‘Jornalistas contra o assédio’ denunciam publicação do Correio Braziliense sobre estagiária fictícia

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A coluna de Guilherme Goulart no jornal de Brasília fala sobre uma estagiária fictícia chamada “Melissinha”. O conteúdo foi considerado machista por críticos.

Por Rafael Bruza

A versão impressa e digital da coluna, respectivamente

O grupo “Jornalistas contra o Assédio”, criado depois que o cantor Biel assediou uma repórter do iG em junho de 2016, denunciou nesta segunda-feira (11) um texto da coluna de Guilherme Goulart no jornal Correio Braziliense chamado “A Estagiária”, que fala sobre uma personagem fictícia de 19 anos, criada pelo autor do texto, recém-contratada pelo jornal na história, e chamada “Melissinha”.

“Decotinho perverso, coxas de fora, pezinhos docemente acomodados em sandalinhas rasteiras. Como se estivesse em uma passarela, a mocinha de 19 anos – recém feitos – desfilou pela redação a balançar os quadris, para lá e para cá, para cá e para lá. Escondia o nervosismo com o andar tão leve e brilhante quanto pluma e paetê”, diz o texto de Gouart.

“Melissa precisou de exatos dois minutos para virar assunto na repartição. E uma semana para alcançar status singular no ambiente jornalístico”, diz outro trecho. “Se dependesse da machalhada, agora Melissinha tinha lugar assegurado nos céus de Júpiter, Urano, Netuno, Saturno e que deus mais se apresentasse”.

Após a repercussão negativa do texto, a versão digital da coluna foi apagada – três horas depois e sua publicação. Mas a edição impressa do jornal Correio Braziliense circulou durante todo o dia com o conteúdo.

Uma captura do texto foi publicada pela página Jornalistas contra o Assédio em forma de denúncia no Facebook.

“Não vamos compartilhar um único trecho deste texto porque ele todo fala por si.
Fala pelo que a mulher ainda enfrenta dentro de uma redação. Fala pelo machismo que objetifica, reduz e faz adoecer. Fala por tudo aquilo que mostra que, sim, ainda há muito a ser feito e não, não vamos nos calar”, dizem as jornalistas contra o assédio.

“Às colegas jornalistas do Correio Braziliense, nossa solidariedade. É emblemático que uma perversidade destas seja publicada por um editor em um dos periódicos mais tradicionais de Brasília — cidade onde o assédio ainda é tão presente nas relações com as fontes. É emblemático também que uma das primeiras pesquisas sobre assédio em redações brasileiras tenha sido conduzida pelo Sindicato dos Jornalistas do DF (leia aqui: https://goo.gl/yKusJm) – segundo a qual quase 80% das jornalistas sofrem assédio moral no ambiente de trabalho. Pelo jeito, e a redação do Correio parece exemplificar isso, o campo a ser pesquisado é bem amplo.”, conclui o post.

Pedido de desculpas

Guilherme Goulart se desculpou pela publicação em sua coluna de terça-feira (12), também publicada pelo Correio Braziliense e chamada “Um erro sem Perdão”.

“Poucos conhecem tanto o poder da palavra quanto um jornalista. E, mesmo assim, até ele, muitas vezes, esquece o tamanho dessa força. E eu, como tal, esqueci. Ao escrever uma crônica publicada ontem pelo Correio Braziliense, fiz o pior: constrangi a minha mãe, as minhas avós, a minha mulher, as minhas filhas, as minhas amigas, as minhas colegas de trabalho, enfim, todas as mulheres. Reconheço o meu erro e aceito todas as consequências disso”, diz Goulart no texto.

“Portanto, se me é permitido algum tipo de explicação, em “A estagiária” tentei e não consegui mostrar algo que, todos os dias, pode acontecer em diversos ambientes. Infelizmente. Nesse caso, especificamente, criei uma personagem para mostrar que o problema do assédio às mulheres continua sendo uma realidade apavorante e assustadora — e é por isso que o problema deve, sim, ser abordado, apesar de eu tê-lo feito de forma totalmente equivocada”.

“A reação provocada pelos seis parágrafos que publiquei na segunda-feira aconteceu de uma forma que eu jamais poderia prever. E, se a crônica repercutiu assim, é porque falhei. Por isso, entendo, percebo, admito e reconheço a minha falta. Aceito a revolta e a indignação de todas as mensagens que recebi ontem por e-mail, por WhatsApp, pelo Facebook etc. Fiz questão de ler todas, do início ao fim. E peço as mais sinceras desculpas. Pois acredito que esse seja o melhor caminho para a transformação necessária para que as minhas filhas cresçam em um mundo em que não haja espaço para situações como a narrada por mim, nem textos equivocados como o meu”, afirma.

O grupo Jornalistas contra o Assédio também repercutiu o pedido de desculpas.

“Mais que um pedido de desculpas, esta é a prova de que o machismo, definitivamente, é um marketing ruim. A alegada mea culpa do autor não põe por terra, entretanto, nem os relatos que nosso coletivo tem recebido de mulheres que passaram pela redação do Correio Braziliense – relatos, por sinal, pouco animadores -, muito menos a responsabilidade do jornal em publicar um material que naturaliza e reforça o assédio sexual”, diz a publicação.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Idealizou, projetou e lançou o Indepedente em fevereiro de 2016. Acredita que o futuro do mundo está dentro de cada um de nós e trabalha para que as pessoas tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.

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