Jornalista do R7 conta como Edir Macedo usa a Record a favor de Bolsonaro

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Sob anonimato, um jornalista do Grupo Record disse que os profissionais do R7 se sentem “reféns” das demandas do alto comando do conglomerado de Edir Macedo, que também é fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.

Por Rafael Bruza * com informações do The Intercept Brasil

O editor-executivo do site The Intercept Brasil, Leandro Demori, publicou no último sábado (13) o texto de um jornalista anônimo do portal R7 (Grupo Record), que relata como o apoio declarado do bispo Edir Macedo, dono do conglomerado, ao candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), mudou o jornalismo do portal.

No texto, o jornalista explica que o Grupo Record inicialmente apoiava a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), mas mudou de posição no final de setembro e começou a fazer “jogo” sujo” a favor do militar.

“Após o Edir Macedo ver que o Alckmin não decolaria e declarar via Facebook que apoiaria Bolsonaro, a redação deu uma guinada. Passamos a publicar exclusivamente coisas positivas sobre o candidato do PSL e coisas mornas sobre Haddad, Ciro e Alckmin”, diz o relato. “Passado o primeiro turno, começou o jogo sujo. Nada de pauta negativa ao Bolsonaro, a não ser que seja um assunto de grande visibilidade. A gente pode subir pautas positivas do Haddad, mas geralmente elas não são chamadas na capa nem nas redes sociais. Ou seja: ninguém vê”.

Atualmente, segundo o texto, a redação do R7 recebe matérias “encomendadas” para atingir fins políticos.

“O primeiro alvo foi Ciro Gomes. Um excelente repórter foi obrigado a escrever coisas ridiculamente negativas e velhas sobre o ex-candidato do PDT, acredito eu que para tentar denegri-lo caso ele decidisse apoiar o Haddad firmemente”, relata.

“Houve brigas na Redação por que, teoricamente, deveríamos assinar essas matérias. Mas ninguém aceita expor seu nome a esse trabalho sujo. Pode notar que a maioria delas não tem assinatura. O clima ficou pesado, todos estão decepcionados de fazer esse jornalismo marrom. Um dos melhores e mais resilientes repórteres de lá agora bate boca diariamente com a chefia”.

O jornalista anônimo ainda diz que os profissionais do R7 se sentem “reféns” das demandas do alto comando do Grupo Record e afirma que recebem ordens para fazer um “antisserviço à população”, sem saber quem estabeleceu as regras “lá em cima”.

“Considerando a boa audiência do portal, especialmente entre as classes C e D, dá um aperto no coração saber que a gente pode influenciar negativamente estas eleições”, conclui o relato.

Apoio de Macedo a Bolsonaro

O bispo Edir Macedo é fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e dono do Grupo Record, quarto maior conglomerado do país.

No final de setembro, Macedo declarou apoio à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), em um vídeo ao vivo feito no Facebook.

A declaração gerou divergências entre funcionários da TV Record, como o apresentador Fábio Porchat, que decidiu não renovar contrato com a emissora depois do apoio declarado de Macedo.

Pouco depois, a TV Record fez uma entrevista exclusiva com Jair Bolsonaro, transmitida no mesmo horário que o debate da TV Globo de 4 de outubro, quando os demais candidatos à Presidência dividiam o tempo de fala entre si.

Bolsonaro argumentou na ocasião que não iria ao debate por orientação médica, uma vez que se recuperava de uma atentado a faca.

Em resposta, as campanhas dos candidatos à presidente Fernando Haddad (PT), Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL), além do deputado Wadih Damous (PT-RJ), chegaram a pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão da transmissão da entrevista, alegando falta de tratamento isonômico da Record.

O TSE, no entanto, negou o pedido e a entrevista foi ao ar.

Matérias mais vistas do R7

Algumas das notícias mais acessadas no portal R7, nesta segunda-feira (15), tratam sobre Jair Bolsonaro e adversários.

As três que possuem maior acesso são:

Repórter publica matérias contra Ciro?

O sexto artigo mais acessado do portal R7 nesta segunda é da Coluna do Fraga (editada por Domingos Fraga) e mostra uma declaração de Ciro Gomes (PDT) contra Fernando Haddad (PT), feita no final de agosto.

O título do artigo é “Ciro Gomes disse que Haddad pode destruir o país”.

Na semana passada, no entanto, o PDT de Ciro Gomes declarou “apoio crítico” à candidatura do PT, ressaltando que decidiu apoiar o petista “evitar a vitória das forças mais reacionárias e atrasadas do Brasil e a derrocada da democracia” – em referência à candidatura de Jair Bolsonaro.

Matéria contra The Intercept

O R7 também publicou nesta segunda-feira um artigo de Fernando Mellis sobre o site The Intercept Brasil, que publicou originalmente a carta do jornalista anônimo do portal exposta no início da notícia.

O artigo se chama “jornalista americano usa site para alavancar carreira do marido” e diz que o site The Intercept, do estadunidense, Glen Greenwald, “tem adotado uma linha editorial que passa longe da isenção esperada de um veículo de imprensa internacional” e serve “apenas aos interesses dos partidos de esquerda”.

Mellis também diz no texto que Greenwald é casado com o brasileiro David Miranda, que foi eleito suplente de deputado federal pelo PSOL, e afirma que o site não publica matérias contra Fernando Haddad, Lula ou o PT.

O R7 procurou o editor-executivo do site The Intercept Brasil, Leandro Demori, neste texto.

Demori afirmou que a posição política de David Miranda “não tem influência nenhuma no conteúdo editorial do The Intercept no Brasil” e que o site e Greenwald já publicoaram artigos críticos ao PSOL.

“Todos os nossos jornalistas têm total liberdade editorial para publicar o que quiserem. A chefia de reportagem não manda que seus jornalistas ataquem um candidato em detrimento de outro”, disse o editor-executivo do The Intercept Brasil sobre o caso.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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