Indignação Seletiva

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Por Marcelo Machado

Ilustração

A violência é o tema mais importante do debate político na atualidade e todas as correntes de pensamento devem algo a esse respeito. Mesmo que se criem tabus é preciso admitir, a violência afeta a todos e quanto a isto não resta dúvida.

Porém, como a realidade nunca é simples, mesmo os fatos mais evidentes estão sujeitos a variadas interpretações. Essas variações podem ser extremadas, chegando a absurdos como pessoas que são coniventes com violências graves como assassinato de inocentes e que entram em cólera em repúdio a danos banais se comparados a vida humana, como quando protestos populares causam algum prejuízo material. A isto chamamos indignação seletiva.

Este comportamento se apoia em uma visão da sociedade em que a base do julgamento de qualquer fato é a manutenção do atual status social. Esta manutenção se torna o próprio princípio ético, ou a falta dele e qualquer acontecimento que pareça que de algum modo pode afetar este status é considerado criminoso, e por outro lado, qualquer ato violento que se entenda como necessário para manter este status é considerado justo.

A violência está diretamente ligada a desigualdade social, é seu elemento essencial, pois é desigual o modo com que a violência se distribui pela sociedade, as características dos que mais sofrem são diferentes das dos que quase não sofrem. É com violência que a desigualdade é estabelecida e mantida. Sendo, deste modo, a própria desigualdade sujeita também a debate e dissenso. É mesmo de se esperar que aqueles que detém uma posição privilegiada não tenham a mesma boa vontade contra as desigualdades sociais que aqueles que mais sofrem com ela ou mesmo que cheguem a se revoltar quando sentem que sua forma de viver está ameaçada. As posições diante deste debate se tornam a própria visão que a pessoa tem da sociedade e reações a cada situação específica podem ir além de apenas pequenos equívocos, mas sim sinais de uma concepção sistemática em alinhamento a alguma corrente política. Quais as causas das desigualdades e o que pode ser feito para reduzi-las se tornam então as perguntas que estão no cerne do debate político, onde muitos atuam maliciosamente para que nunca haja consenso.

Com tudo isso a violência se mantém crescente e diante de um cenário cada vez mais catastrófico cresce também a parcela da sociedade que acredita que a violência só pode ser combatida com mais violência. Sabemos onde isso pode dar, numa escalada que leve toda sociedade ao completo caos. De modo nenhuma a violência será reduzida com mais violência, pois, assim como toda ação gera reações, toda agressão gera desejo de revide, de vingança. O desejo de revide radicaliza a polarização entre as correntes políticas e a guerra entre elas pode com isso, passar a ser a única alternativa que muitos vejam. A guerra dificulta muito qualquer ação política, chegando até mesmo a impossibilita-la nos piores casos, por isso, a única forma de se combater a violência não é com mais violência, mas através de ações políticas que visem a diminuição das desigualdades sociais, não só as econômicas, mas também as de gênero, os preconceitos raciais e a xenofobia. Com certeza diminuir as desigualdades sociais não é uma missão fácil, mas se não nos focarmos nela muito em breve seremos varridos por uma maré de violência onde ninguém ganha, apenas aqueles que já não são capazes de sentir tristeza, por empatia ou piedade.

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Marcelo Machado, cientista político pós-graduado pela PUC-SP, é pacifista e acredita na sociedade civil organizada como indutora de um desenvolvimento sustentável.

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