Jean Willys e Glenn Greewnwald discutem na Internet sobre Israel

0

O deputado do PSOL criticou postura de seu partido e da “esquerda” contra Israel e foi respondido pelo jornalista do The Intercept Brasil.

Por Rafael Bruza

O jornalista do The Intercept Brasil, Glenn Greewnwald, e o deputado federal Jean Willys (PSOL)

O deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ) fez um texto sobre a forma que a esquerda brasileira aborda Israel e foi respondido pelo jornalista do The Intercept Brasil, Gleen Greenwald (confira os dois textos na íntegra, abaixo).

O texto de Willys, publicado no Facebook inicialmente, afirma que uma nota nacional de seu partido, o PSOL, sobre Israel ,não o representa.

“A obsessão de uma parte da esquerda em atacar Israel, a única democracia da região, é suspeita de estar contaminada por preconceitos antissemitas (assim como uma parcela da direita está contaminada de preconceitos islamofóbicos) que, como ativista de direitos humanos, eu acho inaceitáveis”, afirma o deputado. “Isso não significa, claro, que muitas políticas do governo israelense de Netanyahu não mereçam ser repudiadas, assim como as de outros governos, mas isso deve ser feito de forma qualificada, com informação e seriedade, não com discursos de ódio, e sem confundir governo, Estado e povo, como muitas vezes se faz”.

O texto rendeu críticas de internautas ao deputado.

“Lamentável ver um texto desses, com o mundo inteiro em solidariedade à luta heroica da jovem palestina Ahed Tamimi, sendo julgada e ameaçada de condenação pesada por ter, desarmada, partido para cima de soldados que pouco antes haviam atingido seu primo com um tiro de bala de borracha. Jean Willys tem muitas qualidades no que se trata da luta do povo brasileiro, Mas sua visão de política internacional é absolutamente incompatível com quem se pensa de esquerda, democrata e humanista”, afirma o internauta Milton Temer, que teve o comentário mais curtido do post. “Lamentável essa atitude anti-partidária assumida em Congresso pelo partido. No dia em que os sionistas com suas leituras da política internacional vierem a construir uma eventual maioria, eu não diria que ‘não me representam’. Eu, democraticamente, pediria desfiliação”.

Willys respondeu Milton Temer: “Temer, seu comentário é ofensivo, intolerante e, por isso mesmo, lamentável. Não é a primeira vez – e creio que não vai ser a última – que você me ofende por não conseguir conviver com uma posição diferente da sua no que diz respeito às questões internacionais. Tenho certeza – embora você vá negar, como todo homofóbico mal-assumido – que há uma ranço de homofobia nisso, em querer me ver fora do partido. Mas eu não vou sair. Muito pelo contrário: vou lutar para que o partido abandone definitivamente o ranço preconceituoso, intolerante e autoritário que vejo nas atitudes de alguns dirigentes que não conseguem sair do lugar de macho cis hétero branco sem consciência dos seus privilégios. O PSOL será – contra sua vontade e dos demais dirigentes que estão com o coração e a mente em 1917 – um partido de mulheres, LGBTS, pretos, judeus sionistas de esquerda, ativistas contra islamofobia e contra o intolerância em relação às religiões de matriz africana. Eu quero levar o PSOL para o século XXI. Aí se você quiser sair, fique à vontade. Aliás, aproveite o slogan contra seu xará: FORA, TEMER!”.

O segundo comentário mais curtido, no entanto, é favorável ao deputado do PSOL.

“Perfeito Jean Wyllys. É muito bom ler seu posicionamento sobre essa questão. É muito importante combater o antissemitismo dentro do PSOL de forma contundente. Muito obrigado e continuamos caminhando juntos!” afirma Gulherme Cohen.

O texto de Jean Willys foi respondido por outras pessoas, como Gleen Greenwald, que é judeu, homossexual e se posicionou no Twitter contra as declarações de Jean Willys.

Como judeu, estou muito ofendido pela maneira como Jean Wyllys explora a grave acusação de ‘antissemitismo’ para constranger as críticas a Israel. Ele não é o árbitro do antissemitismo. Muitos dos críticos de Israel e apoiadores do BDS são judeus”, afirma o jornalista. “Jean: pare de tentar fazer partidos de esquerda soarem como Bolsonaro em relaçäo a Israel. A ocupação israelense da Palestina é racista, agressiva e ilegal – é o apartheid – e nenhum partido pode se dizer de esquerda sem se opor veementemente a isso”.

Textos na íntegra:

Jean Willys, originalmente postado no Facebook:

Está circulando nas redes sociais uma nota publicada pela executiva nacional do PSOL com relação ao conflito israelense-palestino que não me representa. Não assino, não concordo e repudio energicamente seu conteúdo. A esquerda brasileira precisa fazer um debate qualificado sobre a situação do Oriente Médio — que inclui, mas não se limita a esse conflito, e que deveria considerar também a grave ameaça do terrorismo e a situação dos direitos humanos na maioria dos países da região, onde as mulheres são oprimidas, os homossexuais são criminalizados e até executados e não há democracia e nem liberdade de expressão. A obsessão de uma parte da esquerda em atacar Israel, a única democracia da região, é suspeita de estar contaminada por preconceitos antissemitas (assim como uma parcela da direita está contaminada de preconceitos islamofóbicos) que, como ativista de direitos humanos, eu acho inaceitáveis. Isso não significa, claro, que muitas políticas do governo israelense de Netanyahu não mereçam ser repudiadas, assim como as de outros governos, mas isso deve ser feito de forma qualificada, com informação e seriedade, não com discursos de ódio, e sem confundir governo, Estado e povo, como muitas vezes se faz.

Com relação à nota da executiva do PSOL, que não consultou as bases, nem a bancada, e inclusive ignorou os consensos alcançados no congresso do partido e as manifestações de algumas regionais, como a cidade do Rio de Janeiro (cujo congresso partidário municipal rejeitou por amplíssima maioria uma nota semelhante), recomendo a leitura do artigo de Bruno Bimbi, secretário de Comunicação da executiva estadual do PSOL-RJ, com o qual concordo. Vou publicar o link no primeiro comentário, procurem lá.

Contudo, além desse necessário recado para os setores antissemitas da esquerda, com os quais jamais vou compactuar, quero passar também um recado para os oportunistas da direita que se aproveitam deste tipo de equívocos de uma minoria fanática e barulhenta do meu partido: não adianta algumas figuras reacionárias e anti-esquerda da comunidade judaica — figuras apoiadoras dos golpistas corruptos e plutocratas daqui e dos abusos do governo de direita em Israel — usarem essa nota equivocada e não representativa do conjunto do PSOL para atacar as pessoas de esquerda e progressistas da comunidade judaica, inclusive aqueles sionistas de esquerda que se filiaram ao partido. Não sejam desonestos e não generalizem. Não é toda a esquerda, e nem todo o PSOL que pensa assim. Não aproveitem para fazer politicagem e difamar militantes honestos da comunidade judaica que defendem posições de esquerda e lutam contra todas as formas de discurso de ódio, venham de onde vierem!

Nem o PSOL como um todo, nem tampouco todas as suas figuras públicas fazem coro a essa nota rasa, simplista e redutora de uma questão complexa como o conflito israelense-palestino e quase ofensiva ao povo judeu como um todo. A nota é vergonhosa como vergonhosa é a falta de profundidade de quem a redigiu e a falta de responsabilidade de quem a publicou em nome de todo o partido.

Em meu nome não!

Por último, reitero que nossa posição é pela existência e autonomia de dois Estados, na linha dos acordos de Genebra (construídos por ativistas pela paz israelenses e palestinos), e que lutamos pelo fim das violências contra mulheres, LGBTs e minorias religiosas nas ditaduras do Oriente Médio inimigas de Israel, que pouco estão preocupadas com o empobrecimento da Palestina e do seu povo (ao contrário!), e nem por isso são alvo de críticas por parte de membros do PSOL ou dessa esquerda caricata.

Glen Greenwald, em seu Twitter:

Como judeu, estou muito ofendido pela maneira como Jean Wyllys explora a grave acusação de “antissemitismo” para constranger as críticas a Israel. Ele não é o árbitro do antissemitismo. Muitos dos críticos de Israel e apoiadores do BDS são judeus.

Jean: pare de tentar fazer partidos de esquerda soarem como Bolsonaro em relaçäo a Israel. A ocupação israelense da Palestina é racista, agressiva e ilegal – é o apartheid – e nenhum partido pode se dizer de esquerda sem se opor veementemente a isso.

Além disso: quando as pessoas no PSOL, injustamente manchadas por Jean como antissemitas, tentam se defender (como Milton Temer), Jean explora acusações de “homofobia” contra eles. Como gay, eu acho esse comportamento manipulador e destrutivo: armar essa acusação desta maneira.

Existe um pequeno grupo no PSOL (liderado por Jean) que quer torná-lo um partido pró-Israel – o que faria dele um caso único entre os partidos de esquerda do mundo democrático. Quem tem mais infos sobre isso, manda DM, pois estamos investigando e vamos reportar tudo.

Por ora: Jean Wyllys deve parar de explorar a grave acusação de antissemitismo (e homofobia) contra críticos de Israel dentro do PSOL, para tentar proibir as críticas a Israel e destruir a reputação dos seus adversários no partido

A parte mais irônica do uso frívolo e manipulador da política identitária por Jean é seu racismo contra Palestinos – sua tentativa contínua de justificar a opressão daquele povo por um governo racista.

Se Jean quer ver o preconceito, ele deveria arrumar um espelho.

Mais uma resposta de Willis:

O deputado voltou a se posicionar depois dos comentários de Glenn Greenwald. Confira:

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

Facebook Twitter LinkedIn 

Comente no Facebook