João Dória planta ódio e colhe ovada

0

Prefeito foi alvejado por um ovo atirado por um manifestante

Quando chegavam à Câmara Municipal de Salvador, os prefeitos João Dória Jr e Antônio Carlos Magalhães Neto foram recebidos por manifestantes que atiravam ovos e proferiam palavras de ordem contra os dois. Um dos ovos atingiu a cabeça do prefeito de São Paulo.

O prefeito interrompeu a caminhada para limpar-se e aproveitou o episódio para, obviamente, dar a sua versão do fato político e não permitir que apenas a repercussão dos adversários ganhasse as redes sociais e a imprensa. Dória acerta no método, mais uma vez, mas erra no conteúdo, novamente.

O tucano disse que os manifestantes representam o caminho da intransigência, o caminho de Lula, do PT e das esquerdas. Completou: “eles querem intimidar, a mim não intimidam…” E disparou: “os manifestantes deveriam ir pra Venezuela jogar ovos em Maduro”. E concluiu: “acelera, Brasil”, adaptando o “acelera, São Paulo”, em mais um claro movimento de pré-candidato à presidência da República.

João Dória foi à Câmara de Salvador receber o título de cidadão soteropolitano. Os presentes na sessão gritavam “Dória, presidente”, e o tucano apontava para as câmeras fazendo o sinal de “acelera”.

Os discursos inflamados de Dória o isolam no PSDB. Os tucanos tradicionais trabalham nos bastidores para colocar fim à pré-candidatura do empresário à presidência da República. Deste modo, ou Dória se aquietaria ou mudaria de partido. Em caso de mudar de legenda e insistir na candidatura, ele teria duas situações desagradáveis para explicar ao eleitorado e à imprensa: a mudança de partido e o abandono da prefeitura. Os dois movimentos visando um interesse político imediatista poderiam ser interpretados como oportunismo. Não pegaria bem.

A radicalização das palavras de João Dória o afasta da preferência do mercado e o empurra para os braços da extrema-direita – mais alinhada a Jair Bolsonaro. Neste cenário, o tucano disputaria com Alckmin (ou outra opção do mercado – Rodrigo Maia, por exemplo) o voto mais moderado da direita e com Jair Bolsonaro o voto mais extremista. Ao contrário de Dória, Maia mostra-se conciliador, com força congressual e angaria apoios na mídia e no mercado.

Perceberam? João Dória está se isolando no processo político com suas narrativas agressivas e agora resolveu se aproximar de Michel Temer, o presidente mais impopular da história e quem Dória atacava há poucas semanas. A conjuntura não ajuda, mas o prefeito de São Paulo também não colabora, e já começa a enfiar os pés pelas mãos. Talvez um dos maiores pecados do tucano seja levar o acelera a sério demais e queimar cartuchos desnecessários com movimentos políticos de pré-candidato à presidência da República antes mesmo de completar um ano de mandato à frente da prefeitura da maior cidade do país.

Sem contar que o empresário adiciona doses de ódio em um processo político já castigado pela intolerância ao dizer coisas como “Dilma é uma anta”, “Lula é bandido, sem-vergonha e cara de pau”. O cientista político André Singer afirmou em artigo que a popularidade de Dória é um sintoma da crise dos partidos e que o prefeito não tem projeto nacional, portanto, uma aventura. Dória disparou: “eu não respeito um ex-porta-voz de Lula, vá passear em Curitiba”.

Esse tipo de linguagem grosseira produz antagonismos tóxicos. Isto é, João Dória planta ódio e colhe ovadas. Entenderam? Que amanhã não seja um tijolo ou um projétil fatal. A agressividade de João Dória poderá condená-lo a ficar pelo caminho da intolerância.

Cumpre ressaltar que jogar objetos em adversários é uma maneira truculenta de expressar-se politicamente que não condiz com um país democrático e civilizado.

 

Jornalista e formado em ciência política pela UNESP, André Henrique já atuou como docente, assessor parlamentar e consultor político, mas é no jornalismo que o sociólogo se realiza profissionalmente, especialmente na editoria de política.

Comente no Facebook