‘A impressão que se tem é que ninguém aprendeu com a tragédia do Regatas’, diz autor

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Oito jovens perderam a vida há 20 anos, durante o show superlotado da banda Raimundos no ginásio Clube de Regatas Santista. 

Por Glauco Braga, do Blog Santos em Off

Única foto que mostra o pânico na escadaria foi feita por uma jovem de 16 anos / Foto – Reprodução (Gisele Monteiro/Arquivo Sérgio Vieira)

O jornalista Sérgio Vieira, de 40 anos, resolveu mexer numa história que tinha tudo para cair no esquecimento: a tragédia que vitimou oito jovens  de 14 a 20 anos, na saída do show da banda Raimundos, no dia 8 de novembro de 1997, há exatos 20 anos, no Clube de Regatas Santista, na Ponta da Praia, em Santos (SP). Os oito foram asfixiados e sofreram lesões múltiplas ao caírem de uma escada de cinco metros utilizada como única saída para quase seis mil espectadores. Os corrimãos instalados na estrutura cederam, o efeito manada empurrou o público e dezenas despencaram no chão, um sobre os outros. O caso contribuiu para uma drástica diminuição desse tipo de entretenimento na cidade de Santos, que fica no litoral de São Paulo, mas mesmo assim não serviu de exemplo para evitar outros acidentes – até maiores – pelos Brasil.

Sérgio conversou com o Blog Santos Em Off e contou como foi a ideia e a criação do livro ‘Raimundos – o show que nunca terminou’.

Sérgio, como foi aquela noite de 8 de novembro de 1997? O que fazia naquele momento?

Eu não estava no show da banda Raimundos, no Clube de Regatas Santista, mas havia muitos amigos ali. Lembro de, naquela madrugada de sexta para sábado, estar voltando de uma casa noturna no Guarujá e ter estranhado a enorme movimentação de ambulâncias na Avenida Afonso Pena, próximo ao antigo Pronto-Socorro do Macuco. Estava no terceiro ano no curso de Jornalismo na Universidade Santa Cecília e, naquele sábado de manhã, produzimos um jornal impresso sobre o assunto, que foi distribuído no sábado à noite na cidade.

Você quando pensou no livro também tinha aquela sensação que essa história ainda precisava ser contada com mais detalhes?

Com certeza. A história voltou à minha vida em julho deste ano, quando comecei a ver reportagens do aniversário de 10 anos do acidente da TAM, em Congonhas. O local onde funcionava o prédio da TAM Cargo, onde o avião bateu, hoje é um memorial daquele dia triste. E em Santos nunca houve essa lembrança. A minha percepção, quando decidi escrever o livro, era de que a Cidade havia esquecido da tragédia e, principalmente, da dor das oito mães que perderam seus filhos naquela trágica noite. A Cidade nunca se preocupou em ter um memorial, um monumento ou uma lembrança que fosse daquele momento. Elas sequer foram recebidas na Prefeitura de Santos ao longo desses anos. Morreram naquela madrugada Leandro Faria Resende (14 anos), Rodrigo Barbosa Martins (16 anos), José Renato de Salles Neto (16 anos), Camila Iemini Cabral (16 anos), Alex Damião da Silva (16 anos), Luiz Roberto dos Santos Mantovani (18 anos), Bárbara Aparecida da Silva Alves (18 anos) e Pablo Rodolfo Santos Soares (20 anos). Depois de algum tempo da tragédia, a Cidade parou de comentar sobre isso. E hoje o sentimento é de que Santos esqueceu desse momento. Como jornalista, como cidadão e, principalmente como pai, não podia aceitar que isso continuasse acontecendo. Trazer esse assunto à tona novamente é fazer com que ele não caia no esquecimento. Só falando e discutindo esse tema é que podemos evitar que tragédias como essa ocorram de novo.

Objetos perdidos durante a tragédia / Foto Reprodução

Você tinha amigos que estavam no show. O que eles relataram pra você de mais impressionante?

Tinha, sim, amigos que acompanharam o show dos Raimundos, que era de lançamento do CD ‘Lapadas do Povo’, o quarto disco da banda. E todos falaram sobre a superlotação do ginásio, a falta de seguranças no local e a venda indiscriminada de bebidas alcoólicas. No livro, entre os depoimentos de quem viu de perto a tragédia, entrevisto um amigo que contou que conseguiu descer da escada segundos antes de desabar o público e a quebra dos corrimões. Foram momentos de terror vividos por quem estava lá, provocado justamente pela decisão equivocada e absurda de se liberar apenas uma porta para a saída do público. Mesmo com a capacidade máxima de 2.606 pessoas, havia naquele momento, segundo laudo do Corpo de Bombeiros, 5.974 pessoas, mais do que o dobro do que seria permitido e do que seria prudente. Tanto amigos quanto entrevistados do livro relatam as horas de horror e o clima logo após a queda. A Rua Francisco Hayden, que dava acesso à saída do ginásio, transformou-se em um pronto-socorro a céu aberto, para onde foram levados inicialmente os jovens resgatados, enquanto aguardavam atendimento profissional e transferências para os prontos-socorros da Cidade.

Santos sempre foi a Cidade dos Shows nas décadas de 80 e 90. Você acha que a tragédia do Regatas foi determinante para o fim dos clubes da Ponta da Praia e também pela diminuição dos shows por aqui?

É verdade. Santos sempre foi um espaço de grande movimentação artística e de surgimentos de movimentos importantes. Basta lembrar do Charlie Brown Jr., do Garage Fuzz, do Murilo Lima, que esteve à frente do Capital Inicial, entre outros nomes importantes. Em entrevistas, integrantes da banda Raimundos sempre falaram da importância de Santos para a carreira deles e da frequência com que vinham se apresentar na Cidade. Tanto que foi na Cidade que planejaram o lançamento nacional do ‘Lapadas do Povo’. Entendo que não foi apenas esse motivo que fez com que os clubes da Ponta da Praia, que ainda resistem e que se reinventaram, enfrentaram momentos difíceis nas décadas de 1990 e no início dos anos 2000. Os clubes, de uma forma geral, tiveram queda na quantidade de sócios e os shows serviam como uma fonte extra de receita. Era o caso do Regatas. O aluguel do ginásio para a apresentação da banda rendeu ao clube, naquela ocasião, R$ 3.500,00. Claro que, depois da tragédia, o número de apresentações musicais diminuiu drasticamente, mas provocado, principalmente, pela dificuldade dos clubes em cumprir as novas regras de segurança impostas pela Prefeitura na ocasião. Tanto é que o Carnaval de 1998 quase inexistiu. Pouquíssimos clubes conseguiram realizar bailes.

Mesmo com essa tragédia, tivemos não há muito tempo, o incêndio e mortes na Boate Kiss, um acidente que é parecido, pois as pessoas morreram, pois não tinham como sair do local. Como avalia esses acidentes 20 anos depois?

Como infelizmente sempre acontece no Brasil, a classe política e as autoridades em geral só decidem tomar providências normalmente após tragédias. A impressão que se tem é que ninguém aprendeu com a tragédia do Regatas e nem mesmo com a da boate Kiss, 15 anos após o caso de Santos. Cerca de um mês após o acidente do Regatas, os vereadores aprovaram projeto, que resultou na lei complementar 292/97, promulgada pelo então prefeito de Santos, Beto Mansur, no dia 22 de dezembro daquele ano. A legislação alterava artigos do Código de Posturas municipal e tornava mais rígidas as exigências para realização de eventos com grande público, como, por exemplo, as presenças de equipe médica e segurança (o que não existiu no Regatas), documentos como auto de vistoria de Corpo de Bombeiros (do clube estava vencido desde fevereiro de 1996), entre outras determinações. Ainda assim, fica a sensação de que a porteira só é fechada depois que escapa a boiada. Não dá para lidar dessa forma com vidas.

Qual o peso que acha que teve essa tragédia com o fim da Banda Raimundos por um tempo, a saída do vocalista e uma volta do grupo muito tempo depois?

Imediatamente após a tragédia a banda interrompeu a turnê e entrou num processo de luto. Eles só voltaram a tocar em março de 1998, quando fizeram uma minitemporada no antigo Palace, em São Paulo, e logo depois fizeram uma turnê pela Europa. Digão, no livro, conta que esse episódio teve um impacto muito grande para o grupo, mas não chegaram a desistir da carreira em respeito aos fãs. Em 30 anos de carreira, o grupo foi marcado por sucessos e por muitas idas e vindas, além de brigas entre os fundadores. A mais emblemática foi a saída do então vocalista Rodolfo Abrantes, que deixou os Raimundos em 2001, quando se converteu à religião evangélica. O fato é que, depois disso, a banda nunca mais manteve o sucesso de antes, mas seguiu adiante, com o Digão nos vocais. O que ficou claro é que ainda é difícil para eles falar da tragédia em Santos e que essa história, assim como no caso dos familiares, não será nunca esquecida.

Essa tragédia ficou impune? quem finalmente foi punido nisso? O que sabe dos processos?

Ficou quase impune. As punições foram consideradas muito brandas, dado o tamanho da tragédia e o resultado com a morte de oito jovens entre 14 e 20 anos. Em primeira instância, em novembro de 2000, foram condenados o então presidente do clube, Reinaldo Gomes Ferreira, a três anos de detenção, regime aberto; Carlos Alessandro Prozzo, dono da Rockstrote, que organizou o show, a quatro anos e seis meses de detenção, regime semiaberto e Valdir Espúrio, arrendatário dos bares no dia do show, a prestação de serviços à comunidade por um ano e seis meses. Em maio de 2004, é publicado o acórdão do recurso no Tribunal de Justiça de São Paulo. Todas as penas mudaram. Para menos. Reinaldo e Prozzo tiveram as penas convertidas a prestações de serviços à comunidade e à entrega de cinco cestas básicas, cada um, a entidades assistenciais. Valdir Espúrio foi absolvido.

Você acha que ainda estamos sujeitos a tragédia semelhantes?

Esse talvez seja o questionamento mais inquietante e que o lançamento do livro ‘Raimundos – o show que nunca terminou’, no dia 18 de novembro, a partir das 18h30, na livraria Realejo, também tem essa missão, que é de discutir segurança em espaços com grande concentração de pessoas. O poder público precisa enxergar essa questão, lembrar que há 20 anos Santos entrou na triste lista dos maiores acidentes em shows de rock do Brasil e iniciar um processo de discussão e fiscalização. Evidentemente que a situação não é a mesma daquele 1997, mas será que ainda assim estamos garantindo a segurança do público em eventos? É possível ter a certeza de que todos sairão com tranquilidade e seguros? Essa resposta cabe ao poder público municipal, que não pode e não deve, a exemplo do que ocorreu naquele novembro de 1997, fugir de sua responsabilidade. Cabe também à sociedade enxergar esse problema e chamar a atenção caso encontre ou perceba alguma situação que possa gerar insegurança ao público. A responsabilidade é de todos nós para que Santos não sofra novamente por uma tragédia semelhante a essa do show da banda Raimundos.

Serviço

Lançamento do livro ‘Raimundos – o show que nunca terminou’
Data: 18/11/17 a partir das 18h30
Local: Livraria Realejo
Endereço: av. Marechal Deodoro, 2 – Gonzaga – Santos/SP

O jornalista Sérgio Vieira, autor do livro ‘Raimundos – o show que nunca terminou’

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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