Impune após confessar caixa 2, Onyx faz tatuagem para ‘resolver o problema com Deus’

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O futuro ministro da Casa Civil de Bolsonaro nunca foi alvo de inquérito ou punição pelos R$ 100 mil irregulares que recebeu em 2014.

Por Rafael Bruza

O ministro extraordinário, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), disse ao jornal Zero Hora nesta segunda-feira (03) que fez uma tatuagem de um versículo da Bíblia, em seu braço direito, para resolver “com Deus” o caso da doação irregular que recebeu na campanha de 2014, quando foi eleito deputado federal pelo DEM do Rio Grande do Sul, com mais de 183 mil votos. (Assista a reportagem em vídeo, acima).

Apresentando-se como um evangélico muito religioso – e sem comentar a nova acusação de caixa 2 que foi alvo -, Onyx disse que conversou com Deus, em orações, sobre o ocorrido.

“Primeiro, resolvi o meu problema com Deus. E aí, nas minhas orações, sempre me vinha um pensamento em mente, de que eu precisava de um gesto que lembrasse o valor da verdade e também que simbolizasse que eu nunca mais cometeria aquele erro”, contou Onyx, que vem evitando comentar a recente acusação de caixa 2 na campanha de 2012 (veja abaixo).

O versículo tatuado pelo futuro ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro está no Evangelho de João, no Novo Testamento: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (Jo 8,32).

O ministro possui outras duas tatuagens – uma que traz a bandeira do Rio Grande do Sul junto à palavra “liberdade” e outra, mais acima, com o símbolo do seu time de futebol, o Internacional, segundo a coluna de Kelly Matos no ZH.

Caixa 2

Em entrevistas concedidas à imprensa em maio de 2017, Lorenzoni admitiu ter recebido e usado uma doação irregular de R$ 100 mil na campanha de 2014 para deputado federal.

“Final da campanha, reta final, a gente cheio de dívidas com fornecedores, pessoas, eu usei o dinheiro. E a legislação brasileira não permite fazer a internalização desse recurso”, afirmou o gaúcho, que foi relator do projeto das Dez Medidas de Contra a Corrupção, idealizado pelo Ministério Público Federal.

Ele afirma que a verba foi doada pelo empresário Antonio Jorge Camardelli, que é presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne). O delator, Ricardo Saud, no entanto, que citou Onix em sua delação premiada, afirma que a JBS usou Camardelli de intermediário para pagar o atual ministro.

Impune

Ainda em maio de 2017, Lorenzoni pediu “desculpas ao eleitor” por fazer campanha com doações irregulares e disse que procuraria o Ministério Público para pedir punição.

Mas nenhum inquérito foi aberto para apurar o caso, segundo apuração do jornal Folha de S. Paulo. Com isto, Lorenzoni jamais foi responsabilizado pela doação irregular.

O pagamento para o ministro extraordinário consta apenas em um procedimento amplo no Supremo Tribunal Federal (STF), que envolve vários políticos.

Em maio de 2018, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge pediu ao STF que desmembrasse a parte da delação da JBS que trata de pagamentos “via caixa dois, por meio de entrega direta de dinheiro ou mediante notas fiscais ‘frias’ a diversos políticos nos anos de 2006 a 2014”, entre os quais se encontra o caso de Lorenzoni.

Mas não se sabe o rumo que a investigação tomará ou mesmo se o ministro extraordinário de fato será investigado por esse caixa 2 específico.

Nova acusação contra Onyx

Uma planilha da JBS entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR) por delatores da JBS acusa Onyx Lorenzoni (DEM-RS) de caixa dois novamente.

O documento sugere que o ministro recebeu outros R$ 100 mil em 30 de agosto de 2012, supostamente repassados em espécie durante as eleições municipais – quando Onyx liderava o DEM do Rio Grande do Sul.

O repasse está registrado na planilha “Doações-2012” como “Onyx-DEM”.

As informações sobre o caixa dois em 2012 foram detalhadas pelos delatores da JBS depois das primeiras delações de 2017, através de anexos complementares entregues por Joesley Batista, dono da J&F, Ricardo Saud e Demilton Castro, este último responsável por pagamentos ilegais.

Procurada pela Folha na ocasião, o ministro negou o caso e sugeriu que o jornal pretendia eleger Fernando Haddad (PT) à presidência da República.

“Agora se requenta uma informação do ano passado, dada por alguém que não sei quem é, se passo na rua não sei quem é, não conheço, nunca vi. No episódio de 2014, reconheci e fiz o que uma pessoa que carrega a verdade consigo tem que fazer. Nada temo, não é a primeira vez que o sistema tenta me envolver com a corrupção. Alto lá, sou um combatente contra a corrupção e essa é a história da minha vida. O que a Folha quer? O Haddad, que tem 30 processos? O que a Folha quer? A Folha queria o Lula? E a mídia engajada queria o Lula, a Dilma, o José Dirceu? Perderam a eleição”, afirmou o futuro ministro da Casa civil.

Questionado pelos jornalistas se o delator da JBS teria mentido, Onyx não respondeu. Ele tampouco explicou se recebeu o dinheiro de caixa dois, conforme indica a planilha da JBS.

“Faz um ano que muitos tentam destruir Jair Messias Bolsonaro, seus filhos, seus colaboradores, quem está próximo dele, mas qual foi a resposta da sociedade brasileira? Uma vitória esmagadora. Eu não temo. Tenho a verdade comigo. Quando a verdade foi dura contra mim, ela foi usada contra. A verdade para mim é um valor do qual eu não me afasto. Tenho 24 anos de vida pública sem um processo. Portanto, nada temo. Vamos enfrentar isso com altivez”, disse.

Defendido pelo Governo

Membros do futuro governo de Jair Bolsonaro defenderam Onyx Lorezoni em entrevistas recentes à imprensa.

O futuro ministro da Segurança Pública, Sérgio Moro, disse em sua primeira entrevista coletiva após deixar a tog, que tem admiração pelo ministro. Moro, que ficou conhecido internacionalmente por julgar o ex-presidente Lula na Operação Lava Jato, também ressaltou que Onyx Lorenzoni “pediu desculpas” pelo crime de caixa 2.

“Quanto a esse episódio no passado (caixa 2), ele mesmo já admitiu os seus erros, pediu desculpas e tomou as providências para reparar”, declarou o ex-juiz federal à jornalistas.

A deputada federal eleita por São Paulo, Joice Hasselmann (PSL), a sua vez, disse que “põe as duas mãos no fogo” por Onyx Lorenzoni.

“Há toda uma perseguição com o Onyx, como se ele fosse um bandido. Ele é um homem sério, correto e está trabalhando”, disse a futura deputada. “O que querem? Que botem o Onyx para fora? O Onyx hoje é o coração do Governo (Bolsonaro), em todos os sentidos”.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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