Imprensa tradicional contrata figuras de Direita populares na Internet

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Especialistas afirmam que existe uma polarização na mídia nacional que fortalece veículos internacionais e faz com que meios de comunicação contratem apenas profissionais alinhados com sua própria linha editorial.

Por Rafael Bruza

Joice Hasselmann, Felipe Moura Brasil e Ana paula Henkel: recentes contratações de veículos tradicionais / Fotos – (Divulgação-Jovem Pan/Reprodução)

Popular no Twitter, onde tem 150 mil seguidores e é conhecida por posições “conservadoras” em assuntos políticos, a jogadora de vôlei, Ana Paula Henkel publicou nesta segunda-feira (07) seu primeira texto no jornal O Estado de S. Paulo, chamado “Entrando em Campo”, que termina com uma crítica aos discursos politicamente corretos.

“O politicamente correto, nosso inimigo comum, não é só um expediente autoritário e rudimentar, ele serve de esconderijo para quem quer viver na Terra do Nunca e mascarar a própria imaturidade com uma capa falsa de tolerância”, diz o texto da jogadora, que tem cidadania estadunidense e prometeu votar em Donald Trump em julho de 2016.

A contratação uma figura de direita, popular na Internet e conservadora como Ana Paula, não é exclusividade na imprensa tradicional do Brasil em tempos recentes.

Em junho, a rádio Jovem Pan anunciou Joice Hasselman e Felipe Moura como novos profissionais do veículo. São dois ex-funcionários da revista Veja, que também possuem popularidade nas redes sociais, onde produzem conteúdos alinhados com ideologias de direita.

Joice tem 967 mil curtidas em sua página de Facebook e tem “o maior canal de política no YouTube do BR”, como diz sua apresentação na rede social de Mark Zuckerberg. Em publicações recentes, ela critica a Venezuela e o apoio que parte do PT oferece à Nicolás Maduro.

Em paralelo, Felipe Moura Brasil colabora com o site O Antagonista – de Diogo Mainardi, Mário Sabino e uma consultoria financeira -, se descreve como “o maior influenciador político do Brasil no Twtter” e organizou o livro de Olavo de Carvalho – “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”.

Ambos foram contratados pela rádio para ocupar o lugar de Reinaldo Azevedo na Jovem Pan, que abandonou um programa na rádio e assinou contrato com o Grupo Bandeirantes, onde possui um programa na BandNews desde maio.

Band apoia Temer

O Grupo Bandeirantes, a sua vez, manifestou apoio à Michel Temer depois das delações da JBS, em editorial publicado em maio.

Contratado por esse conglomerado de mídia tradicional, Reinaldo Azevedo se encontrou com Michel Temer recentemente e, menos de um mês depois, realizou uma entrevista com o presidente, classificada como “governista” por analistas.

Guilherme Boulos na Carta Capital

Se, de um lado, a Grande Mídia contrata profissionais alinhados com a direita política, de outro, a imprensa alternativa de esquerda contrata colunistas conhecidos nesse espectro político.

Em março deste ano, a revista anunciou contratação do coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que tem proximidade com o PT.

Na época, também foi contratada como colunista a ex-secretária-adjunta de Direitos Humanos da gestão de Fernando haddad (PT) em São Paulo, Djamila Ribeiro.

“Triagem ideológica”

O jornalista Gabriel Priolli, que trabalhou em vários veículos da mídia nacional – como TV Cultura, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Carta Capital e Época -, disse ao Independente que existe uma “triagem ideológica” na hora de contratar e demitir profissionais na imprensa brasileira.

“Antigamente a gente simplesmente trabalhava em jornal, hoje, para trabalhar na imprensa, você precisa praticamente ser sócio (do veículo), precisa se associar politica e ideologicamente  ao jornal, se não, você não trabalha lá. E é assim que funciona”, diz o jornalista.

Priolli acredita que a seleção em função de ideologia ocorre desde o processo de seleção dos “focas”, que são os jornalistas recém-formados.

“Há um processo de triagem ideológica que está se aprofundando. Isso vem lá de trás, começa no plano da própria contratação dos profissionais, também na hora da renovação das redações, na demissão de jovens profissionais, dos focas, e tal. Os focas estão sendo contratados hoje em dia claramente por critério ideológico. Claramente. Os cursos e processos de formação e seleção internas são feitos de forma que a pessoa tenha que se expor politicamente e esse é o ponto de corte. Então, se a pessoa é muito explícita se colocar como um cidadão de esquerda, simplesmente não é contratado, independentemente de capacidades para redigir, fotografar e fazer todas as coisas necessárias dentro do trabalho de imprensa. Então há triagem ideológica, que vem desde a base, e ela infelizmente vem chegando mais à cúpula, nas instâncias diretivas”, afirma o jornalista.

Partidarização fortalece a internacional

Em abril de 2016, o ex-editor da revista Economist na América Latina, Michael Reid, afirmou à BBC Brasil que o sucesso da revista no país e de outras publicações internacionais se deve à partidarização da imprensa do Brasil.

“A mídia brasileira está muito partidária, isso faz com que as pessoas olhem mais para publicações internacionais”, afirma Reid, que se surpreende ao receber comentários polarizados aos conteúdos produzidos.

“É interessante pensar que sofremos críticas por fazer elogios a Lula durante sua presidência e que a presidente Dilma Rousseff discordou publicamente de nossas posições sobre seu governo”, diz Reid, em entrevista à BBC Brasil por telefone.

A BBC Brasil, o El País Brasil e o The Intercept são veículos internacionais que funcionam no Brasil. Os três foram alvo de Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF), feita pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ) em outubro de 2016.

A ANJ alega que os portais estrangeiros não obedecem a restrição à participação estrangeira em veículos de comunicação social do Brasil e exige que os veículos de mídia se submetam à mesma regulação imposta aos demais meios de comunicação social do Brasil.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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