Golpe dentro golpe

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Por André Henrique 

Reforma política para aumentar o poder das oligarquias políticas

O sistema político reage ao processo de devastação causado pela Lava-Jato e seus braços no judiciário e na imprensa.

A reação não dialoga com a sociedade. Eis o problema. Trata-se mais de garantir a sobrevivência das velhas oligarquias políticas do que discutir a modernização da representação.

Os parlamentares usam a comissão que discute a reforma política para construir as condições para a manutenção do status quo.

Tornou-se um mantra as pessoas afirmarem que o Brasil precisa de uma reforma política. Mas qual?

Até Eduardo Cunha fez mudanças na legislação eleitoral, em 2015, para posar de reformista.

Agora é Michel Temer quem se engaja pela reforma política. A pauta parlamentarismo-2018 ganhou apoio do presidente.

No parlamentarismo, quem escolhe o chefe de governo é o legislativo.

Vale perguntar: um Congresso, dominado por oligarquias e corporações, tem credibilidade para tirar do povo e transferir para si a tarefa de escolher o comandante do país?

Outro detalhe: as pesquisas apontam os tucanos atrás de Marina Silva, Jair Bolsonaro e a léguas de Lula.

Logo, o regime parlamentarista às pressas seria um atalho para o PSDB voltar a governar o país sem passar pelo crivo das urnas.

O partido teme perder a quinta querela seguida para Lula ou para um aliado do petista.

A eleição para presidente em 2018 tende a ser a mais fragmentada pós 1989.

As chances de surgirem candidatos às pencas e o risco de um outsider surpreender são grandes.

A campanha por parlamentarismo-2018 é um brado pragmático do PSDB e do PMDB, que não querem correr o risco de perder o controle do Planalto – esse fato poderá garantir a unidade entre os dois partidos.

Unidos, de imediato, eles mantém Michel Temer até 2018, salvam Aécio Neves e, com a máquina, formam maioria parlamentar e escolhem o primeiro-ministro. O jogo é esse.

Os olhos de José Serra brilham porque o caminho que restou para o paulista realizar o sonho de governar o país.

Seus principais aliados, Aloysio Nunes, Gilmar Mendes e Michel Temer trabalham pelo parlamentarismo.

DISTRITÃO

Ganhou força na Câmara a proposta do Distritão, como alternativa ao sistema proporcional.

O Distritão prevê que cada estado se tornará um distrito eleitoral no qual os candidatos mais votados são eleitos deputados federais e estaduais.

Esse sistema enfraqueceria os partidos políticos e reforçaria os personalismos – de líderes religiosos, celebridades e lideranças patronais, prejudicando minorias e a possibilidade de renovação.

Sem contar que seria uma bóia de salvação para os congressistas acusados de corrupção e com medo de perderem o foro privilegiado em caso de derrota no modelo proporcional.

De acordo com informação do jornalista Kennedy Alencar, a proposta já tem 22 votos dos 36 necessários na Comissão Especial.

Como é uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), o distritão precisa de 308 votos em plenário da Câmara, três quintos dos 513 deputados.

Alguém imagina que no Senado seria diferente?

Esfacelada pela impopularidade, a trinca do golpe – DEM, PMDB e PSDB – busca manter-se pela via mais simples: o parlamentarismo.

O centrão e mais uma penca de parlamentares denunciados dão apoio à trinca em troca do distritão – que garantirá sobrevida política a deputados denunciados.

Enfim, um pacto não pela modernização do sistema político, mas pela sobrevivência de um establishment político apartado da sociedade.

Haja mediocridade, no reino da pequena política e no castelo do golpe.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

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