bandeirantes, João Carlos Saad / Fotos – Divulgação (Igreja Universal do Reino de Deus/Grupo Globo/Band-Carol Gherard)

A imprensa brasileira se dividiu depois das delações da JBS, que citam expressamente o presidente da República, Michel Temer. O Grupo Globo, primeiro em divulgar as gravações de Joesley Batista, pediu em maio a renúncia do pemedebista e desde então vem fortalecendo as chances de Rodrigo Maia (DEM-RJ) assumir a Presidência da República. A Record, a sua vez, mostra proximidade com o Governo de Michel Temer, enquanto o Grupo Bandeirantes se posicionou abertamente a favor do presidente e contra o delator, Joesley Batista, em editorial lido em maio por Ricardo Boechat.

Começando pelo Grupo Globo. No dia 19 de maio, depois que Temer quase renunciou ao cargo com divulgação das delações da JBS, o jornal O Globo afirmou em editorial que:

(1) tem compromisso com a aprovação das reformas da Previdência e Trabalhista;

(2) que Temer não tem condições de aprova-las; e

(3) que deseja a instalação de um “novo governo” que tenha condições “éticas e morais” de concretizar estas propostas.

Captura do editorial do jornal O Globo de 19/05/2017

Após manifestar apoio às reformas, o jornal disse que “a crença nesse projeto (das reformas) não pode levar ao autoengano, à cegueira, a virar as costas para a verdade”, e sugere instalação de um novo governo.

Captura do editorial do jornal O Globo de 19/05/2017

Ou seja: o Grupo Globo quer renúncia de Michel Temer por entender que o presidente não tem condições de aprovar as reformas que propõe. Defende, então, instalação de um novo governo que seria eleito via eleições indiretas, no Congresso Nacional.

Três dias após o editorial, o secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, que é um dos políticos mais próximos de Michel Temer, teve encontro com João Roberto Marinho, do Grupo Globo por “estar preocupado” com o tom do noticiário do conglomerado.

Segundo coluna da jornalista Monica Bergamo, a conversa entre um dos principais assessores políticos de Michel Temer e o executivo do maior conglomerado de mídia da América Latina correu “em tom ameno”.

Na reunião, João Roberto Marinho disse a Moreira que sua emissora “continuará a fazer jornalismo” e falou sobre o editorial do jornal O Globo que pede renúncia do presidente.

Globo vs. Governo Temer

O Governo, portanto, não conseguiu amenizar o noticiário do Grupo Globo. Veio, então, a represália: na semana passada, dois meses depois que o jornal O Globo defendeu renúncia de Temer, o Governo Federal ordenou “a execução de eventuais dívidas da emissora com a União, de impostos e de financiamentos no BNDES”, segundo o jornal O Dia, do Rio de Janeiro – que é próximo do prefeito da cidade, Marcello Crivella, aliado de Temer na esfera nacional.

Com isto, inaugurou-se uma guerra política entre o Grupo Globo e o Governo Temer.

Recentemente o conglomerado determinou a aproximação de seus principais executivos com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, com objetivo de leva-lo à Presidência da República através de eleições indiretas.

O vice-presidente de relações exteriores, Paulo Tonet, teve frequentes reuniões com Rodrigo Maia.

Um dos encontros do presidente da Câmara com executivos do Grupo Globo foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo.

Rodrigo Maia saiu de reunião de uma hora com o presidente da República, foi para um local desconhecido, sem carro oficial, e foi seguido por um repórter do jornal.

Após um tempo esperando na porta do local em que o presidente da Câmara se dirigiu, o repórter foi abordado por um dos seguranças da casa, que disse: “o vice-presidente da Globo quer saber quem você é e para quem você trabalha”.

Captura de trecho de reportagem do jornal Folha de S. Paulo

A reunião com o “vice-presidente da Globo”, que não teve identidade expressamente revelada, durou 5 horas, enquanto o encontro com Temer teve duração de 1h.

Logo as matérias do jornal Folha de S. Paulo informaram que o presidente da Câmara dos Deputados vem dizendo a aliados que se reuniu com “gente importante” e começou a ver a saída de Temer como algo “irreversível”.

A previsão deste grupo, segundo a Folha, é que o plenário da Câmara arquivará a primeira denúncia de Rodrigo Janot contra Michel Temer.

Mas deputados entendem que seria “mais difícil” para aliados de Temer se posicionarem a seu favor no caso de uma segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República, pois essa posição acarreta desgaste para os deputados.

O Grupo Globo, em paralelo, decidiu que interromperá novelas, jogos e séries para transmitir a votação da denúncia de Janot ao vivo em seus canais, no dia 2 de agosto, mostrando cada um dos votos dos deputados em rede nacional.

Isto tende a ampliar a pressão sobre os congressistas que votarem a favor de Michel Temer e fortalece a crise política do Governo, tendo em vista que o presidente pode ser afastado do cargo caso o Supremo Tribunal Federal (STF) aceite uma das denúncias da Procuradoria-Geral da República.

Por sinal: em caso de afastamento de Temer, Rodrigo Maia é o primeiro na linha de sucessão da Presidência e assumiria o comando da República de forma temporária, por 6 meses (180 dias), para convocar eleições indiretas no Congresso Nacional, nas quais ele, Maia, já seria favorito.

Enquanto isso, deputados da tropa de choque do Governo Temer já pensam em mais represálias contra a Globo e falam nos bastidores em cassar a concessões da emissora quando os prazos terminarem – estes se renovam em comissão especial da Câmara, onde o Planalto tem maioria.

Então o Grupo Globo vem favorecendo a saída de Michel Temer da Presidência da República, incentivando a convocação de eleições indiretas, feita por Rodrigo Maia, que estaria temporariamente no cargo de Temer e já seria candidato favorito no Congresso, por contar, inclusive, com apoio de parte do empresariado e de instituições financeiras.

Record e Band defendem Temer

Mudam os conglomerados, muda a situação política.

Se, de um lado, o Grupo Globo vive contexto de guerra política com o Governo Temer, de outro, o Grupo Record e o Grupo Bandeirantes seguiram o caminho completamente contrário, demonstrando proximidade com o presidente Michel Temer.

No caso da Record, o vínculo com o Governo Temer se vê até em investigações da Polícia Federal (PF), divulgadas recentemente em reportagem do site Buzfeed.

Conversas interceptadas pela PF entre o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o secretário-Geral de Governo, Moreira Franco, e o vice-presidente de jornalismo do grupo Record, Douglas Tavolaro, indicam que houve uma negociação para a emissora ter patrocínios da Caixa Econômica Federal em troca de fazer uma entrevista com o presidente Michel Temer.

Em uma das conversas, Aécio e Douglas Tavolaro falam em “juntar tudo num pacote”, sugerindo que houve acordo entre as partes envolvidas.

Em outro diálogo, Aécio Neves sugere que Michel Temer tem conhecimento do pedido da Record e cobra o ministro Moreira Franco para “entrar no circuito com o cara da Caixa” e fazer o pedido do patrocínio.

Moreira Franco, a sua vez, disse que já tinha encaminhado a demanda da emissora.

Esta informação foi confirmada pelo banco, que informou que o próprio Moreira Franco encaminhou o pedido da emissora.

A entrevista de Temer na Record não foi realizada.

Em compensação, a emissora atacou mais uma vez sua concorrente– e atual rival de Temer – ao transmitir uma reportagem do jornalista Luiz Azenha, ex-funcionário do Grupo Globo e conhecido por compor a chamada blogosfera progressista – próxima do PT -, que apresenta denúncias contra a TV Globo.

Estas denúncias são antigas, de 2013. Foram reveladas pelo blog O Cafezinho – outro da blogosfera progressista –, também pelo Tijolaço, e falam em envolvimento da emissora num esquema de sonegação bilionária, criação de empresa de fachada em paraíso fiscal e fraude na aquisição dos direitos da Copa do Mundo de 2002.

A novidade do caso é que o ex-ministro Antônio Palocci pode citar o Grupo Globo em sua delação premiada – razão que supostamente cria resistência do Ministério Público em aceitar as acusações.

A Record usou este gancho para transmitir a reportagem de 15 minutos na televisão aberta que atinge sua concorrente Globo.

Desta forma, a emissora entrou na estratégia de ataque ao Grupo Globo promovido pelo Governo Temer.

O blogueiro Renato Rovai, da Revista Forum, que também faz parte da blogosfera progressista, entende que o senador Aécio Neves – outro político citado diretamente nas delações da JBS – é o principal articulador deste novo “ataque” da Record à Globo.

“Temer, evidentemente, está por trás da estratégia de ir pra cima da Globo”, diz o blogueiro. “Mas quem estaria mais mordido com a emissora e jogando pesado para que outros veículos de comunicação entrassem numa guerra total contra a família Marinho é ele, o irmão de Andréa Neves e primo de Frederico Pacheco de Medeiros. Aécio Neves é o principal articulador da classe política para que todos os canhões sejam apontem para a emissora”.

Band “fecha” com Temer

O Grupo Bandeirantes é outro conglomerado que apoia o presidente da República, Michel Temer. Mas a Band age com mais timidez do que suas concorrentes – Record e Globo – nos bastidores da imprensa e da política nacional.

Pouco depois que Moreira Franco se reuniu com João Roberto Marinho, do Grupo Globo, em maio deste ano, por “estar preocupado” com o tom do noticiário do conglomerado, a Band fez um editorial em seu principal jornal televisivo em que defendeu Temer e chamou Joesley Batista de “lavradaz”.

O texto lido por Ricardo Boechat no Jornal da Band afirma que as denúncias da JBS contra Temer são graves.

Mas, nele, o conglomerado manifesta apoio às reformas e ao presidente.

“O país quer seguir adiante e não abre mão de persistir na recuperação já iniciada da economia e dos empregos. Esclarecidas todas as dúvidas, a Band espera e acredita que possa o presidente Temer dar sequência às medidas que, de fato, atendam aos interesses dos brasileiros. Esta é a opinião do Grupo bandeirantes de Comunicação”, conclui Boechat.

Na semana passada, também foi revelado que o jornalista da Band, Reinaldo Azevedo – contratado recentemente pelo conglomerado -, se encontrou com Michel Temer

O encontro foi revelado pelo site O Antagonista, dos jornalistas Diogo Mainardi – ex-revista Veja –, Mário Sabino e uma consultoria financeira chamada Empiricus.

A publicação do site afirma que existe uma “conspirata” entre Michel Temer, STF e parte da imprensa brasileira contra a Operação Lava Jato.

Captura de post do site O Antagonista

A nota do Antagonista gerou mais uma polêmica entre Mainardi e Reinaldo Azevedo.

O jornalista da Band ironizou O Antagonista, “um site aparentemente de jornalismo e que pertence a uma corretora (Empiricus) que ganha dinheiro com as oscilações do mercado…” e questionou: “recebi sim o presidente, qual o crime nisso?”, questiona o jornalista.

Reinaldo seguiu: “criminoso é prometer para os clientes que o Temer vai cair e fazer produtos de mercado com a queda do presidente e depois não entregar o produto, isso é criminoso, isso é vagabundagem, isso é canalhice, isso é sem-vergonhice”.

O caso, portanto, é que a imprensa brasileira está rachada entre apoio, oposição e neutralidade em relação ao Governo Temer. A questão neste sentido é analisar as condutas individuais de cada meio de comunicação, pois todos possuem características, vontades e intenções próprias. Estão divididos neste momento.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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