João Dória e os riscos da obsessão

1

Por André Henrique

Trocar de partido poderá significar o fim da carreira política precoce de João Dória Jr.


Com a classe política tradicional em descrédito e diante da falta de consenso por um nome do mercado para disputar o Planalto em 2018, natural que o prefeito de São Paulo busque nacionalizar o seu nome visando uma provável candidatura à presidência da República.

Sim. A prefeitura de São Paulo é uma das principais travessias para se chegar ao cargo máximo da República. Sim, o clima político favorece um outsider. E sim, o nome de João Dória, apesar de arranhões, ainda está em alta.

Entretanto, em política, é necessário calcular os custos políticos de cada ação.

João Dória praticamente abandonou a prefeitura para viajar o Brasil como um caixeiro viajante vendedor de si mesmo.

Por conta disso, o prefeito passou a ser criticado, não a ponto de encolher politicamente, de maneira drástica. Mas Dória cogita movimentos mais ousados.

O tucano aposta em decolar nas pesquisas de modo a se tornar o nome aclamado pelo PSDB e seus principais aliados no DEM e no PMDB, deixando Geraldo Alckmin comendo poeira em segundo plano.

O empresário também espera a possibilidade de o governador de São Paulo sofrer avarias irreversíveis por causa da Lava-Jato.

As duas hipóteses ainda plausíveis empurram o prefeito para a pré-campanha.

Acontece que o tempo do tucano é curto. A convenção do PSDB será em dezembro. Prefeito e governador estão no mesmo patamar nas pesquisas. E não há perspectivas no momento de que Alckmin será gravemente afetado por uma denúncia a curto e médio prazo.

O presidente do PSDB Tasso Jereissati afirmou em entrevista ao Estadão que Geraldo Alckmin é o primeiro da fila no PSDB, frustrando Dória.

Também pudera. O que mais pode almejar um governador de São Paulo, que não pode disputar a reeleição, além de concorrer à presidência da República?

A alternativa que o prefeito de SP namora é mui perigosa. Ele cogita mudar-se de partido. Já recebeu convites de vários, dentre os quais, o PMDB, de Michel Temer.

Não faria sentido Dória disputar prévias com seu padrinho político entrando na disputa derrotado. Seria um desgaste desnecessário.

No entanto, trocar de partido poderá ter um custo político ainda maior.

O político João Dória tenta vender-se como um não-político que se contrapõe às “velhas” práticas dos políticos tradicionais.

Entretanto, nada mais velho e tradicional do que usar a prefeitura de São Paulo como trampolim para alimentar ambições pessoais.

Nada mais velho e tradicional que a infidelidade partidária – no caso, Dória cometeria dupla traição, a seu padrinho Geraldo Alckmin, a quem prometeu lealdade; e ao partido que lhe abrigou em 2016 para disputar a prefeitura.

Claro que, em política, como dizia o jornalista Joelmir Beting, “palavra é igual bolacha de maisena, foi feita para ser quebrada”, mas esse encadeamento de ações desmantelaria a identidade política do prefeito de SP.

Até aqui João Dória consegue manter a pose de aliado, porém, se romper com o PSDB apenas por que preterido, será tratado no processo político e eleitoral como traidor. E não haverá como justificar.

As únicas chances de o tucano ser candidato com o mínimo de legitimidade são: a) pelo PSDB, derrotando, nas internas, Geraldo Alckmin; b) trocar de partido se o PSDB e o governador se afundarem em denúncias que lhes custem muito caro, como aconteceu com Aécio Neves.  A segunda opção daria ao prefeito a justificativa para pular do barco.

Embora pouco prováveis, as hipóteses supracitadas ainda podem ocorrer, vai daí por que Dória não desce do palanque e esgotará as possibilidades até o último minuto da partida.

Resta saber o que ele fará caso as perspectivas não venham a lhe favorecer até dezembro. Dória irá se recolher na prefeitura ou fará um movimento que poderá destruir a sua precoce carreira política? A ver.

Reitero, não há como se apresentar como “novo” cometendo dupla traição e reproduzindo em cascata as práticas mais desgastadas da tal “velha política”.

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

Comente no Facebook